Eu tinha seis anos quando participei da minha primeira eleição. Não foi para presidente da República. Nem para prefeito. Nem para governador. Foi para presidente do grêmio estudantil da escola primária. Um cargo cuja importância prática, suspeito hoje, era próxima de zero. Mas cuja importância simbólica, para mim, só cresceu com o passar dos anos. […]
Quem matou?
Passei os últimos dias pensando em Os Irmãos Karamazov. Na verdade, pensando menos no romance e mais no que ele continua fazendo conosco quase cento e cinquenta anos depois de ter sido publicado. Foi o último livro de Dostoiévski. Publicado em 1880, conta a história de uma família desajustada: um pai, três filhos reconhecidos e […]
Depois de Phedra
Nem todo mundo tem o privilégio de devolver uma amiga à história. Eu tive. E isso me alegra profundamente. Nas últimas semanas terminei de escrever um pequeno livro sobre Phedra D. Córdoba. Em breve ele será publicado pela editora O Sexo da Palavra, na coleção Vidas Sequestradas, dirigida por César Braga-Pinto. Sinto orgulho disso. Da […]
O que um curso não ensina
Hoje todo mundo corre atrás de certificados como quem tenta construir uma identidade empilhando comprovantes de existência. Cursos, selos, especializações, MBAs, extensões, workshops. Tudo vai abastecendo o LinkedIn, o Lattes, os perfis profissionais, essa espécie de vitrine permanente onde parece necessário provar, o tempo inteiro, que seguimos produtivos, atualizados, funcionais. Uma obsessão, eu diria. Como […]
Um aniversário para Phedra
Ontem foi aniversário da Phedra. Eu não havia me lembrado da data, embora, nos últimos dias, tenha trabalhado com ela diariamente. Especialmente ontem, quando coloquei o ponto final em um pequeno livro que escrevo sobre sua vida para a coleção “Vidas Sequestradas”, da editora Sexo das Palavras, organizada por César Braga-Pinto, professor de literatura da […]
Um país que aprende a conviver com o horror
Ontem foi dia de Psicanálise nas Brechas, encontro que realizamos no Cine Bijou todo mês. O filme desta vez foi “Manas”, de Marianna Brennand. Saí da sessão com um aperto no peito. Não era apenas tristeza. Era algo mais indigesto. Uma mistura de revolta, impotência e vergonha coletiva. Como se o filme não tivesse terminado […]
Como sobreviver dentro da história do outro
Existe alguma coisa profundamente comovente quando um paciente fala sem parar durante quarenta e cinco minutos e, ao final, diz baixinho: preciso te ouvir. Porque, naquele instante, a análise revela uma das suas verdades mais delicadas. Ninguém fala tanto apenas para ser escutado. Às vezes, falamos longamente apenas para descobrir se alguém consegue permanecer vivo […]
𝐎 𝐞𝐬𝐭𝐫𝐚𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐚𝐩𝐚𝐫𝐞𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐚𝐬 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐚𝐦𝐚𝐝𝐚𝐬
Na página de hoje do UOL, encontro uma matéria sobre Brad Pitt falando de um distúrbio que carrega há anos: a prosopagnosia, uma espécie de ‘cegueira facial’. Leio aquilo com uma espécie de alívio, desses que não fazem barulho porque vêm acompanhados de vergonha antiga. Então não sou apenas eu. Então existe nome para essa […]
A rádio Eldorado e a voz que ficava acesa
Quis voltar à Rádio Eldorado. Talvez voltar nem seja o verbo exato. A gente não volta a uma rádio como volta a uma casa, a uma rua, a uma cidade. A rádio não está inteiramente em lugar nenhum. Ela se espalha. Entra pelo quarto, pelo carro, pela cozinha, pelo corredor, pelo celular esquecido sobre a […]
A última estação
Fui jovenzinho nos anos 1980. Digo assim, jovenzinho, porque havia naquele tempo uma juventude que parecia acontecer mais devagar. Ou talvez fosse apenas o mundo que ainda não tivesse aprendido a correr tanto. A gente esperava. E esperar era uma forma de amar. Eu esperava dezembro como quem espera uma revelação. Era geralmente no fim […]
