DEUS ATEU | Phedra D. Córdoba, uma atriz para o fim do mundo – Uma entrevista com Ivam Cabral • por Ferdinando Martins & Marcio Tito

Em novo livro da coleção Vidas Sequestradas, Ivam Cabral revisita a trajetória da atriz cubana que fez da própria existência uma obra de arte e encontrou, no teatro brasileiro, um lugar para permanecer • @deus.ateu

 

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Em dezembro, a editora O Sexo das Palavras lança Phedra D. Córdoba: uma atriz para o fim do mundo, de Ivam Cabral. O livro integra o projeto Vidas Sequestradas, coleção organizada por César Braga-Pinto e dedicada a figuras cujas existências foram atravessadas por silenciamentos, exílios, violências, apagamentos ou tentativas de captura. De temática queer, cada volume nasce do desejo de um autor por seu biografado, fazendo da escrita biográfica não apenas um exercício de investigação, mas também um gesto de aproximação, afeto e reconhecimento.

Apresentada na Flip deste ano, a coleção já publicou volumes dedicados a Zé Celso, Raul Pompeia, Pier Paolo Pasolini, Copi, Jean-Claude Bernardet, Tuca e Darwin.

Atriz cubana radicada no Brasil, Phedra D. Córdoba fez dos palcos sua casa, seu território político e sua maneira particular de desafiar o tempo. Nesta conversa, Ivam Cabral fala sobre a mulher que conheceu, a artista com quem trabalhou e a personagem que, mesmo depois da morte, continua entrando em cena sem pedir licença.

 

Ferdinando Martins – Por que escrever um livro sobre Phedra D. Córdoba?

Ivam Cabral – Porque Phedra não terminou quando morreu. Algumas pessoas morrem e, pouco a pouco, vão se acomodando no passado. Phedra não se acomodava nem quando estava viva, imagine depois de morta. Ela continua interferindo em nós, alterando nossas lembranças, aparecendo nas conversas e exigindo uma luz melhor.

Escrever este livro foi uma tentativa de compreender essa permanência. Também havia uma responsabilidade afetiva. Convivi e trabalhei com Phedra durante muitos anos. Vi a atriz extraordinária, mas vi igualmente a mulher em seus momentos de fragilidade, alegria, solidão, vaidade e medo. O livro nasce desse lugar delicado entre o testemunho e o amor. Eu não queria erguer uma estátua. Estátuas são muito silenciosas para alguém como Phedra. Queria devolver Phedra ao movimento.

 

Marcio Tito – O título diz que ela era “uma atriz para o fim do mundo”. Por quê?

Ivam Cabral – Porque Phedra tinha alguma coisa de sobrevivente do último espetáculo da humanidade. Se o mundo acabasse às oito da noite, às sete e meia ela estaria diante do espelho, fazendo a maquiagem e perguntando se haveria fotógrafos.
Mas o título não fala apenas de sua extravagância ou de sua teatralidade.

Phedra atravessou vários fins de mundo. Deixou Cuba, viveu o exílio, enfrentou o preconceito, a solidão, o envelhecimento e as transformações profundas do teatro e da sociedade. Sobreviveu à desaparição de muitos mundos que conheceu. E, a cada ruína, construía um pequeno palco sobre os escombros. Ela era uma atriz para o fim do mundo porque sabia que, mesmo quando tudo parece terminado, ainda existe uma última fala. E essa fala precisa ser dita com precisão.

 

Marcio Tito – Quem era Phedra fora do palco? Era possível separar a atriz da mulher?

Ivam Cabral – Muito pouco. Phedra não saía inteiramente de cena. Havia nela uma consciência permanente do olhar do outro, mas isso não significa que fosse falsa. Ao contrário, sua teatralidade era uma forma muito profunda de sinceridade. Algumas pessoas se escondem atrás de uma personagem.

Phedra se revelava por meio dela. No cotidiano, podia ser engraçadíssima, temperamental, generosa, exigente e profundamente solitária. Sabia transformar um almoço numa estreia internacional e uma pequena contrariedade numa tragédia de Eurípides. Não por afetação, mas porque sua experiência do mundo era realmente intensa. Phedra não tinha vocação para a temperatura morna.

 

Ferdinando Martins – Que lugar o exílio ocupou na vida dela?

Ivam Cabral – Um lugar central. O exílio não é apenas a distância entre uma pessoa e seu país. É uma fratura no tempo. Quem parte deixa uma parte de si vivendo no lugar que abandonou. Phedra saiu de Cuba, mas Cuba nunca saiu dela. Permanecia na voz, no humor, na memória, na maneira de falar sobre o corpo, o desejo, a música e a morte.

