OPINIÃO | Tuca: a voz que a história tentou apagar

Tuca foi uma das figuras mais sensacionais da música popular brasileira do final dos anos 1960 e início dos 1970. Digo sensacional no sentido mais amplo da palavra. Ela cantava, compunha, tocava vários instrumentos, criava arranjos e conduzia musicalmente os projetos dos quais participava. E fazia tudo isso sem se deixar prender a uma única linguagem. Em sua música, a formação erudita podia conviver com a bossa nova, a canção de protesto, o rock e as matrizes afro-brasileiras. Por vezes, tudo surgia atravessado por uma melancolia que parecia pertencer somente a ela.

Tuca não se acomodou em nenhum dos movimentos que procuraram organizar a música daquele período. Talvez venha daí a dificuldade de classificá-la. Também é possível que essa ausência de lugar tenha contribuído para o esquecimento que cercou seu nome. Artistas que escapam das categorias costumam dar trabalho à história. Quando não se sabe muito bem onde colocá-los, é mais fácil deixá-los de fora.

É contra esse desaparecimento que se ergue Tuca: a cantora lésbica exilada da história, de Renato Gonçalves, publicado pela editora O Sexo da Palavra. O livro faz parte da coleção Vidas Sequestradas, organizada por Cesar Braga-Pinto. Sua leitura produz, desde as primeiras páginas, um desconforto difícil de evitar. Como uma artista tão presente em momentos decisivos da música brasileira pôde ser tão pouco lembrada?

A pergunta envolve escolhas que raramente são inocentes. A memória cultural não se organiza sozinha. Alguém seleciona as fotografias, escreve os créditos, elege os nomes que representarão uma época e decide o que será repetido nos livros. Enquanto algumas trajetórias ganham contornos cada vez mais nítidos, outras desaparecem devagar. O trabalho de Renato Gonçalves nos permite acompanhar esse processo quase em movimento.

Tuca conviveu e trabalhou com artistas que se tornariam fundamentais para a música brasileira. Entre eles estavam Nara Leão, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Taiguara, Airto Moreira, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e Maysa. Sua presença nesse grupo não era circunstancial. Ela participava da criação, interferia nos trabalhos e ajudava a produzir a sonoridade de seu tempo. Ainda assim, quando se conta a história daquele período, seu nome quase nunca aparece com a importância que teve.

A relação com Geraldo Vandré é reveladora. Em 1966, Tuca venceu, ao lado de Airto Moreira, o II Festival Nacional de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, interpretando “Porta-Estandarte”, de Vandré e Fernando Lona. Mais tarde, ela gravaria a canção com o próprio Vandré. Naquele mesmo ano, os dois compuseram “O Cavaleiro”, defendida por Tuca no I Festival Internacional da Canção e premiada com o segundo lugar.

Eram os anos dos grandes festivais, quando música, televisão e política se misturavam diante de plateias apaixonadas. Tuca estava ali, no meio daquela agitação. Não assistia de fora. Seu violão, sua voz e suas composições pertenciam àquele momento. Vandré acabaria reconhecido como um dos principais nomes da canção de protesto. Tuca, por sua vez, foi se tornando uma lembrança imprecisa. Não desapareceu de uma vez. Foi sendo empurrada para as bordas.

Em 1971, dois trabalhos mostraram com especial clareza a força de sua criação. Um deles foi Dez anos depois, álbum duplo de Nara Leão. As gravações feitas em Paris foram dirigidas musicalmente por Tuca, que também respondeu pelos arranjos e pelos violões. Basta ouvir o disco para perceber o quanto ele depende do encontro entre as duas artistas. A voz de Nara parece respirar dentro do espaço aberto pelo violão de Tuca.

Apesar disso, sua atuação apareceu nos créditos sob a expressão “participação especial”. É pouco. Na verdade, é quase uma maneira de ocultar a dimensão do trabalho realizado. Tuca não estava apenas participando. Havia concebido uma parte essencial da identidade musical do álbum. O caso mostra que seu apagamento já ocorria enquanto ela estava viva. Mesmo diante de uma contribuição evidente, faltavam palavras ou talvez vontade para reconhecê-la como a criadora que era.

Também em Paris, Tuca participou da criação de La Question, de Françoise Hardy. O álbum, lançado em 1971, permanece como uma das obras mais belas da canção francesa daquele período. Tuca assina ou compartilha a autoria de dez das doze faixas. É também violonista, arranjadora e uma das responsáveis pela direção artística.

Seria equivocado tratá-la como acompanhante de Françoise Hardy. As duas construíram juntas a linguagem do disco. A voz de Hardy encontrou no violão e nas harmonias de Tuca uma intimidade nova, quase suspensa. A música brasileira está presente, mas não como adereço exótico. Ela conversa de igual para igual com a tradição francesa. O resultado conserva até hoje uma estranheza delicada, como se cada canção guardasse algo que não deseja revelar por inteiro.

Hardy consideraria La Question um dos álbuns mais importantes de sua carreira. No Brasil, porém, a edição do disco suprimiu os créditos e as fotografias de Tuca. A história, aqui, chega a ser literal: não bastou diminuir sua participação; foi preciso retirar sua imagem. O álbum permaneceu intacto, mas uma das mulheres que lhe deram forma desapareceu da capa e dos registros. Poucas situações traduzem tão bem a ideia de uma vida sequestrada.

Renato Gonçalves tem o cuidado de não contar essa história apenas pelo sofrimento. Sua Tuca não é uma personagem passiva, condenada desde o início ao papel de vítima. Ela aparece no livro com sua inteligência, seu humor, suas contradições e uma inquietação que não lhe permitia repetir aquilo que já sabia fazer.

