O assunto da semana são os livros. Está acontecendo a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, uma dessas ocasiões em que a cidade parece se lembrar de que ainda existem pessoas dispostas a passar horas diante de uma página, acreditando que alguma coisa pode acontecer ali. Talvez por isso eu tenha começado a fazer contas e me dado conta de que, até o final deste ano, lançarei dois livros. A Urutau publica a dramaturgia de Quase Todos, peça que estreou este ano e que, de algum modo, ainda continua acontecendo dentro de mim. Depois virá Phedra de Córdoba: uma atriz para o fim do mundo, pela editora O Sexo da Palavra. Com Quase Todos, chego ao meu trigésimo livro. Escrevo a frase e ela me parece um pouco absurda: trinta livros. Não sei exatamente quando isso aconteceu.
Talvez seja assim com algumas coisas importantes da vida: elas acontecem enquanto estamos ocupados fazendo outra coisa. Eu estava escrevendo uma peça, dando aula, ensaiando, dirigindo uma escola, pegando avião, pagando contas, encontrando gente, perdendo gente, começando projetos que pareciam impossíveis e terminando outros que também pareciam. E, no meio disso tudo, fui escrevendo livros. Alguns passaram quase silenciosamente, outros fizeram um pouco mais de barulho. Os Satyros, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, ganhou o Prêmio Jabuti de Livro de Arte. A Coleção Primeiras Obras, que organizei também para a Imprensa Oficial, chegou à final do Jabuti. Pessoas Perfeitas, escrito com Rodolfo García Vázquez, ganhou o Prêmio Shell de melhor autoria, e sua montagem recebeu o APCA de melhor espetáculo. Anos depois, Teatro de Grupo na Cidade de São Paulo e na Grande São Paulo, uma enorme cartografia de artistas, grupos, lutas e travessias, recebeu o Prêmio Especial da APCA. É bonito lembrar dessas coisas. Os prêmios não explicam uma obra, mas deixam pequenas luzes acesas pelo caminho.
Só que talvez seja ainda mais bonito lembrar dos livros que não ganharam nada. Porque um livro não sabe que perdeu um prêmio. Ele continua lá, na estante de alguém, numa biblioteca pública, numa caixa esquecida durante uma mudança, numa mesa de cabeceira. Talvez tenha sido comprado e nunca lido. Talvez esteja cheio de anotações a lápis. Talvez alguém tenha dobrado a ponta de uma página, coisa que durante muito tempo achei um crime e hoje considero uma forma de carinho. Talvez um exemplar tenha sido emprestado e jamais devolvido. Também é uma maneira de um livro seguir viagem. Há qualquer coisa de comovente nessa vida que os livros passam a ter longe de quem os escreveu. Depois de publicados, já não nos pertencem inteiramente. Vão morar com desconhecidos e, às vezes, sabem deles coisas que nós jamais saberemos.
Quando penso nesses trinta livros, portanto, não consigo vê-los como uma obra organizada numa estante. Vejo pedaços da minha vida. Há teatro neles, claro, muito teatro. Há os Satyros, a Praça Roosevelt, atores, personagens, cidades, viagens, fracassos, estreias. Há pessoas que já morreram e continuam falando porque, em algum momento, escrevi seus nomes numa página. Há coisas em que eu acreditava e nas quais talvez já não acredite. Há o homem que fui aos quarenta anos discutindo silenciosamente com o homem que sou aos sessenta e três. Essa talvez seja uma das coisas mais bonitas – e mais assustadoras – de publicar um livro: não podemos voltar lá para corrigir quem éramos. O livro fica; nós é que seguimos. Por isso tenho certa ternura até pelos meus livros de que gosto menos. Eles sabem coisas sobre mim que eu já esqueci. Guardam minhas antigas certezas, meus excessos, minhas ingenuidades. São pequenos arquivos de alguém que usou o meu nome antes de mim.
Agora vem Quase Todos, e gosto especialmente de chegar ao número trinta com esse título. Porque, pensando bem, nunca escrevemos sozinhos. Mesmo quando existe apenas um nome na capa, há sempre uma multidão escondida dentro de um livro. As pessoas que amamos, as que nos feriram, aquelas que encontramos durante quinze minutos e nunca mais vimos, os mortos, os amigos, os inimigos, os desconhecidos que disseram uma frase no ônibus e, sem saber, deixaram uma personagem para trás. No meu caso, isso é ainda mais evidente porque tantos desses livros nasceram de parcerias, encontros, companhias, grupos, palcos. Talvez todos os meus livros tenham sido escritos, de alguma maneira, por quase todos. E talvez seja por isso que esse trigésimo título, involuntariamente, pareça fazer uma pequena brincadeira comigo.
Depois virá Phedra. Phedra D. Córdoba, atriz, travesti, amiga, furacão, uma dessas pessoas que pareciam incapazes de passar pelo mundo sem alterar a temperatura do lugar. Escrever sobre ela foi também tentar impedir uma segunda morte: aquela que acontece quando o último de nós deixa de contar uma história. E talvez aí esteja uma resposta possível para essa conta que a Bienal me fez fazer. No fim das contas, talvez os livros sirvam menos para vencer prêmios – embora seja uma alegria danada quando vencem – e muito menos para nos tornar imortais, porque livro nenhum conseguiu essa façanha, do que para deixar algumas coisas um pouco mais difíceis de desaparecer.
Uma voz, uma praça, uma atriz, um amor, uma cidade que já não existe, um homem que fomos. Uma frase que alguém disse numa noite qualquer e que, por alguma razão, não conseguimos esquecer. Olho para trás e vejo trinta tentativas de fazer isso. Algumas deram certo, outras provavelmente não; algumas chegaram a muita gente, outras talvez tenham encontrado apenas meia dúzia de leitores. Não importa tanto. Trinta livros depois, continuo sem saber exatamente por que escrevo. Mas começo a desconfiar que escrevo porque sempre tive dificuldade de aceitar que as coisas acabam.
