Johnny Pancadinha desapareceu. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, mas, em No Banheiro Sujo de Qualquer Bar, texto e direção de Marcio Tito para o Coletivo Tragédia Pop, a morte chega antes de qualquer confirmação. Para aquelas personagens, Johnny foi assassinado. Falta descobrir por quem.
Não existe corpo, prova ou testemunha confiável. Talvez nem exista crime. Isso, porém, pouco importa. A busca começa assim mesmo, aos solavancos, movida por boatos, lembranças imprecisas e acusações que mudam de direção o tempo todo. Procurar o assassino antes de saber se houve assassinato parece absurdo, mas combina perfeitamente com a cidade em que essas pessoas vivem. Uma cidade que faz alguém desaparecer e, na noite seguinte, mantém seus bares abertos, as garrafas sobre os balcões e a música tocando para quase ninguém.
Policiais e investigadores não entram nessa história. Quem procura Johnny são aqueles que mal o conheceram, os que dizem ter sido seus amigos, os que o odiavam e, quem sabe, a própria pessoa que o matou. Todos podem ser culpados. Todos podem ser os próximos a sumir. Naquele mundo, ninguém é inocente por completo, mas ninguém dispõe de poder suficiente para proteger sequer a própria vida. Bom e mau são palavras que perdem rapidamente o sentido quando sobreviver passa a ser a única medida possível.
O banheiro sujo do título não serve apenas como cenário. É o porão moral do bar e, talvez, da própria cidade. Ali se faz sexo, usa-se droga, lava-se o sangue, vomita-se, chora-se escondido. Diante de um espelho encardido, ainda é possível ajeitar o cabelo, corrigir a maquiagem ou tentar disfarçar no rosto as marcas de mais uma noite. Depois, respira-se fundo e volta-se para o salão. Há alguma dignidade nesse gesto pequeno de se recompor quando quase tudo ao redor já desmoronou.
Marcio Tito conhece a dramaturgia produzida a partir das margens e não procura esconder suas referências. Percebemos em seu texto a solidão de Koltès, a noite desencantada de Bortolotto e a violência social de Plínio Marcos. As personagens usam a palavra para ferir, mas também para evitar que o outro vá embora. Pedem afeto por meio da ameaça, oferecem companhia como quem propõe uma briga. Ainda assim, Tito não se perde na voz de seus antecessores. Sua escrita tem um humor muito próprio, uma crueldade debochada e uma espécie de tristeza elétrica, como se o dia seguinte pudesse nos devolver à mesma experiência, mas já transformada em outra.
A peça se constrói em fragmentos. Os silêncios atravessam as falas, as versões nunca combinam inteiramente e a violência irrompe sem aviso. Ninguém consegue dizer ao certo o que sente, talvez por não saber, talvez por ter desaprendido. São personagens acostumadas a ferir antes mesmo de reconhecer a ameaça. O afeto existe, mas permanece escondido num lugar quase impossível de alcançar. Deixá-lo à mostra seria uma espécie de nudez indecente. Naquele mundo, confessar que se gosta de alguém pode ser muito mais vergonhoso do que assumir um crime.
Tito também não faz questão de humanizar seus marginais. Podem ser pobres virtuosos ou vítimas criadas para atestar que alguma coisa já não deu certo nesse mundão perdido de Deus. Ao mesmo tempo, podem ser fortes ou delicados, mas tsempre com coragem bastante para apertar o gatilho seja pra quem for. Também são fortes o suficiente para encarar uma noitada de cocaína ou whisky barato.
A peça não salva nenhum deles. Também não os condena. Porque há sempre um espaço onde se pode reconhecer suas humanidades e suas fraquezas. Sim, são valentes dentro de suas covardias porque parece que buscam aprender exatamente dentro de suas falhas.
A investigação avança de maneira precária, feita de memórias falhas, histórias mal contadas e suspeitas que levam a lugar nenhum. Seu verdadeiro impulso não está na descoberta de um culpado, mas na insistência em saber o que aconteceu com Johnny. Aos poucos, outra pergunta se torna mais importante do que a solução do possível crime: quem sente falta de alguém que a cidade já não enxergava?
Quanto mais se fala de Johnny Pancadinha, menos conseguimos alcançá-lo. Ali ele foi amigo e também foi ameaça. Mas também pode ter uma lenda ou até mesmo um fantasma. Cada lembrança inventa um Johnny diferente, como se sua ausência desse às personagens um lugar onde guardar tudo o que perderam, desejaram ou nunca tiveram coragem de ser. É justamente por não estar ali que Johnny toma conta da peça inteira.
Criado em 2011, o Coletivo Tragédia Pop afirma nesta montagem uma identidade bastante particular. Seu nome reúne dois territórios que o espetáculo aproxima sem cerimônia. A tragédia traz os mortos abandonados e os vivos que exigem respostas. A cultura pop entra com seus discos, filmes, ídolos, ruídos e refrões. Não há hierarquia entre essas referências. Uma canção ouvida num bar pode carregar uma dor tão funda quanto um antigo canto trágico.
Por isso, a presença de Antígona, de Sófocles, no encerramento não soa como citação erudita enxertada no espetáculo. Antígona enfrenta o poder para dar sepultura ao irmão, cujo corpo foi condenado ao abandono. A peça de Marcio Tito desloca essa velha pergunta para o centro de São Paulo: quem recolherá o corpo que a cidade decidiu não reconhecer? Quem chorará por alguém cuja existência já parecia clandestina?
A cultura pop não comparece para atualizar artificialmente a linguagem. Ela pertence à memória dessas personagens, ajuda-as a reconhecer seus iguais e oferece palavras para perdas que nunca receberam um nome. Ao colocá-la perto da tragédia grega, Tito aproxima pessoas separadas por séculos, mas submetidas à mesma necessidade: cuidar de seus mortos para não perder inteiramente aquilo que ainda resta de humano entre os vivos.
Johnny Pancadinha talvez seja apenas o nome provisório de tanta gente que São Paulo perdeu sem procurar. No fim, a peça nos fecha naquele banheiro e nos deixa diante do espelho. A superfície está suja, a luz não ajuda e o rosto refletido custa a se formar. Quando finalmente aparece, o desconforto é inevitável. O rosto é o nosso.
Também merece destaque a produção executiva de Ferdinando Martins, cujo trabalho tem ajudado a iluminar a obra de Marcio Tito e a aproximá-la de diferentes públicos. Como estou em cartaz nos mesmos horários da peça, só consegui assistir ao espetáculo graças a uma sessão extra, criada por Ferdinando num sábado, ao final da tarde. Foi ele quem construiu essa ponte, numa iniciativa tão inteligente quanto necessária. Para minha surpresa e alegria, a sessão estava praticamente lotada, sinal de que, quando se abrem novas possibilidades de encontro, o público responde. Essa relação com a obra de Tito vai além da produção: sua dramaturgia também é tema da pesquisa de livre-docência que Ferdinando desenvolve atualmente na USP.
Foto: Guilherme Gnipper
