No Peru, um movimento pelo teatro independente

Para quem observa o teatro peruano a partir do Brasil, uma diferença chama imediatamente a atenção. Enquanto, entre nós, grande parte da formação artística está concentrada em universidades, escolas especializadas e instituições permanentes, no Peru o teatro pulsa sobretudo através dos grupos independentes espalhados por todo o território nacional.

Existem poucas instituições dedicadas à formação superior em teatro e, muitas vezes, elas permanecem relativamente distantes da vida cotidiana dos coletivos que produzem a maior parte da criação cênica do país. É nos grupos, nas companhias e nos espaços independentes que artistas aprendem, pesquisam, experimentam, formam novas gerações e constroem uma tradição que atravessa décadas. Em muitas cidades, especialmente fora de Lima, o teatro continua existindo porque comunidades inteiras decidiram que ele não poderia desaparecer.

É justamente desse entendimento que nasce o Movimiento de Teatro Independiente del Perú (MOTÍN). Mais do que uma organização, o MOTÍN é uma comunidade construída por artistas, coletivos, pesquisadoras, pesquisadores, pedagogos e agentes culturais que, há décadas, acreditam que o teatro pode ser uma forma de encontro, pensamento e transformação social.

Sua história começa em 1974, quando a dramaturga Sara Joffré criou a Muestra Nacional de Teatro Peruano. A iniciativa aproximou grupos espalhados por um país de enormes distâncias geográficas e culturais, permitindo que artistas da costa, da serra e da Amazônia passassem a reconhecer-se como parte de uma mesma história. Em 1990, essa rede de afetos, trocas e colaboração ganhou um nome: Movimiento de Teatro Independiente del Perú (MOTÍN). Vinte anos depois, em 2010, o movimento formalizou-se como associação cultural sem fins lucrativos, preservando como patrimônio toda a trajetória construída desde a primeira mostra.

Desde então, o MOTÍN tornou-se uma das principais vozes do teatro independente peruano. Seu trabalho ultrapassa a realização de encontros ou festivais. O movimento fortalece a circulação de artistas entre diferentes regiões, incentiva a dramaturgia, a direção, a atuação, a crítica, a pesquisa e a pedagogia teatral. Defende políticas públicas para a cultura, preserva a memória do teatro peruano e cria condições para que novas gerações encontrem espaço para criar.

Mas talvez sua maior realização seja outra. Ao longo de mais de três décadas, o MOTÍN demonstrou que independência não significa isolamento. Pelo contrário. Significa construir redes onde antes havia distâncias, produzir diálogo onde havia silêncio e transformar a diversidade cultural do Peru numa potência criativa compartilhada.

 

Atualmente presidido por Mary Soto, poeta, jornalista, crítica de teatro e pesquisadora, o movimento segue reafirmando um princípio simples e profundamente necessário. O teatro independente não sobrevive apenas porque existem artistas talentosos. Ele sobrevive porque existem comunidades dispostas a cuidar dele. Talvez seja justamente esse o maior legado do MOTÍN: lembrar que nenhuma cena artística se sustenta apenas sobre espetáculos. Ela se sustenta, sobretudo, sobre pessoas que decidem permanecer juntas.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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