PSICANÁLISE | A Identificação Projetiva e o Complexo de Édipo Precoce, segundo Melanie Klein

O Ego ao nascer

Em seu artigo “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides”, de 1946, Melanie Klein (1882 – 1960) introduz o conceito de Identificação Projetiva, através de reflexões acerca das projeções, primeiro como fantasia inconsciente, na posição esquizoparanóide, no momento onde este bebê coloca para fora partes de seu self em direção de algum objeto.

Após a conceituação da Identificação Projetiva, Klein irá chegar ao Édipo precoce, contrapondo Sigmund Freud (1856 – 1939), que considera que o Complexo de Édipo ocorre entre os três e cinco anos de vida de uma criança. Embora freudiana, como sempre se colocou, Klein irá distanciar-se de Freud principalmente quando afirma que o sujeito já nasce com pequenas partes do ego elaborado.

Para dissertar sobre Identificação Projetiva e Complexo de Édipo Precoce vamos debruçar sobre a obra de Melanie Klein.

Para tanto, utilizaremos, entre outros e basicamente, sua obra “Amor, culpa e reparação e outros trabalhos”, publicada no Brasil pela editora Imago, em 1996; além de, entre outros, dos livros: “Introdução à obra de Melanie Klein”, de Hanna Segal, de 1995, também editado pela Imago, e “Introdução à Psicanálise: Melanie Klein”, de Ryad Simon, da Editora Pedagógica e Universitária, de 1986.

Identificação projetiva

Como já mencionamos, em 1946 Melanie Klein conceitua a Identificação Projetiva, a partir de estudos que a possibilitaram chegar à descoberta daquilo que denominou “posição esquizoparanóide”. É neste exato momento que, enquanto o bebê recém-nascido começa a funcionar biológica e psiquicamente, seu mundo interno vai se constituindo a partir do impacto que, ao nascer, tem primeiro suas fontes internas, que são as fontes orgânicas, das necessidades biológicas para a sobrevivência na condição de que ele é absolutamente dependente de um cuidador externo. Isso é uma condição fundamental para se pensar o psiquismo, a constituição do psiquismo. A Identificação Projetiva foi concebida como modalidade básica da comunicação inconsciente. (DELOUYA, 2022)

Segundo Klein, a Identificação Projetiva se inicia desde o primeiro momento de vida. Nascemos tanto com pulsão de vida quanto com a pulsão de morte. Uma parte fica dentro de nós, outra é o que Freud vai chamar de deflexão, que é colocada para fora, em direção à outra pessoa, normalmente a própria mãe, o que seria, ainda segundo Klein, a primeira Identificação Projetiva. Assim, esta progenitora não só receberá os aspectos bons desta identificação, mas também aquilo que é perigoso e danoso, conteúdos do próprios do bebê em relação à esta outra pessoa.

Também podemos entender que a Identificação Projetiva é:

O resultado da projeção de partes do eu (self) no objeto. Pode ter como resultado não só o fato de que se perceba o objeto como sendo adquirido as características da parte projetada do eu (self), mas também o de que o eu (self) se torne identificado com o objeto de sua projeção. (SEGAL, 1975, p. 141)

Projetamos o que é nosso no outro, naquilo que reconhecemos dele em nós e que achamos que não é nosso e que, portanto, não reconhecemos. A grosso modo, um exemplo banal: o paciente que chega na sessão e diz algo como “Ah, minha mulher nunca faz nada”. Este paciente poderá estar projetando na mulher aspectos que são dele, que ele não gosta em si próprio e que, seguramente, não os reconhecem em si.

Identificações projetivas, também, são defesas fundamentais na vida de um sujeito. São aspectos que atribuímos ao outro. Eu não me vejo, mas reconheço no outro vários aspectos que são meus.

