Escrever à mão

Talvez uma das maiores ilusões do nosso tempo seja acreditar que pensar acontece apenas diante de telas. Eu continuo escrevendo à mão. Escrevo muito à mão. Na clínica, enquanto escuto, anoto. Sei que isso já não está exatamente na moda. Há quem prefira confiar apenas na memória, há quem tema que a escrita interrompa a […]

O primeiro voto

Eu tinha seis anos quando participei da minha primeira eleição. Não foi para presidente da República. Nem para prefeito. Nem para governador. Foi para presidente do grêmio estudantil da escola primária. Um cargo cuja importância prática, suspeito hoje, era próxima de zero. Mas cuja importância simbólica, para mim, só cresceu com o passar dos anos. […]

Quem matou?

Passei os últimos dias pensando em Os Irmãos Karamazov. Na verdade, pensando menos no romance e mais no que ele continua fazendo conosco quase cento e cinquenta anos depois de ter sido publicado. Foi o último livro de Dostoiévski. Publicado em 1880, conta a história de uma família desajustada: um pai, três filhos reconhecidos e […]

O que um curso não ensina

Hoje todo mundo corre atrás de certificados como quem tenta construir uma identidade empilhando comprovantes de existência. Cursos, selos, especializações, MBAs, extensões, workshops. Tudo vai abastecendo o LinkedIn, o Lattes, os perfis profissionais, essa espécie de vitrine permanente onde parece necessário provar, o tempo inteiro, que seguimos produtivos, atualizados, funcionais. Uma obsessão, eu diria. Como […]

Um aniversário para Phedra

Ontem foi aniversário da Phedra. Eu não havia me lembrado da data, embora, nos últimos dias, tenha trabalhado com ela diariamente. Especialmente ontem, quando coloquei o ponto final em um pequeno livro que escrevo sobre sua vida para a coleção “Vidas Sequestradas”, da editora Sexo das Palavras, organizada por César Braga-Pinto, professor de literatura da […]

Como sobreviver dentro da história do outro

Existe alguma coisa profundamente comovente quando um paciente fala sem parar durante quarenta e cinco minutos e, ao final, diz baixinho: preciso te ouvir. Porque, naquele instante, a análise revela uma das suas verdades mais delicadas. Ninguém fala tanto apenas para ser escutado. Às vezes, falamos longamente apenas para descobrir se alguém consegue permanecer vivo […]

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