Quando o teatro decide mostrar a dúvida

Um processo forte e coerente não teme revelar aquilo que um espetáculo pronto costuma esconder: a dúvida.

A mostra pública do XI Taller Nacional de Teatro Independiente Peruano, realizada no acolhedor Teatro Umbral, no centro histórico de Arequipa, não apresentou obras acabadas. Apresentou quatro perguntas em estado de nascimento. E talvez resida justamente aí a sua maior beleza.

Durante quatro dias, sessenta artistas vindos de diferentes regiões do Peru, acompanhados por formadores peruanos, brasileiros e mexicanos, aceitaram transformar o ensaio em espaço de pensamento, a pesquisa em encontro e o inacabado em linguagem. No palco, não se buscava demonstrar certezas, mas experimentar caminhos e descobrir o que poderia nascer da aproximação entre pessoas que, até poucos dias antes, não haviam criado juntas.

Participaram do encontro Artes Escénicas Retratos, de Ayacucho; Ave Fénix Grupo de Teatro y Títeres, também de Ayacucho; Casita Teatrera, de Iquitos, na região de Loreto; C.I.C. Yachaq Illa, de Puno; Club La Cuarta Pared, de Tacna; Compañía de Teatro Mysterium, de Cusco; Colectivo Teatro Laboratorio, de Huaraz, na região de Áncash; Cosmos Teatro, de Pucallpa, na região de Ucayali; Donabeny Cultura, de Huancayo, na região de Junín; Drama, de Arequipa; Dreams Imagination, de Trujillo, na região de La Libertad; Elenco Cultural Moquegua, de Moquegua; Espergesia, de Ayacucho; Galatea Artes Escénicas, de Cajamarca; Nuna Inti Teatro, de Puno; Polichinela, de Arequipa; Pucayacu Agua Roja Teatro, de Lima; Puertabierta, de Cusco; Revista CreaXión, também de Cusco; Teatro Expresión de Huancayo, de Huancayo, na região de Junín; Teatrodelvacio, de Cusco; Tuquitos Teatro, de Lima; Yakana Teatro, de Cusco; e Produções de Arte Independente no Sul Global, o PAÍSg, coletivo que atua entre Brasil e Peru.

Além desses grupos, o XI Taller reuniu artistas independentes provenientes de Arequipa, Ayaviri, Cusco, Lima e de outras localidades peruanas, ampliando ainda mais a diversidade territorial e artística do encontro. Também estiveram presentes representantes da SP Escola Superior de Teatro, de São Paulo; da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, a UNIRIO; da Universidad Autónoma Del Estado de México (UAEMéx) e da Whitman College, dos Estados Unidos, além de diferentes instituições e coletivos peruanos.

Essa presença tão ampla não constituía apenas um dado da convocatória. Era uma matéria viva que atravessava os corpos, as narrativas, os sotaques e as diferentes maneiras de compreender o teatro. Reunir artistas da costa, da serra e da Amazônia significava colocar no mesmo espaço não apenas experiências cênicas distintas, mas territórios, histórias e modos diversos de imaginar o próprio país.

No encerramento do encontro, os participantes, organizados nos núcleos Chinchaysuyo, Contisuyo, Antisuyo e Collasuyo, apresentaram quatro experimentos cênicos: Watay Chay Warmata (Amarra esa niña)IsmuyBid e Las Faces de la Luna. Os trabalhos reuniam dramaturgos, diretores e atores que haviam compartilhado poucos dias de investigação, orientados por formadores do Peru, do Brasil e do México. Eram criações recentes, ainda atravessadas pela instabilidade própria de tudo aquilo que procura uma forma sem ter decidido antecipadamente qual deverá ser essa forma.

Os quatro experimentos revelavam muito mais do que exercícios de criação. Eram o retrato de uma pedagogia que compreende o teatro como investigação coletiva. Cada cena carregava as marcas singulares de seus criadores, mas todas pareciam atravessadas por uma mesma questão. Como construir uma linguagem comum sem apagar a identidade de cada artista? Como reunir experiências, territórios e formações distintas sem reduzir a diferença a uma aparência de unidade?

Talvez esse tenha sido o aspecto mais bonito da mostra. Em nenhum momento havia a preocupação de esconder as costuras do processo. Pelo contrário. As dúvidas permaneciam visíveis, as escolhas ainda podiam mudar de direção e as tentativas apareciam como parte indispensável do pensamento artístico. Em tempos nos quais somos pressionados a apresentar resultados imediatos, assistir a dezenas de artistas defendendo o direito de ainda não saber foi profundamente comovente.

Havia também algo de político nessa disposição para o inacabado. O mercado exige produtos reconhecíveis, conclusões rápidas e resultados que possam ser medidos. Um processo artístico, no entanto, pede tempo, escuta, confiança e a possibilidade de abandonar caminhos que pareciam seguros. Ao expor suas perguntas sem disfarçá-las de respostas, aqueles artistas afirmavam que o teatro não precisa chegar pronto para ser verdadeiro.

A diversidade de vozes reunidas naquele palco também chamava a atenção. Artistas de muitas regiões encontravam-se não para uniformizar suas diferenças, mas para colocá-las em diálogo. O resultado não era uma identidade única, tampouco uma imagem homogênea do teatro peruano. Era uma identidade compartilhada e provisória, construída a partir da multiplicidade. Cada artista chegava trazendo consigo um território, uma história e uma maneira de olhar o mundo. Durante aqueles dias, essas experiências não foram dissolvidas pelo coletivo. Foram ampliadas por ele.

Ao final da apresentação, tive a impressão de que o verdadeiro espetáculo talvez não estivesse apenas nas cenas, mas na própria existência daquele encontro. Em um continente acostumado a enfrentar tantas dificuldades para sustentar suas experiências artísticas, ver dezenas de grupos reunidos para pensar o teatro, compartilhar metodologias e produzir conhecimento coletivamente talvez seja uma das imagens mais poderosas que o teatro latino-americano ainda é capaz de criar.

Saí do Teatro Umbral com a sensação de que os quatro experimentos terminavam justamente onde o Taller realmente começava. O que se apresentava ali não eram apenas processos de criação, mas a demonstração de que uma comunidade artística permanece viva quando decide compartilhar suas perguntas antes mesmo de encontrar as respostas.

Talvez seja esse o ensinamento mais precioso do teatro independente peruano. O teatro não nasce quando um espetáculo fica pronto. Nasce muito antes, quando um grupo de pessoas decide confiar umas nas outras o suficiente para dividir também as próprias dúvidas.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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