Trata-se de um mecanismo de defesa que (…) representa, principalmente, um tipo particular de relação de objeto. É uma relação em que o objeto, enquanto tal, desaparece para dar lugar a um objeto que é prolongamento do ego, isto é, uma identificação. (SIMON, 1986, p. 92)

Ainda segundo Klein, todo trânsito da Identificação Projetiva se dá dentro da posição esquizoparanóide e é uma maneira de comunicação do bebê, no ato de projeção e introjeção.

Um exemplo rápido é na alimentação. Antes de aceitar o alimento o bebê, em muitos casos, recusa o alimento. O alimento recusado pode ser a própria mãe. Este jogo de vai e vem, ocorre na normalidade, mas quando acontece de maneira excessiva podemos estar diante de alguma patologia. Um psicótico, por exemplo, funciona sempre nas identificações projetivas. Quanto maior for o grau de uso das identificações projetivas mais o sujeito terá um funcionamento psicótico.  Porque ela estará vendo no outro coisas de si mesma. Quanto mais identificações projetivas, mais empobrecimento da personalidade e menos contato com a realidade.

Para Klein as identificações projetivas, como processos de sentir partes do eu, têm o objetivo de se livrar de alguma coisa que é intolerável para o sujeito. Então você se livra e projeta no outro. No desenvolvimento normal, tem uma importância vital; nas relações dos objetos anormais, poderá tomar dimensão muito grande e se manifestar em agressividade. A Identificação Projetiva se manifesta tanto em objetos bons quanto maus, indistintamente. O bebê se livra de sentimento violentos vivenciando-os fora de si no objeto. Isso é uma forma que ele encontra para se livrar da perturbação. Mas quando ele faz isso, passa, no entanto, a sentir ansiedades em relação ao objeto e a recorrer às novas defesas que o proteja da perseguição.

Trata-se de uma forma específica de identificação que tem um caráter de expulsão violenta de partes do self para dentro do objeto, enfraquecendo o ego, gerando confusão e indiscriminação entre sujeito e objeto. Se a expulsão for de partes consideradas más, há intensificação da persecutoriedade em relação ao objeto. Se o que predominar for a projeção de partes boas, isso tanto pode tornar as relações de objeto mais amorosas, favorecendo a introjeção do bom objeto e gerando integração, quanto um enfraquecimento do ego, caso a projeção das partes boas seja excessiva. Ou seja, quando a projeção de partes boas é demasiada, a mãe (e posteriormente outras pessoas) pode tornar-se o ideal do ego, favorecendo relações de dependência extrema e um empobrecimento do ego, pois os aspectos bons são todos atribuídos a um outro e não podem ser assimilados pelo ego. (RIBEIRO, 2022)

Klein também irá dizer que a Identificação Projetiva pode ser uma tentativa de conhecer e controlar o objeto, com o objetivo de evitar qualquer percepção de separação das suas emoções concomitantes. Então, eu sei o que é o outro, mas eu projeto nele determinadas características minhas e eu reconheço nele o que antes era eu, não existindo, a partir daí, uma diferenciação entre eu e este outro, que, a partir deste momento, passa a ser uma coisa só porque ele, o outro, é mais uma pessoa apartada de mim. Desta forma, ao saber o que está se passando com o outro, eu nego o fato de que ele seja uma pessoa diferente de mim e que existe qualquer separação entre nós.

Nesta fase, o objeto não é sentido como apartado, ele é sentido como uma parte própria do bebê, sem que ele se dê conta disso. Para o bebê, o objeto é aquilo que ele projetou porque ainda não tem a noção de que aquele outro seja, realmente, uma pessoa dissociada de si.

No entanto, a excessiva cisão de partes do ego para o meio externo enfraquece o sujeito porque precisamos dos componentes agressivos ou das qualidades boas desejadas e projetadas no outro. Projetado demais, o ego enfraquece e aumenta a sua dependência porque necessitará destas partes agressivas para a sua sobrevivência.

