Existe uma ideia muito bonita escondida dentro do teatro. A de que pertencimento nem sempre é uma questão de origem. Às vezes, é uma escolha.
Conheci muitas pessoas durante os dias em que participei do XI Taller Nacional de Teatro Independiente Peruano, em Arequipa. Todas importantes. Mas uma delas despertava em mim uma curiosidade especial. Era brasileira e, ao mesmo tempo, parecia completamente integrada àquela comunidade de artistas espalhada por todo o Peru. Ela se chama Ana Beatriz Pestana.
Ana estudou na SP Escola Superior de Teatro. Poderia ter permanecido no Brasil, como tantos de nossos estudantes. Mas escolheu outro caminho. Escolheu o mundo. Antes de chegar ao Peru, viveu durante anos na Índia. Hoje, divide a vida entre Peru, Brasil e Estados Unidos, onde realiza mais um estágio de pós-doutorado. Compreendeu que algumas pessoas pertencem menos a um território do que às comunidades que ajudam a construir. Talvez seja essa a razão de ter se tornado uma importante articuladora do teatro independente peruano.
Ao lado do diretor e pesquisador Carlos Vargas, Ana Beatriz foi uma das responsáveis pela realização do XI Taller Nacional de Teatro Independiente Peruano. Durante quatro dias, artistas vindos de diferentes regiões do Peru, da costa, da serra e da Amazônia, encontraram-se com colegas do Brasil e do México para trocar experiências, compartilhar pesquisas, discutir pedagogias e fortalecer vínculos. Ao final, permanecia a sensação de que uma mesma convicção atravessava todas aquelas vozes. O teatro continua existindo porque sempre haverá pessoas dispostas a cuidar dele e, sobretudo, umas das outras.
Talvez seja justamente isso que mais me impressionou no teatro peruano. Sua força não nasce das grandes instituições nem de estruturas monumentais. Nasce dos grupos. Nasce das redes de colaboração. Nasce de pessoas que compreendem que a sobrevivência de um coletivo depende, muitas vezes, da sobrevivência de todos os outros.
Ana Beatriz parece ter compreendido isso profundamente. Sua presença ali não era a de uma brasileira ajudando a organizar um encontro. Era a de alguém que havia encontrado uma comunidade à qual pertencia. E essa talvez seja uma das maiores conquistas que uma vida dedicada à arte pode oferecer.
Confesso que senti um orgulho silencioso ao vê-la. Não apenas porque é brasileira. Nem apenas porque passou pela SP Escola Superior de Teatro. Mas porque sua trajetória me fez pensar que uma escola de teatro nunca forma apenas atores, diretoras ou dramaturgos.
No fim das contas, talvez esse seja o verdadeiro destino da arte. Não o sucesso. Nem a fama. Muito menos o mercado. Seu destino mais profundo talvez seja outro: fazer com que alguém encontre um lugar no mundo e, ao encontrá-lo, ajude outras pessoas a também se sentirem em casa.
