Tchuca Badona, a mulher-onça de Ribeirão Claro

Ribeirão Claro é uma cidade pequenina do Norte Pioneiro do Paraná. Nasci lá, o que hoje já pode ser considerado uma façanha histórica. Ninguém mais nasce em Ribeirão Claro. A Santa Casa deixou de ter maternidade há alguns anos e, desde então, toda criança ribeirão-clarense precisa começar a vida no exílio. Nasce em Santo Antônio da Platina ou em Ourinhos, cidade paulista que faz divisa com a minha terra natal. Depois volta para casa e passa o resto da existência explicando que é de Ribeirão Claro, embora a certidão de nascimento insista em espalhar outra versão.

Apesar desse pequeno problema de fabricação, a cidade continua sendo um encanto. Ribeirão Claro tem água, montanhas, histórias e personagens que nenhum autor seria capaz de inventar sem ser acusado de exagero. Talvez por isso, ao longo dos anos, eu venha transportando algumas dessas figuras para a minha dramaturgia. Não faço mais do que reconhecer a evidência. Em Ribeirão Claro, a realidade sempre teve mais imaginação do que eu.

Agora, porém, percebi que ainda não havia escrito sobre uma de suas criaturas mais extraordinárias. Me refiro a Tchuca Badona, a mulher-onça de Ribeirão Claro.

Somos contemporâneos, embora ela tenha chegado a este mundo alguns anos antes de mim, provavelmente numa época em que ainda era possível nascer na própria cidade. Antes de se transformar em onça, Tchuca dançou muito nas redes sociais. Acho que a descobri durante a pandemia, aquele período em que estávamos todos trancados dentro de casa, tentando descobrir se ainda pertencíamos à espécie humana. Enquanto a humanidade fazia pão, participava de reuniões pelo computador e higienizava pacotes de arroz, Tchuca dançava.

Seus vídeos sempre me alegraram. Havia nela uma liberdade difícil de explicar, dessas que veem com tudo, não pedem licença nem procuram a melhor iluminação. Tchuca ligava a música e dançava. Não parecia interessada em conquistar seguidores, construir uma marca ou desenvolver uma estratégia de engajamento. Ela dançava porque havia música. E talvez porque houvesse um corpo. Para dançar, convenhamos, já são motivos suficientes.

Mais recentemente, comecei a acompanhar sua transição. Não aconteceu de uma hora para outra. Toda grande transformação exige algum preparo. Ninguém vai dormir numa terça-feira como uma senhora de Ribeirão Claro e acorda na quarta completamente onça. Primeiro vieram os pequenos sinais. Um óculos de oncinha. Um chapéu de oncinha. Um detalhe estampado aqui, outro ali. A onça ainda se apresentava discretamente, como quem pede passagem sem querer assustar os vizinhos.

Depois, as manchas foram tomando conta do território. Tchuca começou a caminhar inteiramente vestida de oncinha. A estampa já não era um acessório. Era uma declaração. Pouco a pouco, a mulher recuava e o felino avançava, embora as duas, no fundo, sempre tivessem sido a mesma criatura.

Até que Tchuca começou a subir em árvores. Então, nesse momento, qualquer dúvida desapareceu. Uma pessoa pode usar óculos de oncinha por elegância. Pode vestir um chapéu de oncinha por distração. Pode até sair de casa coberta de pintas por uma combinação particularmente ousada de guarda-roupa. Mas, quando começa a subir em árvores, é preciso respeitar o processo.

Sim, Tchuca Badona havia se tornado uma onça.

Desde então, acompanho pelas redes sociais suas caminhadas felinas pelas ruas da cidade. Lá vai ela, uma verdadeira therian de pés vermelhos, atravessando Ribeirão Claro com a dignidade de quem finalmente encontrou sua espécie. Aos 68 anos, Tchuca não se aposentou da vida, não se recolheu, não aceitou a fantasia sem graça que tantas vezes reservam às mulheres quando envelhecem. Preferiu virar onça.

E isso me encanta.

Há quem passe a existência inteira tentando descobrir seu lugar no mundo. Faz terapia, consulta mapa astral, muda de profissão, de cidade, de casamento, de religião e de corte de cabelo. Tchuca encontrou o dela numa estampa felina e no alto de uma árvore. Não sei se foi uma revelação, um chamado da floresta ou simplesmente a percepção de que caminhar sobre duas pernas já não dava conta de tanta personalidade.

Sei apenas que existe algo de profundamente bonito em uma mulher de 68 anos decidir que ainda pode se transformar. Não em alguém mais jovem, mais comportada ou mais aceitável. Não em uma versão domesticada de si mesma. Tchuca escolheu justamente o contrário. Tornou-se bicho, força, pinta, garra, dança e liberdade.

Talvez seja essa a grande lição da mulher-onça de Ribeirão Claro. Nós não precisamos passar a vida inteira presos à espécie que os outros escolheram para nós. Chega uma hora em que cada um deve reconhecer o animal que vinha escondendo. Alguns descobrem um pássaro, outros uma tartaruga, muitos permanecem galinhas a vida toda. Tchuca, não. Tchuca foi direto ao topo da cadeia alimentar.

Hoje, quando penso em minha cidade natal, já não vejo apenas os rios, as montanhas, a represa e as ruas da infância. Vejo também uma mulher vestida de onça caminhando tranquilamente pela cidade e subindo em árvores, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

E talvez seja. Afinal, Ribeirão Claro pode até não ter mais maternidade. Mas continua dando à luz personagens inesquecíveis.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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