Quando falamos de Identificação Projetiva também estamos falando de uma relação de objeto narcisista. O que vemos não é o outro como ele é. Estamos vendo a mim no outro porque ele é uma extensão de mim. Assim, a Identificação Projetiva é uma relação de objeto narcisista.

Desta forma, quanto mais a nossa relação com o outro é carregada de identificações projetivas mais teremos uma relação com os objetos narcisistas. Neste sentido, não há um outro, exatamente. O que existe é uma projeção do eu no outro.

Não podemos confundir, no entanto, a Identificação Projetiva com projeção, que tem o intuito exclusivamente de aliviar a mente de uma tensão insuportável, por exemplo. Nela, o objeto é indefinido, genérico, é projetado com violência. O preconceito contra as minorias, por exemplo. Eu não gosto de um determinado grupo social e projeto nele a minha violência, aquilo que eu não gosto em mim. No caso da Identificação Projetiva há sempre um objeto específico.

Para o bebê, a Identificação Projetiva tem importância vital para as futuras relações de objeto que, alimentadas pelas fantasias ligadas ao pai, por exemplo, irão desencadear no Complexo de Édipo Precoce.

Édipo precoce

A noção de estágios iniciais de complexo edipiano, ou Complexo de Édipo Precoce, também, é uma teorização de Melanie Klein, que descreve essas configurações emocionais que acontecem, principalmente, no primeiro ano de vida de um bebê. Klein contrapõe Freud, que descreveu o Complexo de Édipo ocorrendo, seja no menino ou na menina, como preferências amorosas e preferências de ódio em relação aos progenitores, entre os três e cinco anos de vida de uma criança.

Enquanto o bebê recém-nascido começa a funcionar biológica e psiquicamente, ainda segundo Klein, seu mundo interno vai se constituindo a partir do impacto que, ao nascer, tem primeiro suas fontes internas, que são as fontes orgânicas, das necessidades biológicas para a sobrevivência na condição de que ele é absolutamente dependente de um cuidador externo. Isso é uma condição fundamental para se pensar o psiquismo, a constituição do psiquismo.

O conflito edipiano coloca a criança, desta forma, numa situação de contradição e de ambivalência extremas. Os objetos de amor também são, ao mesmo tempo, objetos de ódio. (GEETS, 1977, p. 70)

Deste modo, primeiro há essa fonte interna, contrapondo com a fonte externa, que será trazida pelos cuidados da mãe, que ainda não é percebida como tal. De certa forma, Melanie Klein está se focando no impacto que as necessidades internas têm – em termos psicanalíticos das necessidades puncionais, a partir da teoria de Freud sobre pulsão vida e morte, como sendo forças inatas. E que vão governar a constituição do psiquismo, não só a constituição como sua dinâmica ao longo da vida deste sujeito.

Diante da rivalidade em relação ao pai, bem como da impossibilidade de ter a mãe como objeto de desejo e do medo de perder o pênis (em virtude do onanismo), o menino ressignifica sua relação com os pais, identificando-se com a figura paterna. Nesse momento, dissolve-se o Complexo de Édipo e tem início a formação do Superego – instância inicialmente formada a partir da introjeção da relação parental. (SILVEIRA, 2022)

A condição de dependência do bebê ao nascer, de uma fonte externa de um cuidador, é fundamental para se pensar psicanaliticamente. A psicanálise vai abordar essa questão como primeiro se constitui o aparelho psíquico e seu mundo interno. Lembrando que esse mundo interno se constitui graças a esse cuidador externo que ainda não é percebido como tal. Desta forma, o fator externo é uma conquista do desenvolvimento mental psíquico que estará sempre em construção.