Ao mesmo tempo, seria injusto reduzi-la à condição de exilada. Ela não passou a vida inteira olhando para trás. Criou raízes no Brasil, construiu relações, fez teatro, encontrou uma família artística. O exílio lhe retirou um território, mas ela respondeu inventando outros. O palco foi um deles. A Praça Roosevelt foi outro.

 

Ferdinando Martins – A Praça Roosevelt foi importante para essa reinvenção?

Ivam Cabral – Fundamental. Phedra e a Roosevelt se reconheceram. As duas tinham sido consideradas perigosas, decadentes e excessivas. As duas carregavam cicatrizes e, ainda assim, não aceitavam desaparecer.

Quando Os Satyros chegaram à praça, aquele território era muito diferente do que é hoje. Phedra tornou-se parte de sua transformação. Não como uma figura decorativa ou uma espécie de mascote, mas como uma presença artística e política. Ela entrava em cena e levava consigo sua história, seu corpo, sua idade, seu sotaque e tudo aquilo que a sociedade preferia não enxergar.

Phedra lembrava que o teatro não precisa pedir autorização para existir. Talvez por isso tenha sido tão amada naquele lugar.

 

Marcio Tito – Como era trabalhar com Phedra?

Ivam Cabral – Era como tentar organizar uma tempestade usando indicações de luz. Phedra tinha enorme experiência, inteligência cênica e domínio de presença. Sabia exatamente quando o público estava com ela. E sabia também quando o público ainda não estava, o que podia gerar certo inconformismo diplomático, sendo que “diplomático”, neste caso, é uma palavra generosa. Mas trabalhar com Phedra era, sobretudo, aprender a escutá-la.

Ela possuía um saber que não vinha apenas da técnica. Vinha da sobrevivência. Seu corpo sabia coisas que nenhum manual de interpretação conseguiria ensinar. Cabia à direção criar condições para que esse saber aparecesse sem transformar Phedra numa caricatura de si mesma.

 

Ferdinando Martins – Ela tinha consciência de sua importância?

Ivam Cabral – Tinha, mas também precisava que essa importância fosse reafirmada. Essa aparente contradição é profundamente humana. Phedra sabia que era uma grande atriz e, ao mesmo tempo, temia ser esquecida. Sabia que possuía uma presença excepcional, mas conhecia a crueldade de um mundo que descarta artistas, sobretudo quando envelhecem.

Sua vaidade não era apenas vaidade. Era também uma luta contra o apagamento. Quando Phedra pedia atenção, talvez estivesse dizendo: “Não permitam que me façam desaparecer”. Para uma mulher trans, estrangeira, idosa e artista, ser vista nunca foi uma frivolidade. Era uma questão de existência.

 

Ferdinando Martins – O livro pretende corrigir esse apagamento?

Ivam Cabral – Nenhum livro consegue reparar completamente uma vida. A literatura não devolve os anos perdidos, não cancela violências e não corrige retroativamente as injustiças. Mas pode disputar a memória. A memória pública costuma ser muito seletiva. Celebra algumas existências e reduz outras a uma nota de rodapé. Escrever sobre Phedra é afirmar que sua trajetória importa não apenas para quem conviveu com ela, mas para a história do teatro, para a história das pessoas trans, dos artistas exilados e de todos os corpos que precisaram lutar pelo direito de aparecer.
O livro não quer dizer apenas “Phedra existiu”. Quer perguntar por que uma existência como a dela precisou lutar tanto para ser reconhecida.

 

Marcio Tito – A coleção, organizada por César Braga-Pinto, parte do desejo de um autor por seu biografado. Que desejo levou você até Phedra?

Ivam Cabral – O desejo de fazê-la permanecer. Mas também o desejo de voltar a encontrá-la. A proposta de César Braga-Pinto é muito bonita porque não disfarça a presença de quem escreve. O autor não observa seu biografado de uma distância supostamente neutra. Existe uma escolha, uma atração, uma inquietação. Cada livro começa porque determinada vida ainda provoca alguma coisa em alguém.

No meu caso, Phedra não era apenas uma personalidade que eu admirava ou uma artista cuja trajetória merecia ser registrada. Ela fazia parte da minha vida. Escrever sobre ela significava atravessar a história de uma amizade, de um grupo teatral, de uma praça e de um período muito importante do teatro brasileiro.

Meu desejo por Phedra é artístico, afetivo, político e também profundamente humano. É o desejo de compreender como aquela mulher conseguiu transformar tantas experiências de perda, deslocamento e violência numa presença tão luminosa. E, talvez, o desejo impossível de sentar novamente ao lado dela, ouvi-la contar uma história que eu já conhecia e fingir que era a primeira vez.

Phedra repetia histórias maravilhosamente. A cada repetição, mudava alguns detalhes, melhorava outros e tornava tudo um pouco mais cinematográfico. Talvez tenha aprendido que, quando a vida não nos oferece a versão que merecemos, temos o direito de reescrevê-la.

