OPINIÃO | Um idiota indispensável

Idiota Convicto, de Hugo Possolo, é uma peça obrigatória. Não apenas pela urgência das dramaturgias que leva à cena, mas pela presença de um ator que conhece profundamente o teatro e, ainda assim, se lança ao palco como se estivesse descobrindo tudo pela primeira vez.

O próprio Possolo participa da construção dramatúrgica do espetáculo ao criar a figura que serve de eixo para toda a encenação. Trata-se de um ator fechado em seu apartamento porque não sabe onde deixou as chaves. Convencido de suas certezas, mas desconfiado da própria memória, ele tenta reconstruir os passos anteriores na esperança de encontrar uma pista que lhe permita sair de casa. A situação cotidiana, aparentemente banal, transforma-se em uma espécie de labirinto mental e cênico.

É nesse esforço de lembrar que outras vozes, histórias e personagens começam a invadir o apartamento. Passado e presente se confundem, assim como ator e personagem, memória e invenção. As figuras que ele revive carregam algo de suas antigas interpretações, algo de sua experiência pessoal e muito do olhar que foi construindo sobre o mundo. Ao se expor ao ridículo, o protagonista também revela o ridículo que existe em todos nós. A idiotia deixa de ser apenas uma característica individual e passa a funcionar como um espelho coletivo.

Essa estrutura serve de abrigo para textos escritos especialmente para Possolo por Luís Alberto de Abreu, Ana Saggese, Maíra Dvorek, Michelle Ferreira e Sérgio Roveri. São dramaturgias distintas, atravessadas por um mesmo impulso: observar, por meio do humor, o embrutecimento do nosso tempo e a naturalidade assustadora com que passamos a conviver com a mediocridade, a intolerância e o autoritarismo. As personagens fazem rir, mas o riso quase sempre chega acompanhado de algum desconforto. Rimos porque reconhecemos o absurdo. Em seguida, percebemos que talvez já estejamos vivendo dentro dele.

Entre os textos, destaca-se especialmente o de Luís Alberto de Abreu, de quem Possolo foi aluno de dramaturgia. A situação imaginada por Abreu é extraordinária: um homem encontra, no meio da calçada, uma espécie de argola viva e aos poucos descobre que aquilo é uma pessoa que virou do avesso. A imagem é tão insólita quanto poderosa. O texto é sensacional, muito divertido e, sob a aparente extravagância, abre espaço para boas reflexões sobre aquilo que escondemos, sobre o que aconteceria se o nosso interior se tornasse subitamente visível e sobre a dificuldade da sociedade em lidar com quem já não consegue preservar uma aparência de normalidade.

As outras dramaturgias ampliam esse retrato de um mundo fora dos eixos. Michelle Ferreira apresenta um professor de cinema cuja arrogância o leva a enxergar a própria existência como um roteiro sobre o qual acredita ter controle absoluto. Ana Saggese e Maíra Dvorek colocam Deus no comando, mas fazem dele uma figura descontrolada e autoritária, perigosamente parecida com os homens que se julgam donos do destino alheio. Sérgio Roveri, por sua vez, volta o olhar para um pai incapaz de admitir que o filho possa sonhar e construir uma felicidade diferente daquela que lhe foi determinada.

É um conjunto rico, inteligente e provocador, embora nem sempre alcance, na passagem do texto à cena, toda a unidade que poderia ter. A meu ver, Idiota Convicto só não se torna um espetáculo ainda mais extraordinário porque talvez lhe falte um olhar externo capaz de costurar com maior precisão esses diferentes universos. Uma direção de fora poderia encontrar um alinhave mais seguro entre dramaturgia e encenação, organizar melhor algumas transições e fortalecer o arco do espetáculo. Em certos momentos, percebe-se que textos tão potentes ainda procuram a forma mais vigorosa de permanecer juntos no palco.

Mas isso, porém, não diminui o brilho de Hugo Possolo. Ele é um ator imenso e realiza aqui um dos melhores trabalhos de sua trajetória. Entrega-se sem amarras, sem medo do excesso, do desconforto ou do ridículo. Seu corpo, sua voz e sua inteligência cênica atravessam o espetáculo com uma liberdade rara. É bonito ver um homem de teatro colocar toda a sua experiência a serviço de uma cena viva, arriscada e profundamente conectada ao nosso tempo.

O espetáculo também celebra os 45 anos de carreira de Hugo Possolo e chega em um momento simbólico da história dos Parlapatões, grupo que completa 35 anos, e do Espaço Parlapatões, que há duas décadas mantém suas portas abertas na Praça Roosevelt. Não são números pequenos em um país que tantas vezes obriga seus artistas e espaços culturais a recomeçarem do zero. São marcas de permanência, teimosia e resistência. Ao celebrar Possolo, celebramos também uma companhia e uma casa de teatro que ajudaram a transformar a paisagem cultural de São Paulo.

Há algo de comovente em assistir a um artista experiente que não se protege atrás da própria história. Possolo se expõe por inteiro e continua confiando no teatro como território de risco, pensamento e desobediência.

Idiota Convicto vale cada segundo. É uma peça urgente, corajosa e necessária, sustentada por dramaturgias inquietantes e por um ator em estado de absoluta entrega. Sem dúvida, um dos melhores trabalhos atualmente em cartaz.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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