A percepção da mãe ou do cuidador externo, na teoria kleiniana, é uma conquista do desenvolvimento emocional. Essa é uma matriz importante para se pensar o que Melanie Klein está descrevendo. O Complexo de Édipo Precoce ou estágios iniciais do Complexo de Édipo, em termos de desenvolvimento, é descrito por Klein como ponto inicial de crise, o desmame, quando a mãe retira o seio como fonte única de sua alimentação e, com isso, veta este contato físico dela com o seu bebê, introduzindo outras maneiras de alimentação, como a mamadeira, por exemplo. Psicanaliticamente o que nos interessa, no entanto, é esta retirada do seio da mãe como única fonte de prazer.

É o nascimento da triangulação mental que corresponde ao Complexo de Édipo que é compreendida pelo pai, mãe e criança. É a partir da ausência, da retirada do seio, como única fonte de necessidades para o bebê, que se configura essa ausência do seio como uma coisa mais permanente da percepção da vivência do bebê, e que Klein irá chamar de “seio mau”.

A criança reage à situação por um aumento de seus sentimentos agressivos e de suas fantasias. Os pais, em suas fantasias são atacados por todos os meios agressivos à sua disposição, e são percebidos na fantasia como sendo destruídos. (SEGAL, 1975, p. 45)

Mas, ao formular esses conceitos, Klein irá respaldar-se em Freud quando fala da satisfação alucinatória do desejo e a construção mental que acontece no início da vida em que, por um lado, a criança está incorporando, internalizando a experiência de ser amamentada.

Essa experiência de amamentação, essa vivência, será de alguma maneira registrada na criança de maneira que permita a ação de sugar o seio seja substituída, por exemplo, por sugar o dedo, sugar uma frauda.

A própria criança deseja destruir o objeto libidinoso mordendo, devorando e cortando-o, o que leva à ansiedade, visto que o despertar das tendências edipianas é seguido pela introspecção do objeto, o qual depois se torna aquele de quem a punição é esperada. A criança então teme uma punição correspondente à ofensa: o superego torna-se algo que morde e corta. KLEIN (KLEIN, 1996, p. 86)

Através dessa atração oral, como zona erógena, principalmente, numa atividade equivalente a sugar o seio, a criança reproduz psiquicamente a vivência de estar sendo amamentada, alimentada pela mãe, que quer dizer todo o contato, de ser não só alimentada como de contato corporal e psíquico que a mãe tem por seu bebê, e o bebê, portanto, com a mãe.

Melanie Klein se refere isso como a construção e chama isso de “seio bom”, a vivência que constitui o objeto, que de alguma maneira é internalizado psiquicamente para o bebê. Esse é o primeiro móvel que a criança coloca em sua casinha no mundo interno. Por sua vez, ela diz, se constitui também como objeto desse mundo interno, ou seja, existe a vivência concreta, o bebê também tem a vivência concreta nos momentos de sofrimento em que não tem esse seio, não tem o contato com esse seio.

Esse sofrimento pode ser de fontes diversas. Pode ser tanto por não ser amamentado, pode estar sujo, com cólica, não importa. A qualidade principal dessa experiência é de sofrimento, de dor, de desprazer. Essa vivência, ela diz, é o objeto da construção do objeto interno mau, é uma vivência cuja característica principal é do sofrimento, da dor. Então podemos imaginar o início da vida mental do bebê que, em termos internos, oscila entre esse seio bom e esse seio mau. Que pode corresponder, evidentemente, à experiência observada do bebê sendo amamentado pela mãe, não amamentado pela mãe, momentos em que o bebê chora porque tem algum desconforto, e assim por diante.

Mas temos que pensar em termos kleinianos na vida mental desse bebê. Que hora está tranquilo por estar dormindo? Tem alguma necessidade? Quando está suficientemente satisfeito por estar amamentado e, de repente, ele é invadido por uma sensação de sofrimento, por algum tipo de desconforto de mal-estar? Deve-se pensar na vida mental do bebê no início da vida dessa forma. Só que isso significa psiquicamente a construção de objetos internos. Questões que representam essas vivências de satisfação e de sofrimento.