Ferdinando Martins – E como falar por Phedra sem aprisioná-la numa versão definitiva?

Ivam Cabral – Esse foi um dos maiores desafios. Toda biografia corre o risco de sequestrar novamente a pessoa que deseja libertar. Quem escreve escolhe acontecimentos, organiza sentidos, estabelece relações. É um gesto de poder.

Por isso procurei não apresentar Phedra como uma vida resolvida. Ela era contraditória, como todos nós. Tinha suas grandezas e seus pequenos abismos. Não me interessava santificá-la nem transformá-la numa personagem exemplar. Phedra jamais suportaria ser exemplar. Provavelmente consideraria a exemplaridade um problema de figurino.

Procurei escrever a partir da proximidade, mas sem fingir que sabia tudo sobre ela. Há regiões de uma vida que pertencem apenas à pessoa que as viveu. O respeito começa quando reconhecemos que alguma coisa sempre permanecerá indecifrável.

 

Marcio Tito – Por que o livro integra uma coleção chamada Vidas Sequestradas?

Ivam Cabral – Porque há muitas maneiras de sequestrar uma vida. Pode-se sequestrar um corpo, um nome, uma voz, um desejo, uma obra ou a possibilidade de uma pessoa narrar a própria história. Pode-se sequestrar uma vida pela censura, pelo preconceito, pela violência política, pelo exílio ou pelo esquecimento.

A coleção reúne figuras muito diferentes, como Zé Celso, Raul Pompeia, Pasolini, Copi, Jean-Claude Bernardet, Tuca e Darwin. O que aproxima essas trajetórias não é uma identidade comum, mas uma tensão: são vidas que, de alguma maneira, escaparam às tentativas de confinamento.

Foram capturadas, interrompidas ou silenciadas, mas também criaram formas de resistência. Phedra pertence profundamente a essa constelação. Tentaram determinar o lugar que seu corpo poderia ocupar, qual gênero lhe seria permitido viver, que importância sua arte mereceria e até quando ela deveria permanecer em cena.

Ela respondeu vivendo mais do que esperavam e aparecendo onde não estava prevista.

Marcio Tito – Existe uma dimensão política no livro?

Ivam Cabral – Inevitavelmente. Um corpo como o de Phedra, em cena, já produzia uma pergunta política. Quem pode ocupar o centro do palco? Quem tem direito ao desejo? Quem pode envelhecer publicamente? Que corpos consideramos belos, trágicos, cômicos ou dignos de protagonismo?

Mas não queria escrever um tratado sobre representação. Queria escrever sobre uma pessoa. Às vezes, na tentativa de reconhecer a dimensão política de alguém, acabamos retirando-lhe a humanidade. A pessoa vira símbolo, e símbolos não têm mau humor, ciúmes, contas para pagar nem dias em que preferem ficar na cama.

Phedra foi política porque foi radicalmente humana num mundo que tentou transformá-la em categoria.

 

Marcio Tito – O que ela ensinou a você como artista?

Ivam Cabral – Que o palco não admite covardia. Podemos entrar em cena com medo, cansados, feridos ou inseguros. O que não podemos é entrar pela metade. Phedra se oferecia inteira ao teatro.

Ela também me ensinou que a presença de um ator não depende da juventude. Vivemos numa sociedade obcecada pela novidade, como se o novo fosse necessariamente vivo e o velho estivesse condenado à repetição. Phedra mostrava o contrário. Seu corpo carregava tempo, e o tempo, quando atravessa verdadeiramente um corpo, produz uma potência que nenhuma juventude consegue imitar.

E o que ela ensinou a você como pessoa?
A não aceitar tão facilmente os lugares que o mundo reserva para nós. Phedra redesenhava o próprio lugar o tempo todo. Quando lhe ofereciam a margem, ela tratava de iluminá-la até que parecesse o centro.
Também aprendi com ela que a força e a fragilidade não são opostas. Phedra podia ser imensa e, poucos minutos depois, parecer uma menina assustada. Talvez sua grandeza viesse justamente dessa convivência. Ela não era forte porque não sentia medo. Era forte porque transformava o medo em gesto, voz, maquiagem, humor e presença.

 

Ferdinando Martins – O livro é também uma história de amizade?

Ivam Cabral – Sim, embora não seja uma amizade idealizada. As amizades verdadeiras não são feitas apenas de ternura. Há desencontros, impaciências, silêncios, mal-entendidos e momentos em que gostar de alguém exige algum trabalho.

Phedra foi minha amiga, minha companheira de teatro e parte fundamental da história dos Satyros. Escrever sobre ela significou reencontrar não apenas a mulher que conheci, mas também quem eu era quando estávamos juntos. Toda lembrança possui pelo menos dois personagens: aquele de quem nos lembramos e aquele que fomos ao seu lado.

