Um prefácio para “Crônicas de reeducandos – Um olhar, olhares”

Divido com vocês o meu prefácio para o livro “Crônicas de reeducandos – Um olhar, olhares”, lançado pela Gistri Editora. O livro faz parte do projeto “Virando a Página – Remição pela Leitura” executado na Colônia Penal Lafayete Coutinho, em Salvador, na Bahia, desde 2015.

Trata-se de uma oficina literária liderada pela Corregedoria-Geral de Justiça do Poder Judiciário baiano e está em sua segunda edição. No programa, a cada livro lido pelos detentos, suas penas são diminuídas em quatro dias. E os que participam das oficinas literárias, 12 horas de trabalho representam um dia de remição.

Os reeducandos foram estimulados a escreverem a partir de três provocações: relações familiares, sistema prisional brasileiro e perspectiva de futuro.

 

A memória como possibilidade de redenção
Ivam Cabral, psicanalista

Não, definitivamente o tempo não apaga nossas lembranças. Nas profundezas de nossas mentes existe guardado um cabedal preciosíssimo que sempre nos direciona para recônditos muitas vezes cheios de maravilhamentos ou, tantas vezes, temidos pelo nossos eus. Coisas que ficaram estranguladas, muitas vezes até, para nos salvar. Por isso nos preocupamos mais com o real, em nossas constantes tentativas de salvação. Nossas lembranças não nos salvaguardam porque a conta social deverá ser paga pelas nossas realidades. Lacan irá nos alertar para o sentido de realidade, algo que sempre retorna para o mesmo lugar e que, na impossibilidade de alcance ou compreensão absoluta, se esvai na linguagem ou na abstração, simplesmente. Uma espécie de núcleo insétil e inacessível da experiência que determina o humano.

Toda nossa noção de realidade será sempre moldada pelas experiências simbólicas e linguísticas que vivemos. Por isso o inconsciente é importante nesse processo. É dele que surge toda a nossa compreensão e percepção do mundo, que serão mediadas por nossos desejos, fantasias e projeções. Isso tudo para dizer que, afinal, a realidade é apenas uma construção subjetiva e estará sempre em diálogo com nossas experiências do passado, nossas linguagens e nossos inconscientes.

É deste (não) lugar que emergem os três capítulos deste livro, “Um olhar – Olhares”, escrito pelos detentos da Colônia Penal Lafayete Coutinho, de Salvador, na Bahia. Uma beleza de leitura, é bom deixar registrado. São 18 autores que versarão sobre passado, presente e futuro, através dos pontos sugeridos pelo editor do livro – relações familiares, sistema prisional no Brasil e futuros.

Em todos estes trabalhos, o passado como ferramenta de salvação para o presente e suas (possíveis) remissões futuras. As memórias surgindo como experiências que dialogam com o presente, evocadas por estímulos sensoriais ou como eventos, pessoas ou lugares do passado que sempre permanecerão conosco, seja em nossas sequências de realidade ou de lembranças, simplesmente.

Nossas memórias são vivas e, involuntariamente, trabalham em direção ao presente. Para o bem e para o mal, podem nos fornecer ideias de continuidade e conexões não só pelo que entendemos de realidade, mas com o nosso futuro. Porque a elas são dadas a possibilidade de reflexão e abstração. Um processo natural e lógico; nada complexo, é bom afirmar.

E já que falamos sobre Lacan, que enfatiza, além do inconsciente, a importância das estruturas simbólicas na formação da subjetividade humana, podemos afirmar que este livro é desenhado pelas fantasias, desejos e as relações com o simbólico de seus autores. Essas fantasias inconscientes exercem um papel crucial na relação deles com o futuro porque são formadas a partir dos conflitos não resolvidos do passado. Apesar do medo ou esperanças que possam experienciar, certamente serão afetadas pelas suas tomadas de decisões no presente, o que, afinal é o que importa agora.

A linguagem como estrutura simbólica na tentativa de modificação do passado – sim, a história não é algo que não possa ser mudado; aliás, cada vez mais precisamos revisitá-la para que seja ressignificada, isso, inclusive, é urgente! – é apresentada neste volume para além de um exercício criativo. Antes, como um direito cidadão.

Desta forma, já que caminhamos para um mundo cada vez mais conectado e globalizado, é importante que as vozes destes 18 autores sejam ouvidas. Principalmente em um momento em que a cultura, e só ela, poderá balizar a conformidade e uma certa hegemonia entre multiplicidades e dimensões dissonantes. É mais do que necessário – fundamental, eu diria – que elocuções como estas sejam celebradas. Afinal, em um reduto onde fomos conduzidos pela arte, nos interessará, a partir de agora, uma direção à singularidade. Só assim teremos a chance de nos modificar enquanto indivíduos e praticar a possibilidade, ainda que utópica, de transformação radical do mundo em que vivemos.

Deste modo o futuro deixará de ser uma dimensão vasta e misteriosa para alcançar um espaço minimamente seguro com possibilidades. E agora voltamos a falar em cidadania. Embora não tenhamos controle sobre as incertezas e os mistérios do que nos espera, sabemos que o mundo está em constante mudança e a única coisa da qual temos convicção é exatamente esta própria mudança que deve ser abraçada justamente por sua ambiguidade. Assim, com ajuda dos poderes públicos – e da arte, certamente –, o desconhecido poderá ser este abraço cheio de possibilidades e oportunidades.

Boa leitura a todas e a todos!

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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