Klein está sempre olhando qual é a ansiedade que está presente, que dá conta de explicar essa situação, comportamento, atitude ou não. Pode ser que não perceba de imediato, mas vai procurar ir atrás disso. Basicamente, estabelece que o desamparo na criança pequena corresponde a uma incapacidade de compreender certas vivências de dor mental.

Como resultado dessa incapacidade, algumas constroem uma configuração psicótica, por exemplo, ou uma configuração artística, são N configurações possíveis.  É fundamental poder compreender essa experiência emocional e compreender a experiência emocional é poder ter contato, acesso à ansiedade que está presente nesse estado mental.

A partir de Klein, fica evidente essa noção de desamparo como uma incapacidade de compreender estas vivências de dor mental, vivências emocionais.

O Édipo precoce para Klein compreende essa configuração que possui um seio bom e outro mau – este último como ausência.

O Édipo precoce é quando a criança se confronta com o seio bom, essa satisfação, e ao mesmo tempo se confronta com a experiência de estar invadindo as suas necessidades que lhe causam um sofrimento e a coloca em uma situação vulnerável, quando este “seio bom” não está disponível. O bebê não tem como se prover do cuidado necessário e isso significa a ausência do “seio bom”.

O bebê precisa construir para si mesmo um conhecimento de que o seio bom existe e desaparece; embora, quando desapareça, crie essa situação de sofrimento.

Quando pensamos no Édipo do menininho, por exemplo, o que ele tem que perceber como a situação de conflito de diálogo é que existe um mundo a ser construído onde ele não é o único centro. Quando se percebe apaixonado pela mãe e a quer somente para si, é quando ocorre o Édipo precoce. Nesse momento, essa criança deverá aprender que existem outras pessoas na vida da mãe, que existe outra pessoa muito importante para ela, nesse caso seu pai, e que essa mãe tem sentimentos e emoções muito fortes que a ligam a esse pai.

Os personagens desse triângulo ou drama edipiano precoce são: a criança, cujo ego começa a constituir-se de forma mais nítida no momento mesmo em que pode perceber a mãe como objeto total e quando ela se ausenta; a mãe, que começa a ser reconhecida no momento em que reaparece; e o estranho, isto é, qualquer outra pessoa que apareça no lugar da mãe e cuja existência é dolorosamente descoberta justamente porque vem assinalar a ausência da mãe. Isto começa a acontecer entre seis e nove meses do bebê. (FIGUEIREDO; CINTRA, 2022)

É quando essa criança tem que renunciar ao desejo de ter sua mãe só para ela. E tem que admitir que mamãe tem outras pessoas importantes na vida dela com as quais tem que se relacionar, bem ou mal. O grande sofrimento do pequeno, no entanto, é renunciar a posição exclusiva para mãe, é perceber que não pode tê-la só para si.

A contribuição de Melanie Klein à reflexão sobre o Complexo de Édipo é considerável. O que ela acrescenta à teoria freudiana – ou o que desenvolve desta teoria – pertence essencialmente a uma tríplice ordem de ideias, aliás convergentes. (GEETS, 1977, p. 44)

Para o bebê, não poder ter a mamãe totalmente também significa quebrar justamente essa simbiose que o bebê estabelece com a progenitora. Ou seja, essa ideia de que, se ela quer a relação ideal, deverá fundi-la com o outro:

Quando a mãe é percebida como objeto total, há uma mudança não apenas na relação do bebê com sua mãe, mas também em sua percepção do mundo. (SEGAL, 1975, p. 117)

É isso que se quebra nesse Édipo precoce. Introduzir outras figuras – do pai, principalmente – significa aceitá-las. Resolver este Édipo seria renunciar esta mãe em contraponto à garantia de integração com o pai e a mãe na perspectiva de um bom desenvolvimento seu. Esse casal perdurado, internalizado como um casal harmonizado entre si, é um modelo para um indivíduo crescer com a ideia de que se relacionar com intimidade com alguém vale a pena e estimula a vida.