Essa inquietação pode ser ouvida em Drácula I Love You, seu terceiro e último álbum, lançado em 1974. Concebido na Europa, o disco é difícil de comparar com qualquer outro trabalho brasileiro de sua época. Há instrumentos eletrônicos, rock, referências brasileiras, erotismo e uma atmosfera gótica que o atravessa do começo ao fim. Em vez de procurar uma forma mais acessível para retornar ao mercado, Tuca se arriscou ainda mais.

O desejo entre mulheres também está no disco. Às vezes precisa se esconder; em outros momentos, quase vem à superfície. Convém lembrar que Tuca criava sob uma ditadura, num país que perseguia dissidências e vigiava os corpos. Uma obra como aquela dificilmente encontraria acolhimento. Era experimental para o mercado, incômoda para os padrões morais e produzida por uma mulher lésbica num ambiente controlado majoritariamente por homens.

A palavra “lésbica”, presente no título do livro, tem por isso uma importância particular. Renato Gonçalves poderia ter recorrido ao silêncio ou aos eufemismos tantas vezes empregados para tratar da sexualidade de artistas do passado. Preferiu nomeá-la.

Essa escolha não reduz Tuca. Ao contrário, devolve uma parte essencial de sua experiência. Sua orientação sexual atravessava os afetos, as relações e o modo como ela percebia o mundo. Também interferia na recepção de sua obra e nos espaços que lhe eram permitidos. Não há motivo para transformar tudo isso numa nota discreta ao pé da página. Durante muito tempo, dizer que uma mulher “nunca se casou” ou que viveu com uma “grande amiga” foi uma forma aparentemente elegante de apagar sua vida. O livro recusa esse procedimento.

A coleção Vidas Sequestradas parte justamente dessa recusa. Ao reunir ensaios sobre artistas, escritores e outras personalidades queer, ela não quer apenas acrescentar alguns nomes ausentes à história já conhecida. A proposta é mais perturbadora: observar como essa história foi construída e perceber que seus vazios obedecem a uma lógica.

Muitas pessoas hoje consideradas marginais estiveram, em seu tempo, no centro da criação. Participaram dos movimentos artísticos, estabeleceram parcerias e mudaram linguagens. A margem veio depois, produzida pela maneira como suas trajetórias foram contadas. A lesbofobia, a homofobia, a transfobia, o racismo e a misoginia não atingiram somente a vida dessas pessoas. Continuaram agindo sobre suas memórias. Nesse sentido, os sete títulos que inauguram a coleção ajudam a devolver ao presente aquilo que o passado tentou disfarçar.

Com Tuca, a violência contra sua sexualidade se misturou a outra forma de perseguição: a gordofobia. Seu corpo era tratado como se estivesse disponível para o comentário público. Jornalistas, críticos, produtores e fotógrafos se sentiam à vontade para julgá-lo. Em capas de discos lançados no exterior, sua imagem chegou a ser associada à comida, embora nada nas canções justificasse essa escolha.

As resenhas tampouco se limitavam a discutir sua música. Algumas recomendavam que ela emagrecesse. Outras pareciam surpresas com a delicadeza de suas composições, como se beleza e sensibilidade fossem incompatíveis com aquele corpo. Mesmo o elogio carregava uma ofensa escondida. Antes de escutarem a violonista ou a compositora, muitos viam apenas a mulher gorda.

Tuca morreu no dia 8 de maio de 1978. Tinha 33 anos e havia se submetido a um regime extremo de emagrecimento. Não se conhecem inteiramente as circunstâncias de sua morte. Os relatos mencionam jejum prolongado, medicamentos, uma dieta severa e parada cardíaca. O que aconteceu naqueles últimos dias talvez jamais possa ser reconstituído com precisão.

Mas nenhuma tentativa tão violenta de modificar o próprio corpo nasce fora do mundo. Tuca vinha sendo humilhada havia anos. Convivia com comentários cruéis e com a insistência de que precisava emagrecer para ser aceita. É impossível separar sua decisão desse ambiente. Isso não significa estabelecer uma causa simples para sua morte. Significa reconhecer o peso real de uma perseguição que, de tão constante, pode ter feito com que seu próprio corpo se tornasse insuportável para ela.

Não gostaria, porém, de terminar falando apenas de sua morte. Seria uma maneira involuntária de repetir a injustiça, fazendo com que o desfecho trágico ocupasse um espaço maior do que a obra.

Tuca foi uma compositora extraordinária e uma violonista com linguagem própria. Seus arranjos modificaram profundamente o trabalho de outras cantoras. Ela sabia criar um espaço musical no qual uma voz podia soar de outra maneira. Escutou possibilidades que boa parte de seus contemporâneos ainda não conseguia ouvir. Alguns dos caminhos que abriu levariam décadas para ser compreendidos.

Tuca: a cantora lésbica exilada da história nos convida a rever uma biografia, mas seu alcance não termina aí. Depois da leitura, torna-se difícil olhar da mesma maneira para a história da música popular brasileira. Renato Gonçalves encontra os créditos perdidos, recupera fotografias e devolve Tuca às obras que ajudou a criar. Não pode reparar tudo o que lhe fizeram. Nenhum livro poderia. Ainda assim, permite que seu nome volte a circular sem disfarces.

Quando tornamos a escutar Tuca, percebemos algo que talvez seja o mais doloroso de tudo. Ela nunca desapareceu de seus discos. Continuou ali, em cada violão, em cada arranjo e nas canções que deixou. Durante todos esses anos, ausentes estivemos nós.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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