Na semana passada, participei, em Arequipa, do XI Taller Nacional de Teatro Independiente Peruano. Foram quatro dias de trabalho, escuta e convivência, reunindo artistas de diferentes regiões do país em torno de uma pergunta que, embora não estivesse escrita em lugar algum, parecia atravessar todas as atividades: o que ainda pode o teatro num mundo que tenta transformar tudo em mercadoria?
O encontro nasceu do Movimiento de Teatro Independiente del Perú, o MOTÍN, e foi organizado pelo coletivo Producciones de Arte Independiente en el Sur Global, o PAÍSg. Há mais de trinta anos, esse movimento sustenta uma história feita de resistência, criação coletiva e memória viva. Digo “sustenta” porque o teatro independente raramente conta com aquilo que o mundo costuma oferecer às coisas que considera importantes. Quase nunca há dinheiro suficiente, estrutura suficiente, reconhecimento suficiente. Ainda assim, ele permanece. Talvez permaneça justamente porque aprendeu a existir a partir do que falta.
Durante aqueles dias, dramaturgia, direção, atuação, crítica e crônica deixaram de ser territórios separados. Misturaram-se como se misturam as vozes quando ninguém está interessado em falar mais alto do que o outro. O princípio do encontro era simples e, ao mesmo tempo, profundamente político. Diante da mercantilização da arte e da fragmentação dos nossos processos, era preciso reafirmar a criação colaborativa como prática política, pedagógica e poética.
Tenho pensado muito acerca dessas questões. Vivemos uma época em que até a rebeldia pode receber uma logomarca. A arte é medida por números, curtidas, ingressos vendidos, alcance, desempenho, visibilidade. Pergunta-se quanto uma obra rende antes de perguntar o que ela desloca. Confunde-se sucesso com valor, velocidade com potência, exposição com permanência.
O mercado, sabemos, não é apenas um sistema econômico. É também uma forma de organizar o nosso olhar. Ele nos ensina a reconhecer como importante somente aquilo que pode ser comprado, vendido, acumulado ou convertido em prestígio. Nesse mundo, o artista corre o risco de deixar de ser alguém que cria perguntas para tornar-se alguém que oferece produtos.
Mas o teatro insiste em criar dificuldades para essa lógica. Uma cena não pode ser guardada. Um gesto não pode ser repetido de maneira absolutamente idêntica. Um encontro entre atores e espectadores existe durante algum tempo e depois desaparece. O teatro não se deixa possuir inteiramente. Quando termina, o que permanece não cabe numa embalagem. Fica no corpo, na memória, às vezes numa pergunta que nos acompanha durante anos.
Talvez por isso o teatro independente seja tão necessário. Não porque esteja fora de todas as contradições, mas porque continua tentando construir outras maneiras de estar junto. Em Arequipa, a horizontalidade não era um slogan. Era um exercício permanente e, como todo exercício verdadeiro, exigia atenção. Escutar o outro, dividir saberes, experimentar sem a obrigação de acertar, compreender que uma trajetória longa não invalida uma voz que acaba de chegar.
A convocatória não fazia distinção entre artistas iniciantes e experientes. Havia nisso algo muito bonito. O teatro voltava a ser aquilo que sempre foi antes que inventássemos tantas hierarquias para domesticá-lo. Um lugar onde alguém chega trazendo uma história, outro oferece o corpo, outro empresta uma palavra, e todos tentam descobrir juntos alguma coisa que nenhum deles saberia sozinho.
No último dia, houve uma mostra pública dos processos. Não uma vitrine de produtos acabados, mas a partilha de experiências ainda abertas. Mostrar um processo é também um gesto de coragem. Significa permitir que o outro veja não apenas o que conseguimos fazer, mas as dúvidas, os desvios e as fragilidades que atravessaram o caminho.
Saí de Arequipa pensando que talvez a independência do teatro não esteja apenas na ausência de patrocínio, de edifícios ou de vínculos institucionais. Talvez ela esteja, sobretudo, na capacidade de não entregar ao mercado o direito de decidir o que merece existir.
O teatro independente não é uma mercadoria. É a memória daqueles que vieram antes, muitas vezes sem deixar arquivos, mas deixando pegadas. É território porque nasce de uma língua, de um corpo, de uma cidade e de suas feridas. É comunidade porque ninguém faz teatro sozinho, mesmo quando está sozinho em cena.
Depois de mais de trinta anos, o teatro independente peruano continua reunindo pessoas para imaginar outros modos de criar e de viver. Isso pode parecer pouco diante das grandes forças econômicas que governam o mundo. Mas toda comunidade começa quando algumas pessoas decidem não aceitar que o mundo termine onde disseram que ele terminava. E o teatro, quando permanece vivo, começa exatamente ali.