Quando o bebê, enfim, percebe que é uma pessoa diferente da mãe, ele se dá conta de que o mundo não é o que ele criou, o que imaginou. O mundo que ele sente é fruto e resultado, também, da presença e de todas as interferências de sua mãe. Basicamente é isso que importa para o bebê. Uma mãe perto, mas uma mãe longe, uma mãe fora de mim. É quando esse bebê renuncia sua mãe, entendendo que ela é outra pessoa e que ele não é objeto único de seu amor. Esta conquista mental implica em um conflito que traz sofrimento, que irá se acentuar no momento em que essa criança começa a desenhar sua individualidade. Quando começa a falar, por exemplo, quando é reconhecido como um indivíduo singular e a dizer o que pensa, o que deseja, o que necessita, e perceber, com isso, que o outro – o pai ou a mãe – entende o que ele quer.

Para Klein, reconhecer a mãe como outra pessoa é sofrimento de renunciá-la como único sofrimento criado pelo bebê, porque ela existirá independente dele. Por isso irá pensar nas elaborações edipianas. O bebê pode começar a pensar por que a mãe se ausenta. O pensar, nesse momento, significa tolerar a demanda da mãe. Esse pensar é, também, descobrir a figura paterna, descobrir que existem outras pessoas importantes na vida da mãe. Mas, para o bebê, o problema será elaborar a demora ou ausência da mãe e entender que ela não está grudada a ele. Em termos adultos, é o paciente que tem que admitir que o terapeuta não tem um único paciente. E que às vezes, na sessão, o paciente pode estar pensando coisas relativas a ele, mas não que são diretamente relacionadas a ele, por exemplo. E assim por diante, esses são os desdobramentos dessa ideia inicial do Complexo de édipo em Klein.

Nesta direção, Klein vai colocar a adaptação à frustração:

Porém, essas razões exteriores, por certo são determinantes, Melanie Klein acrescentou uma outra em sua opinião ainda mais fundamental. As frustações nascidas de condições alimentares deficientes – na ordem da falta ou do excesso – devem, é evidente, ser levadas em considerações, mas não são suficientes para explicar plenamente as dificuldades do período de sucção. (GEETS, 1977, pg. 68)

O indivíduo não só desmama do seio da mãe, mas também procura novos seios, novas fontes de adaptação, necessárias para uma vida satisfatória. Porém, o que pensamos por dados básicos, é que estamos falando da capacidade de tolerar uma frustração. Nos permite, segundo Klein, renunciar a um apego primeiro. Ao mesmo tempo, nos mobiliza a procurar substitutos com os quais se pode retomar uma coisa importante lá do início da vida, uma experiência de prazer, de satisfação. Isso sucessivamente, essa busca por substitutos cada vez mais complexos, em suas relações, inclusive na relação de prazer. Esta situação inicial está na fonte do brincar, que são explicados pelos fenômenos transicionais.

Importantíssimos na teoria kleiniana são o desenvolvimento emocional e o desenvolvimento do aparelho que nos permita suportar cada vez melhor ou mais a frustração, o sofrimento. Porque só suportando o sofrimento de uma maneira tolerável é que encontramos meios de transformar esses sofrimentos em níveis toleráveis. Quando toleramos, iremos entender o sofrimento. Na criança, por exemplo, quando ela pede alguma coisa que necessita, está querendo introjetar nela algo que lhe seja adequado e, assim, vai desenhando sua tolerância à percepção de que existirá sempre um objeto adequado a ela.

Pode acontecer, por exemplo, uma inibição de desenvolvimento. São várias possibilidades de desenvolvimento. Se entendemos qual é o ponto crucial, ou seja, qual é o conflito em questão, começamos a deslumbrar as soluções possíveis para ele. Por exemplo, de um autismo, de uma psicose, de uma psicopatia, e assim por diante.

