REFLEXÃO | De repente acordei velho

Leio agora no UOL uma atriz da televisão dizendo que “o envelhecimento é castigo do ser humano”. Tive que parar um pouco. Não porque concorde com ela, tampouco porque discorde inteiramente. Parei porque, de repente, percebi uma coisa bastante simples: eu envelheci. E a sensação é exatamente esta: de repente.

Não sei dizer quando começou. Um dia fiz sessenta anos. Houve bolo, mensagens, abraços, talvez alguma piada sobre a idade. Depois vieram sessenta e um, sessenta e dois, sessenta e três. E, em algum ponto desse caminho que não consigo localizar, acordei velho.

O curioso é que o problema não está exatamente em ter acordado velho. O problema é não ser mais jovem. Parece a mesma coisa, mas não é.

Não quero recorrer àquela frase consoladora de que “por dentro continuo com vinte anos”. Não continuo. Ainda bem. Aos vinte anos eu era um rapaz cheio de medos que fingia não ter, certezas que não mereciam tanta certeza, urgências que pareciam definitivas. Não gostaria de voltar a ser aquele rapaz, embora às vezes sinta uma ternura imensa por ele. E, claro, alguma inveja de seus joelhos.

Também não quero dizer que sou uma criança por dentro. Crianças são crianças. Jovens são jovens. E eu sou um homem de sessenta e três anos. Tenho a idade que tenho, mesmo quando ela me parece um erro de digitação na carteira de identidade.

Talvez uma das coisas mais estranhas do envelhecimento seja justamente essa pequena divergência entre quem somos e a imagem que o tempo passa a devolver de nós. Durante muitos anos, a gente olha no espelho e encontra aproximadamente a pessoa que esperava encontrar. Até que um dia aparece ali alguém que chegou antes de nós.

Não estou falando apenas das rugas, dos cabelos brancos ou da pele que começa a desistir de certas antigas fidelidades. Estou falando de outra coisa. Do lugar que passamos a ocupar no mundo.

Um rapaz me chama de senhor. Alguém se levanta para me oferecer o lugar. Uma conversa sobre alguma coisa acontecida nos anos 1980 termina com a descoberta constrangedora de que a pessoa diante de mim ainda não tinha nascido. Certos ídolos da minha juventude agora são verbetes históricos. Algumas músicas que dancei quando foram lançadas tocam em festas chamadas “retrô”. E pessoas que fizeram parte da minha vida começam a morrer com uma frequência que antes não existia.

Talvez seja aí que a velhice realmente comece: não no corpo, mas quando o mundo passa a nos devolver a medida do tempo.

Ainda assim, chamar isso de castigo me parece excessivo. Castigo pressupõe culpa. E não consigo imaginar qual teria sido o crime. Ter vivido?

Há qualquer coisa de perverso numa sociedade que nos manda viver muito e, ao mesmo tempo, nos constrange quando conseguimos. Faça exercícios, coma direito, durma oito horas, cuide do coração, controle o colesterol, vá ao médico, faça exames, previna-se de tudo. Querem que cheguemos aos noventa. Desde que pareçamos ter quarenta. Envelhecer é permitido. Parecer velho, nem tanto.

Talvez por isso tenhamos inventado tantos eufemismos. Melhor idade. Terceira idade. Maturidade. 60+. São palavras tentando colocar flores numa coisa que talvez não precise de flores. Velho não deveria ser uma ofensa. É apenas uma palavra que ficou carregada de tudo aquilo que temos medo de perder: beleza, desejo, autonomia, relevância, futuro. Principalmente futuro.

Quando somos jovens, o futuro parece uma propriedade privada. Há tanto dele que podemos desperdiçá-lo. Passamos tardes inteiras sem fazer nada, adiamos viagens, amores, telefonemas, livros. “Um dia eu faço.” O jovem é milionário de tempo e nem sabe. Aos sessenta e três, começo a desconfiar do preço das horas.

Isso não significa viver desesperadamente, riscando uma lista de coisas antes que seja tarde. Ao contrário. Talvez eu tenha começado a compreender que algumas coisas podem simplesmente não acontecer. E há uma estranha liberdade nisso. Não preciso mais ser todas as pessoas que imaginei que seria. Algumas versões de mim ficaram pelo caminho. Outras deram certo. Outras foram um desastre. E aqui estamos nós. Eu e todos os homens que fui.

Não acho bonito tudo no envelhecimento. Essa também seria uma mentira. Há perdas. O corpo começa a estabelecer condições para acordos que antes assinava sem ler. A memória às vezes esconde uma palavra banal numa gaveta e fica observando, divertida, enquanto procuramos por ela. A morte deixa de ser uma abstração filosófica e começa a circular pelas proximidades, levando conhecidos, amigos, amores, referências. Há dias em que o espelho é gentil. Em outros, parece ter recebido instruções para não colaborar. Mas há ganhos que eu não trocaria pela juventude. Uma certa desobediência, por exemplo.

Aos sessenta e três anos, algumas coisas já não precisam ser provadas. Posso gostar do que gosto sem montar uma tese de defesa. Posso ir embora de lugares onde não quero estar. Posso dizer não. E talvez essa seja uma das palavras mais bonitas que a idade me ensinou. Posso reconhecer meus fracassos sem acreditar que eles me definem. Posso olhar para algumas feridas antigas e perceber, com espanto, que já não doem. E posso continuar desejando. Isso, talvez, seja o que mais me interessa.

Porque durante muito tempo confundimos juventude com desejo, como se desejar fosse privilégio dos corpos novos. Não é. Continuo querendo coisas. Projetos. Viagens. Livros. Palcos. Pessoas. Conversas. Noites. Manhãs. Continuo curioso sobre aquilo que ainda não conheço. Há cidades onde nunca estive, textos que ainda não escrevi, pessoas que ainda não encontrei. Aos sessenta e três anos, para minha surpresa, ainda espero acontecimentos.

Talvez seja essa a parte mais bonita e mais assustadora de envelhecer: perceber que a vida não termina quando a juventude termina. Ela apenas muda de gramática.

Há verbos que já não conjugamos. Outros aparecem. O primeiro deles, talvez, seja aceitar. Não aceitar no sentido resignado de quem abaixa a cabeça diante de uma sentença. Aceitar como quem finalmente reconhece o próprio endereço.

Tenho sessenta e três anos. Não cinquenta “com espírito de trinta”. Não quarenta “por dentro”. Sessenta e três. Com todas as belezas e todas as dores que essa idade trouxe até a minha porta.

Não sei se envelhecer é um privilégio. Às vezes essa frase também me incomoda, porque parece exigir gratidão justamente nos dias em que alguma coisa dói. Não precisamos achar maravilhoso o tempo inteiro aquilo que simplesmente faz parte de estar vivo. Mas castigo também não é.

Talvez envelhecer seja apenas o preço de continuar. E, pensando bem, entre todas as coisas pelas quais já paguei caro nesta vida, esta talvez seja a única cuja cobrança significa que ainda estou aqui.

PHOTO: Patricia Pillar

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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2 comentários em “REFLEXÃO | De repente acordei velho

  1. Ivam, que reflexão maravilhosa, humana!
    Eu amei e me identifico quando você nomeia o estranho sentimento que nos essa divergência entre o que somos e a imagem que o tempo nos devolve. É exatamente isso.
    Penso que a alma tem outro compasso, diferente mesmo do corpo. O corpo denuncia a passagem do tempo que a alma distraída com a vida, não se atenta.
    Muito bom! Obrigada! Clarissa.

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