OPINIÃO | O homem que sobra quando o palhaço sai

Despalhaço, de Raul Barretto, nasceu de uma provocação da atriz Susana Aragão durante as Satyrianas do ano passado. Naquela ocasião, o que vimos era claramente uma abertura de processo, um trabalho ainda procurando sua forma e tentando organizar uma quantidade enorme de ideias, memórias e inquietações. Havia problemas de estrutura e ritmo, mas também alguma coisa muito viva, talvez justamente porque ainda não se sabia exatamente aonde aquilo poderia chegar. Reencontrar o espetáculo agora é perceber o quanto ele caminhou desde então. A encenação amadureceu, Raul está mais senhor do material e aquilo que antes parecia uma reunião de possibilidades adquiriu corpo de espetáculo.

Conheço Raul há muito tempo. Nas últimas duas décadas, nossos caminhos se cruzaram sobretudo na SP Escola Superior de Teatro, onde trabalhamos juntos. Por isso, há algo particularmente bonito em vê-lo agora sozinho em cena e reconhecer ali o homem que encontramos fora dela. O Raul de Despalhaço é, em grande medida, o Raul que conhecemos: generoso, inquieto, bem-humorado, atento ao outro, preocupado com o planeta e com as injustiças que atravessam nossa vida cotidiana. Nada disso parece convocado artificialmente para servir a uma personagem ou sustentar uma tese. Há uma integridade muito bonita entre aquilo que Raul diz no palco e o modo como procura viver fora dele. Talvez seja justamente aí que o título do espetáculo ganhe uma dimensão interessante. Despalhaçar-se não significa abandonar o palhaço, mas retirar algumas camadas para deixar aparecer o homem que sempre esteve ali.

Integrante dos Parlapatões, grupo fundamental da história recente do teatro paulistano, Raul traz consigo uma longa experiência do jogo, do humor e da relação direta com a plateia. Despalhaço, porém, permite enxergar outras regiões desse intérprete. Raul Barretto é um grande ator, e talvez seja importante dizer isso com todas as letras porque uma trajetória tão ligada a um coletivo pode, às vezes, fazer com que percamos de vista a singularidade de quem está dentro dele. Sozinho em cena, revela domínio de palco, inteligência, capacidade de escuta e uma presença que não precisa se impor para conquistar o espectador. Nesse sentido, Despalhaço é um dos grandes momentos de sua carreira.

O espetáculo ainda tem um problema importante: o texto não alcançou inteiramente o amadurecimento que Raul e a cena já conquistaram. Continua verborrágico, por vezes explicativo demais, e algumas passagens ainda pedem uma costura dramatúrgica mais precisa. Uma poda seria muito bem-vinda. Inclusive para aproximar o espetáculo dos sessenta minutos. Não porque Raul não sustente uma duração maior, mas porque nem tudo o que ele tem para dizer precisa estar nesta peça. O excesso, em alguns momentos, acaba escondendo justamente aquilo que Despalhaço tem de melhor.

E o melhor é Raul. Há algo de profundamente afetuoso na maneira como ele se oferece ao público, sem que esse afeto se transforme em sentimentalismo. O humor está ali, evidentemente, mas agora convive com a consciência do tempo, com as inquietações de quem olha para o mundo ao redor e com a experiência acumulada de um artista que já não precisa demonstrar suas possibilidades. Pode simplesmente confiar no que viveu, no que pensa e, principalmente, naquilo que sabe fazer sobre um palco.

Talvez por isso Despalhaço seja menos sobre deixar de ser palhaço do que sobre descobrir tudo o que cabe dentro dele. O integrante dos Parlapatões continua ali, assim como o professor, o gestor, o cidadão preocupado com o planeta e o sujeito bem-humorado que encontramos no cotidiano. Mas aparece, acima de todos eles, algo muito simples e poderoso: um ator diante de uma plateia, sustentando o encontro com sua presença. Despalhaço não precisa inventar um novo Raul Barretto. Seu gesto mais bonito é justamente nos permitir enxergar, com outra nitidez, o grande ator que sempre esteve ali.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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