Quanto aos critérios de Klein para falar de normalidade ou de patologia, eles se dão pela construção de um mundo mental adequadamente integrado de maneira que seja flexível, para suportar as experiências de sofrimento. Para que, aí, se possa se desintegrar. Porque, uma coisa importante em Melanie Klein, é que a vida nos causa impactos em muitas situações e que nosso mundo mental necessita de elaboração constantemente. O sofrimento precisa criar uma via de aprendizado para que possamos suportá-lo e, quiçá, transformá-lo. A análise existe para que este trânsito, através das interpretações, seja criado.

Em todos nós, em primeira instância, o insight é o resultado de uma elaboração, da identificação em que se possa decidir o que é dele, do bebê; e o que é do outro – da mãe, do pai, por exemplo; e, segundo Hanna Segal (1918), momentos de compreensão interna. (SEGAL, 1975, p. 69)

Freud falava da elaboração dos sonhos, como se constrói um sonho. Em termos didáticos, estará falando do sonho a partir do relato do sonhador, e a elaboração, nesse caso, tem a ver com a “resolução do sonho”, por meio da interpretação com o analista, por exemplo, pela qual poderá ser percebida uma situação traumática. Todo esse processo de elaboração pode resultar em uma situação de formulação de um insight para entender o que o paciente pode estar vivendo.

A terapia analítica tem como objetivo promover insight, que é quando paciente descobre aspectos inconscientes dele. Por exemplo, em relação ao desamparo, quando uma criança pequena compreende sua capacidade de uma experiência emocional. Parece simples compreender uma experiência emocional, contudo é mais complexo porque se requer um mínimo de compreensão de uma vivência emocional. É necessário que a vida do paciente e seus conteúdos emocionais sejam colocados à prova, uma vez que seu nível de compreensão se dará a partir destas vivências.

Para conseguir um insight, precisamos estar disponíveis para pensar uma coisa diferente do que sabemos. Um paciente só vai mudar se conseguir deslumbrar que a mudança lhe traz vantagem. O insight tem que ser muitas vezes proposto para o paciente como, talvez, uma maneira de ele ser compreensível com ele mesmo. Não podemos esquecer que todos nós temos um narcisismo à flor da pele. E uma terapia, querendo ou não, com a melhor das boas intenções de um ou de outro, mexe no narcisismo de um e de outro. O paciente tem um sentido narcísico de si mesmo que vai tolerar mais ou tolerar menos aquilo que é oferecido para ele.

Quem é o nosso paciente? Como que conversamos com ele? O que que ele entende? Como ele aceita as coisas? Quais temas tem dificuldade de aceitar? Por que tem essas dificuldades? Quais são essas dificuldades? Esse é o campo de trabalho do analista. O trabalho de elaboração mental.

A mãe ideal

Temos que entender que, no começo da vida, os sonhos estão na sua força máxima, em sua exigência total. Quando vem a fome, é uma fome atroz, que parece que vai matar. Quando a satisfação é boa, é uma satisfação plena. Assim, é com essa intensidade que o bebê terá que viver as suas pulsões e necessidades. E essa mesma intensidade é o que vai colorir as suas internalizações, as suas introjeções.  Dessa forma, quando a mãe está satisfazendo, a mamãe é a mãe é ideal. Por outro lado, quando esta mesma mãe está ausente – e ele ainda não descobriu que ela está ausente –, acontece a frustação.

Klein entende que aquilo que sentimos na gente, com a intensidade que sentimos, é a mesma intensidade com a qual vemos e sentimos o outro. Exemplo, se eu tenho instinto muito feliz, eu sinto que os outros são muito felizes também; porém, se sentimos uma desgraça, entendemos que os outros também estão desgraçados. Esse é o começo da vida.

