Um país que aprende a conviver com o horror

Ontem foi dia de Psicanálise nas Brechas, encontro que realizamos no Cine Bijou todo mês. O filme desta vez foi “Manas”, de Marianna Brennand. Saí da sessão com um aperto no peito. Não era apenas tristeza. Era algo mais indigesto. Uma mistura de revolta, impotência e vergonha coletiva. Como se o filme não tivesse terminado quando as luzes do cinema se acenderam. Como se ele continuasse acontecendo naquele exato instante, no mesmo endereço da narrativa, enquanto eu tentava reorganizar a minha respiração.

Talvez seja isso o mais devastador do filme: ele não nos oferece o conforto da distância. Não existe “época”. Não existe “caso isolado”. Não existe “ficção suficiente” capaz de aliviar o espectador. A violência continua ali. Agora. Enquanto lemos este texto. Enquanto caminhamos para assistir à próxima sessão de cinema. Enquanto conversamos sobre filmes como se o horror não estivesse acontecendo, neste exato instante, em algum lugar do país. E isso transforma a experiência de assistir a “Manas” em algo quase insuportável.

Ambientado na Ilha do Marajó, “Manas”, de Marianna Brennand, acompanha a vida de Marcielle, uma menina de 13 anos que cresce cercada por silêncios, violência e abandono. Com uma estética poderosa e profundamente humana, o filme revela como o abuso e a exploração de meninas podem se naturalizar dentro de estruturas familiares e sociais adoecidas. Mais do que uma denúncia, “Manas” é um retrato doloroso de um Brasil que insiste em permanecer invisível.

O filme é doloroso, ainda que Marianna Brennand e sua equipe tentem, em alguma medida, nos proteger através de uma estética poderosa, de uma beleza formal que parece buscar certa distância entre a obra e o horror. Mas o argumento do filme recusa qualquer anestesia. Tudo é seco. Quente. Úmido. Silencioso. O rio, a madeira das casas, os corpos cansados, os olhares das meninas… Tudo carrega uma sensação de aprisionamento moral.

O mais brutal talvez seja perceber que ninguém ali parece realmente surpreso. Porque a violência não aparece como exceção. Ela aparece como rotina. Isso produz uma indignação muito específica. Porque, diante de certas tragédias, o horror ainda pode ser acompanhado de espanto. Mas, quando a barbárie vira paisagem, alguma coisa da nossa humanidade também começa a adoecer.

Saí pensando muito na Ilha do Marajó. Não como metáfora. Não como conceito sociológico. Mas como território concreto. Crianças concretas. Corpos concretos. Meninas concretas. E pensei em como o Brasil consegue conviver com determinadas violências durante séculos sem jamais transformá-las verdadeiramente em emergência nacional.

Me lembrei imediatamente de Damares Alves, que ocupou o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos entre 2019 e 2022, e que, ao tratar da realidade do Marajó, muitas vezes contribuiu para transformar uma tragédia complexa em disputa moral, ruído midiático e desinformação. O tema exigia cuidado, escuta, política pública e responsabilidade. Recebeu, em muitos momentos, simplificação e espetáculo.

E aqui talvez seja importante dizer uma coisa delicada. Não me interessa transformar sofrimento humano em disputa partidária simplória. O problema é mais profundo do que governos específicos. Mas existe algo especialmente perverso quando pautas tão graves acabam capturadas por discursos performáticos, morais ou religiosos, mais interessados em produzir choque do que políticas públicas consistentes.

O filme nos obriga a encarar uma pergunta terrível: quem protege essas meninas quando o Estado inteiro falha?

“Manas” não trabalha com grandes discursos. E talvez justamente por isso seja tão devastador. O filme entende que a violência mais cruel raramente chega gritando. Muitas vezes ela chega cansada. Repetida. Naturalizada. Herdada. Passando de geração em geração até virar uma espécie de clima emocional permanente.

O filme joga na nossa cara pequenas cenas silenciosas em que sentimos que aquelas meninas já aprenderam cedo demais a diminuir o próprio corpo para sobreviver. E isso é de uma tristeza quase física.

O cinema brasileiro, às vezes, produz obras importantes. Outras vezes, obras necessárias. E, em raros momentos, produz obras-primas. “Manas” pertence a essa última categoria. Porque o filme não apenas retrata uma ferida social. Ele impede que a gente desvie os olhos dela. Talvez o verdadeiro desconforto venha justamente daí: da percepção de que o horror não está distante de nós.

E, em “Manas”, o horror fala português. Tem CEP. Tem rio. Tem infância interrompida E continua acontecendo enquanto discutimos se o filme é “forte demais”.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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