Nesse sentido, o livro também fala do tempo e daquilo que ele faz com os vínculos. Algumas amizades terminam com a morte. Outras mudam de endereço.

 

Marcio Tito – Foi difícil escrever sobre alguém tão próximo?

Ivam Cabral – Muito. A proximidade oferece detalhes, mas retira certezas. Quem olha de longe pode construir uma narrativa limpa. Quem esteve perto conhece as zonas confusas, as contradições, aquilo que não cabe numa frase bonita. Também precisei enfrentar minha própria saudade. E a saudade é uma péssima revisora: quer conservar tudo, considera cada pequeno episódio indispensável e se ofende quando cortamos um parágrafo. Foi necessário negociar com ela.

 

Marcio Tito – Se Phedra pudesse ler o livro, o que você acha que ela diria?

Ivam Cabral – Primeiro perguntaria sobre a capa. Depois verificaria o tamanho de seu nome. Em seguida, talvez reclamasse de algum episódio que eu não incluí, de uma fotografia que não a favoreceu ou de uma lembrança na qual, segundo ela, eu estaria completamente equivocado.

Mas espero que, passado esse exame rigoroso, Phedra reconhecesse o amor com que o livro foi escrito. Não um amor que apaga as contradições, mas aquele que permite que o outro permaneça inteiro.

E tenho certeza de que perguntaria quantos exemplares foram vendidos. Phedra possuía uma relação muito objetiva com a eternidade.

 

Ferdinando Martins – Que Phedra o leitor encontrará nestas páginas?

Ivam Cabral – Não apenas a diva, a atriz trans, a cubana, a exilada ou a figura histórica. Encontrará uma mulher empenhada em existir. Uma artista que fez da própria vida um campo de invenção. Uma pessoa que conheceu a solidão, mas continuou buscando o encontro.

Espero que o leitor encontre uma Phedra viva, inquieta, contraditória, engraçada e comovente. Alguém que não cabe inteiramente no livro e que, por isso mesmo, continua para além dele.

Ferdinando Martins – Para quem este livro foi escrito?

Ivam Cabral – Para quem conheceu Phedra e deseja reencontrá-la. Para quem nunca a viu em cena, mas pode descobri-la agora. Para jovens artistas trans que precisam saber que não começaram hoje, que outras pessoas abriram caminhos com o próprio corpo. Para os que amam o teatro. Para os que foram obrigados a deixar um país, uma família ou uma versão de si mesmos para continuar vivendo.

E também para todos nós, que em algum momento sentimos que o mundo estava acabando. Phedra talvez nos diga que o fim do mundo não é motivo para cancelar o espetáculo. No máximo, exige que se confira a luz, se retoque o batom e se faça uma entrada inesquecível.

IVAM CABRAL é autor de dezenas de livros, nos mais diversos gêneros como crônica, dramaturgia e infantil, tem vasta produção de artigos acadêmicos no Brasil e no exterior. Além de psicanalista, é ator, dramaturgo, cineasta e diretor executivo da SP Escola de Teatro.

Doutor (2017) e mestre (2004) em artes cênicas pela Universidade de São Paulo, estudou com grandes nomes da psicanálise brasileira, como Rahel Boraks, Gina Khafif Levinzon, Kayoko Yamamoto, Paulina Cymrot, Magda Guimarães Khouri, Audrey Setton, Alexandre Socha, Cibele Rays, Mário Sérgio Picorelli, Lurdinha Zemel, Sandra Lorenzon Schaffa e Anne Lise Scappaticci, entre a USP e a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Cofundador, ao lado de Rodolfo García Vázquez, da Cia. de Teatro Os Satyros (1989), que tem em seu currículo mais de 140 peças encenadas, com atuação em 36 países, onde recebeu diversos prêmios como Círculo de Amigos del Gran Teatro de La Havana (Cuba, 2008); Prêmio Villanueva/UNEAC (Cuba, 2008); The International Award-Hollywood Fringe Festival (EUA, 2013); Brodway World Los Angeles Awards (EUA, 2020); The Good The@ter Festival Awards (Índia, 2020); Young-Howze Theater Awards (EUA, 2021).

Foi contemplado também com os maiores prêmios do teatro brasileiro: Shell, APCA, Governador do Estado de São Paulo e Aplauso Brasil, entre outros. Finalista ao Prêmio Jabuti em 2010 pela coleção Primeira Obras, foi editado em Angola, Cuba, Estados Unidos, Finlândia, Portugal e Reino Unido; e teve textos seus traduzidos para o alemão, espanhol, inglês e sueco.

 

Fonte: Deus Ateu

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