E é nesses extremos que o bebê faz suas primeiras introjeções. E que resquícios isso gera nele? Melanie Klein vai dizer que isso irá transformar o mundo inteiro, também, muito terrível. Essas figuras vão se modificando na medida que a criança descobre que a mãe é outra pessoa e que, portanto, ela ajuda a neutralizar, amenizar, a força dessas figuras internas.

Por fim, Klein vai atestar que essas figuras muito severas ficarão reprimidas no inconsciente e em um pedaço separado só para elas. E que essas figuras aparecerão em situações menos esperadas, atacando o ego, fazendo com que pensemos que não vamos conseguir atingir certos objetivos ou superarmos algum trauma. São figuras que aparecem para arrasar com o ego.

É por isso que Klein afirma que as crianças pequenas, na sua primeira relação com os pais, têm uma relação mais real, porque não conseguem perceber como de fato os pais são. A tendência das crianças se revela a partir dessas necessidades e qualidades internas. Klein vai dar essa explicação porque se confrontou na clínica, por exemplo, com crianças que tinham terrores noturnos terríveis, e essas sensações existiam porque estavam constantemente sendo ameaçadas pelos seus mundos exteriores.

No início da análise, quando uma parte da angústia é dissipada pela interpretação, o alívio que a criança obtém encoraja-a a ir mais a fundo. Começa a compreender o uso e o valor do método e isso lhe dá uma motivação para prosseguir na análise equivalente aquela que o adulto possui por conhecimento de sua doença. (SIMON, 1986, p. 50)

Embora exista um ego inicial, é importante pensarmos que ele ainda é muito precário, e que o bebê não tem mais complexidade do que isso. É como se a psique fosse uma célula muito primária, que abre e fecha, mais nada. O psiquismo para Klein será desenvolvido o dessa forma inicial.

Na infância vivemos terrores muito grandes e as coisas são muito exageradas. Os delírios paranoides muitas vezes acontecem quando o bebê não consegue elaborar além de algo, como se o mundo estivesse contra ele. Klein vai dizer que o mundo está se construindo, mas que dependerá das experiências que terá com seus cuidadores, por exemplo. É na medida que toda experiência traz uma emergência emocional.

Referências bibliográficas

ANTAR, Ricardo; BIDOLSKY, Susana; GARFINKEL, Gregorio; KORSUNSKY, Betty; SLEMENSON,Pablo. Melanie Klein – Surgimiento y vigencia de su pensamiento. Argentina: Ediciones Biebel, 2021.

DELOUYA, Daniel. Acerca da comunicação: entre Freud (1895) e Klein (1946). Acesso em: 25 Jun. 2022.

FIGUEIREDO, Luis Claudio; CINTRA, Elisa Maria de Ulhôa. https://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/407665-especialistas-descrevem-a-trajetoria-da-psicanalista-melanie-klein-em-livro-leia-capitulo.shtml. Acesso em: 25 Jun. 2022.

FREUD, Anna. O Ego e os mecanismos de defesa. São Paulo: Civilização Brasileira, 1978.

FREUD, Sigmund. Freud (1900) – A Interpretação dos Sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

GEETS, Claude. Melanie Klein. São Paulo: Melhoramentos, 1977.

KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

RIBEIRO, Marina Ferreira da Rosa. Uma reflexão conceitual entre identificação projetiva e enactment. O analista implicado. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-62952016000200001. Acesso em: 20 Jun. 2022.

SEGAL, Hanna. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

SILVEIRA, Adriana. Melanie Klein e o Édipo precoce. https://www.apsicanalise.com/index.php/blog-psicanalise/48-artigos/834-melanie-klein-e-o-edipo-precoce. Acesso em: 25 Jun. 2022.

SIMON, Ryad. Introdução à Psicanálise: Melanie Klein. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1986.

VIOLANTE, Maria Lucia Vieira. A criança mal-amada. São Paulo: Vozes, 1995.

MEZAN, Renato. O Tronco e os ramos. São Paulo: Blucher, 2019.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 1734

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo