Quando ela me ligou, agora pela manhã, mesmo antes de atender ao telefone, eu tive vontade de chorar. Foi o número no visor, aquele reconhecimento silencioso de quem sabe demais da nossa vida, que abriu uma fenda. Segurei. Às vezes, envelhecer também é isso: aprender a adiar o desmoronamento por alguns segundos, só o suficiente […]
Encontros que inventam futuro
Acabamos ontem a primeira temporada de Quase Todos. E ainda há, no corpo, uma espécie de eco. A peça, agora, muda de lugar. A partir do dia 30 de abril estaremos em cena no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt. Esta peça foi, talvez, o nosso trabalho mais confessional. Meu e do Rodolfo García Vázquez. Não no […]
Quando o teatro reorganiza o mundo
Hoje termina a primeira temporada de Quase Todos, que estreou no Sesc 24 de Maio, no dia 19 de março. E há algo de fim que não se parece com despedida. Aparece mais com uma respiração profunda depois de atravessar um tempo que não cabia em palavras. Voltar ao palco como ator foi, para mim, […]
O teatro não é um julgamento – manual de presença pra uma sala escura
Vou ao teatro como quem busca um lugar pra rezar. Mas talvez seja preciso dizer que reza é esta. A minha religiosidade não se dirige a um deus, mas a mim mesmo. Pra mim, rezar sempre foi isso: um instante de encontro. Um momento em que a gente suspende o ruído do mundo pra se […]
Andreas Mendes ou a delicadeza do rigor
𝐀𝐧𝐝𝐫𝐞𝐚𝐬 𝐌𝐞𝐧𝐝𝐞𝐬 𝐨𝐮 𝐚 𝐝𝐞𝐥𝐢𝐜𝐚𝐝𝐞𝐳𝐚 𝐝𝐨 𝐫𝐢𝐠𝐨𝐫 A primeira vez que vi Andreas Mendes não foi em um palco. Minha lembrança dela começa na SP Escola de Teatro, como estudante das primeiras turmas da instituição. Era uma estudante que se destacava. Não pelo esforço de aparecer, mas por uma espécie de coerência interna. Como se […]
Cuba: O sol que insiste, mesmo quando não aparece
Cuba, pra mim, não cabe em uma opinião. Eu poderia começar dizendo que não tenho posição sobre o regime de governo cubano. E, de fato, não tenho uma posição fechada. O que tenho são camadas. Reconheço, sim, conquistas que impressionam, sobretudo na saúde, na formação médica, na capacidade de um país pequeno produzir um sistema […]
Marina Lima: o que permanece quando tudo passa
Ópera Grunkie, o mais recente álbum de Marina Lima, já nasce imponente. Talvez seja o trabalho mais importante de sua trajetória. É também um dos mais criativos. Há nele uma musicalidade atravessada por uma modernidade viva, dessas que não perdoam a inteligência, nem as formas que ela encontra para se inscrever no tempo em que […]
Nunca foi ruptura, sempre foi caminho
Leio agora o que Gabi Loran disse sobre a novela “As Três Graças” ter rompido a barreira de gênero. E, enquanto leio, não há em mim qualquer impulso de disputa. Há, antes, reconhecimento. Um certo alívio. Como se algo que, durante tanto tempo, precisou ser dito em voz baixa, agora pudesse, enfim, circular em voz […]
Quase todos choram – mas nem todos explicam o choro
Existe uma diferença quase imperceptível – e talvez decisiva – entre o drama e o melodrama. Às vezes, ela não está no que se conta, mas no modo como se olha. No gesto que acompanha a dor. No silêncio que se permite permanecer. “Quase Todos”, à primeira vista, poderia ser facilmente confundido com um melodrama. […]
Quase todos os tempos
O tempo tem me atravessado de um jeito insistente. E eu ainda não sei exatamente o que fazer com isso. Não é uma tentativa de dominá-lo. Isso seria ingênuo. Mas de estabelecer com ele uma espécie de convivência possível. Quase um acordo silencioso. Porque o tempo, aprendi, não se deixa capturar. Ele atravessa. Talvez por […]
