Durante anos, minhas férias e as da minha analista coincidiram. Julho chegava e nós dois desaparecíamos um pouco. Ela para algum lugar que nunca perguntei qual, eu para os meus destinos. E a análise entrava naquele pequeno silêncio anual que, de algum modo, também fazia parte dela.
Nunca tivemos problemas com isso. Neste ano, porém, foi diferente. Minha analista decidiu tirar apenas as duas primeiras semanas de julho. Eu resolvi ficar o mês inteiro de férias.
Falamos rapidamente sobre isso. Ela ficaria fora duas semanas. Eu, quatro. Acordamos assim. Ou pelo menos achei que havíamos acordado.
Faço análise às quintas-feiras e, por uma dessas pequenas ironias do calendário, julho teve cinco quintas. Duas caíram nas férias dela. Nas três seguintes, ela já estaria trabalhando e eu continuaria de férias. Quando chegou a hora do pagamento, apareceu a questão.
Para mim, a conta era simples: duas semanas eram férias dela, três eram férias minhas, portanto naquele mês não haveria sessões. Para minha analista, a conta era outra: nas três últimas quintas-feiras ela estaria disponível. O horário continuaria sendo meu. Logo, as três sessões deveriam ser pagas.
Foi então que descobri que nós dois havíamos participado da mesma conversa e saído dela com contratos diferentes. Achei isso extraordinário. Incômodo, mas extraordinário. Porque talvez uma análise seja também isso: duas pessoas passam anos conversando numa sala e, de vez em quando, descobrem que uma frase aparentemente cristalina continha dois mundos completamente diferentes.
“Vou tirar o mês inteiro de férias.” Eu disse isso. Ela ouviu isso. Eu quis dizer: não faremos análise durante o mês de julho. Talvez ela tenha entendido: você não virá à análise durante o mês de julho. Parece a mesma coisa. Não é. Há uma distância enorme entre não haver sessão e eu não comparecer à sessão. Foi justamente nessa pequena distância que apareceu o nosso desencontro.
Minha primeira reação foi muito pouco psicanalítica e bastante prosaica: mas eu avisei. Como se avisar antecipadamente tivesse o poder de abolir uma ausência. Aos poucos, porém, comecei a desconfiar de que o mais interessante não era saber quem tinha razão, mas entender o que cada um de nós acreditava ter combinado.
Comecei então a pensar no que existe, afinal, numa análise que atravessa tantos anos. São cinquenta minutos? É a escuta? É aquilo que conseguimos dizer? É o silêncio? É a poltrona, o divã, a sala, aquele horário arrancado do resto do mundo? Ou é a existência de um lugar para o qual sabemos que podemos voltar?
Meu horário, diz minha analista, é meu. É uma propriedade curiosa. Não posso vendê-lo, alugá-lo nem deixá-lo de herança. Não posso anunciar: “Vendo quintas-feiras, excelente horário, analista experiente, cinquenta minutos de duração”. Mas, durante anos, toda quinta-feira, naquele horário, existe um lugar esperando por mim.
Nas duas primeiras quintas de julho, minha analista também estava de férias. Nas três seguintes, não. Ela poderia me receber. Eu é que havia escolhido continuar longe. A ausência, portanto, tinha mudado de lado. Para mim, aquelas quintas haviam desaparecido junto com o resto de julho; para ela, continuavam lá.
Sou psicanalista também, o que não ajuda muito. Conheço os argumentos sobre enquadre, continuidade, horário reservado, compromisso com o tratamento e todas essas palavras que ficam muito mais convincentes quando estamos do outro lado do divã. Mas talvez justamente por conhecê-las tenha começado a me interessar menos pela regra e mais pelo que aquele pequeno impasse revelava.
Nós havíamos combinado as férias. Ela sabia que eu ficaria fora o mês inteiro. Eu sabia que ela voltaria antes. O que não combinamos foi o significado daquele acordo. Eu transformei “ela sabe que não estarei aqui” em “durante esse período, meu lugar também estará de férias”. Ela entendeu outra coisa: “eu sei que ele não estará aqui, mas o lugar continuará sendo dele”.
Nenhum dos dois disse essas frases. Talvez porque ambos acreditássemos que não era necessário. É impressionante a quantidade de conflitos humanos que nasce daquilo que consideramos óbvio. Passamos a vida fazendo contratos silenciosos com as pessoas que amamos, com quem trabalhamos, com quem convivemos. Basta alguma coisa sair ligeiramente do lugar para descobrirmos que o contrato que carregávamos na cabeça nunca foi exatamente o mesmo que o outro carregava na sua.
Foi aí que aquelas três sessões começaram a falar de coisas muito maiores do que elas mesmas. De compromisso, liberdade, ausência, permanência. Afinal, o que significa saber que existe um lugar nosso quando não estamos lá? Em que momento um hábito repetido durante anos deixa de ser apenas um horário e passa a fazer parte da arquitetura da nossa vida?
A certa altura, deixou de me interessar qual de nós dois estava certo. Quanto mais penso no episódio, menos me importa a pequena contabilidade que o provocou. O dinheiro abriu a conversa, mas logo saiu do centro dela. Ficaram os acordos que fazemos sem perceber, os sentidos diferentes que atribuímos às mesmas palavras e a estranha descoberta de que nossa ausência também pode ocupar um lugar.
Continuo pensando naquelas três quintas-feiras. Em algum lugar da cidade, durante três semanas, houve uma cadeira vazia que tinha o meu nome. Eu estava de férias. A cadeira, não. Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas e irritantes de uma análise: descobrir que podemos nos ausentar por algum tempo, mas certos lugares que construímos durante anos continuam lá, esperando por nós às quintas-feiras.
