Ontem foi dia de Psicanálise nas Brechas, encontro que realizamos no Cine Bijou todo mês. O filme desta vez foi “Manas”, de Marianna Brennand. Saí da sessão com um aperto no peito. Não era apenas tristeza. Era algo mais indigesto. Uma mistura de revolta, impotência e vergonha coletiva. Como se o filme não tivesse terminado […]
Como sobreviver dentro da história do outro
Existe alguma coisa profundamente comovente quando um paciente fala sem parar durante quarenta e cinco minutos e, ao final, diz baixinho: preciso te ouvir. Porque, naquele instante, a análise revela uma das suas verdades mais delicadas. Ninguém fala tanto apenas para ser escutado. Às vezes, falamos longamente apenas para descobrir se alguém consegue permanecer vivo […]
𝐎 𝐞𝐬𝐭𝐫𝐚𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐚𝐩𝐚𝐫𝐞𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐚𝐬 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐚𝐦𝐚𝐝𝐚𝐬
Na página de hoje do UOL, encontro uma matéria sobre Brad Pitt falando de um distúrbio que carrega há anos: a prosopagnosia, uma espécie de ‘cegueira facial’. Leio aquilo com uma espécie de alívio, desses que não fazem barulho porque vêm acompanhados de vergonha antiga. Então não sou apenas eu. Então existe nome para essa […]
A rádio Eldorado e a voz que ficava acesa
Quis voltar à Rádio Eldorado. Talvez voltar nem seja o verbo exato. A gente não volta a uma rádio como volta a uma casa, a uma rua, a uma cidade. A rádio não está inteiramente em lugar nenhum. Ela se espalha. Entra pelo quarto, pelo carro, pela cozinha, pelo corredor, pelo celular esquecido sobre a […]
A última estação
Fui jovenzinho nos anos 1980. Digo assim, jovenzinho, porque havia naquele tempo uma juventude que parecia acontecer mais devagar. Ou talvez fosse apenas o mundo que ainda não tivesse aprendido a correr tanto. A gente esperava. E esperar era uma forma de amar. Eu esperava dezembro como quem espera uma revelação. Era geralmente no fim […]
Entre São Paulo e Helsinki
A Finlândia me acolhe já faz muitos anos. Nunca de maneira espetaculosa, mas silenciosa. Aos poucos, o país foi se transformando, para mim, numa espécie de segunda casa afetiva. Viajei muitas vezes ao país e trabalhei com artistas, pesquisadoras e educadores finlandeses. Aprendi um mundo de coisas com eles. Descobri, por exemplo, uma relação muito […]
O que não se aprende, acontece
No Os Satyros o gênero nunca foi uma regra. Foi sempre uma espécie de brincadeira séria. Ou talvez o contrário: uma seriedade que só se sustenta porque brinca. Desde sempre, nós, os meninos, nos tratamos no feminino. Assim, naturalmente. Como quem pede um café ou chega atrasada para o ensaio. “Amiga, você viu aquilo?” “Querida, […]
O que fica quando tudo se apaga
A internet sempre foi uma espécie de território sem mapa. E foi justamente neste lugar que nós, da Cia. de Teatro Os Satyros, decidimos fincar uma pequena bandeira, quase invisível, quase improvável. Era 1994. Entre Portugal e Brasil, criamos um site quando a própria ideia de “ter um site” ainda soava como ficção. O domínio […]
O tempo na área de serviço
Quando ela me ligou, agora pela manhã, mesmo antes de atender ao telefone, eu tive vontade de chorar. Foi o número no visor, aquele reconhecimento silencioso de quem sabe demais da nossa vida, que abriu uma fenda. Segurei. Às vezes, envelhecer também é isso: aprender a adiar o desmoronamento por alguns segundos, só o suficiente […]
Encontros que inventam futuro
Acabamos ontem a primeira temporada de Quase Todos. E ainda há, no corpo, uma espécie de eco. A peça, agora, muda de lugar. A partir do dia 30 de abril estaremos em cena no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt. Esta peça foi, talvez, o nosso trabalho mais confessional. Meu e do Rodolfo García Vázquez. Não no […]
