Quis voltar à Rádio Eldorado. Talvez voltar nem seja o verbo exato. A gente não volta a uma rádio como volta a uma casa, a uma rua, a uma cidade. A rádio não está inteiramente em lugar nenhum. Ela se espalha. Entra pelo quarto, pelo carro, pela cozinha, pelo corredor, pelo celular esquecido sobre a […]
A última estação
Fui jovenzinho nos anos 1980. Digo assim, jovenzinho, porque havia naquele tempo uma juventude que parecia acontecer mais devagar. Ou talvez fosse apenas o mundo que ainda não tivesse aprendido a correr tanto. A gente esperava. E esperar era uma forma de amar. Eu esperava dezembro como quem espera uma revelação. Era geralmente no fim […]
Entre São Paulo e Helsinki
A Finlândia me acolhe já faz muitos anos. Nunca de maneira espetaculosa, mas silenciosa. Aos poucos, o país foi se transformando, para mim, numa espécie de segunda casa afetiva. Viajei muitas vezes ao país e trabalhei com artistas, pesquisadoras e educadores finlandeses. Aprendi um mundo de coisas com eles. Descobri, por exemplo, uma relação muito […]
O que não se aprende, acontece
No Os Satyros o gênero nunca foi uma regra. Foi sempre uma espécie de brincadeira séria. Ou talvez o contrário: uma seriedade que só se sustenta porque brinca. Desde sempre, nós, os meninos, nos tratamos no feminino. Assim, naturalmente. Como quem pede um café ou chega atrasada para o ensaio. “Amiga, você viu aquilo?” “Querida, […]
O que fica quando tudo se apaga
A internet sempre foi uma espécie de território sem mapa. E foi justamente neste lugar que nós, da Cia. de Teatro Os Satyros, decidimos fincar uma pequena bandeira, quase invisível, quase improvável. Era 1994. Entre Portugal e Brasil, criamos um site quando a própria ideia de “ter um site” ainda soava como ficção. O domínio […]
O tempo na área de serviço
Quando ela me ligou, agora pela manhã, mesmo antes de atender ao telefone, eu tive vontade de chorar. Foi o número no visor, aquele reconhecimento silencioso de quem sabe demais da nossa vida, que abriu uma fenda. Segurei. Às vezes, envelhecer também é isso: aprender a adiar o desmoronamento por alguns segundos, só o suficiente […]
Encontros que inventam futuro
Acabamos ontem a primeira temporada de Quase Todos. E ainda há, no corpo, uma espécie de eco. A peça, agora, muda de lugar. A partir do dia 30 de abril estaremos em cena no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt. Esta peça foi, talvez, o nosso trabalho mais confessional. Meu e do Rodolfo García Vázquez. Não no […]
Quando o teatro reorganiza o mundo
Hoje termina a primeira temporada de Quase Todos, que estreou no Sesc 24 de Maio, no dia 19 de março. E há algo de fim que não se parece com despedida. Aparece mais com uma respiração profunda depois de atravessar um tempo que não cabia em palavras. Voltar ao palco como ator foi, para mim, […]
O teatro não é um julgamento – manual de presença pra uma sala escura
Vou ao teatro como quem busca um lugar pra rezar. Mas talvez seja preciso dizer que reza é esta. A minha religiosidade não se dirige a um deus, mas a mim mesmo. Pra mim, rezar sempre foi isso: um instante de encontro. Um momento em que a gente suspende o ruído do mundo pra se […]
Andreas Mendes ou a delicadeza do rigor
𝐀𝐧𝐝𝐫𝐞𝐚𝐬 𝐌𝐞𝐧𝐝𝐞𝐬 𝐨𝐮 𝐚 𝐝𝐞𝐥𝐢𝐜𝐚𝐝𝐞𝐳𝐚 𝐝𝐨 𝐫𝐢𝐠𝐨𝐫 A primeira vez que vi Andreas Mendes não foi em um palco. Minha lembrança dela começa na SP Escola de Teatro, como estudante das primeiras turmas da instituição. Era uma estudante que se destacava. Não pelo esforço de aparecer, mas por uma espécie de coerência interna. Como se […]
