Como sobreviver dentro da história do outro

Existe alguma coisa profundamente comovente quando um paciente fala sem parar durante quarenta e cinco minutos e, ao final, diz baixinho: preciso te ouvir.

Porque, naquele instante, a análise revela uma das suas verdades mais delicadas. Ninguém fala tanto apenas para ser escutado. Às vezes, falamos longamente apenas para descobrir se alguém consegue permanecer vivo dentro da paisagem que carregamos por dentro.

Hoje, meu paciente construiu um mundo inteiro diante de mim. Trouxe livros, família, pandemia, cidades, fantasmas, Stephen King, livrarias desaparecidas, inteligência artificial, o menino estranho que escrevia compulsivamente, o homem cansado que tentava sobreviver trabalhando em hospitais enquanto escrevia nas férias como quem salvava a própria pele. Falou sem respirar, como se costurasse os fragmentos de uma vida inteirinha que corre o risco permanente de se perder nas mudanças.

E eu fiquei ali.

Talvez seja isso o que a transferência tenha de mais bonito. E menos explicado pelos manuais. Não apenas o amor dirigido ao analista, como queria Freud, mas a esperança silenciosa de que exista alguém capaz de atravessar conosco os corredores da nossa própria confusão sem fugir no meio do caminho.

Quando ele diz “preciso te ouvir”, não pede exatamente uma interpretação. Pede um sinal de sobrevivência.

Como quem pergunta: você conseguiu permanecer aí dentro enquanto eu mostrava tudo isso? Você ainda está comigo depois de conhecer essa floresta? Sobrou alguém vivo depois que abri as portas?

Existem pacientes que falam pouco porque têm medo do abismo. Outros falam muito pelo mesmo motivo. Como se as palavras impedissem o desmoronamento. Como se continuar falando fosse uma maneira de manter o mundo de pé por mais alguns minutos.

E talvez seja justamente aí que a psicanálise aconteça. Não apenas na interpretação brilhante, mas na capacidade quase humana, profundamente humana, de continuar presente enquanto o outro tenta reorganizar os próprios destroços em forma de narrativa.

No fim, acho que muitos pacientes não querem exatamente respostas. Querem testemunhas. Alguém que consiga permanecer.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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