𝐎 𝐞𝐬𝐭𝐫𝐚𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐚𝐩𝐚𝐫𝐞𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐚𝐬 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐚𝐦𝐚𝐝𝐚𝐬

Na página de hoje do UOL, encontro uma matéria sobre Brad Pitt falando de um distúrbio que carrega há anos: a prosopagnosia, uma espécie de ‘cegueira facial’. Leio aquilo com uma espécie de alívio, desses que não fazem barulho porque vêm acompanhados de vergonha antiga. Então não sou apenas eu. Então existe nome para essa estranha incapacidade de reconhecer pessoas queridas quando elas saem minimamente do desenho habitual que a minha memória fabricou para elas.

E curioso perceber que ele relata exatamente o que também atravessa meus dias: as pessoas acreditam que ele seja arrogante, distante, desinteressado. Como explicar a alguém que o problema não é desprezo, mas confusão? Que não reconhecer um rosto não significa não reconhecer um afeto?

Esta semana vivi uma dessas pequenas tragédias ridículas do cotidiano. Ridículas porque parecem banais para quem olha de fora. Trágicas porque, por dentro, deixam um rastro de culpa.

Elen Londero trabalha comigo na SP Escola Superior de Teatro há muitos anos. Muitos mesmo. Dividimos corredores, decisões, crises, alegrias, reuniões intermináveis, estreias, incêndios simbólicos e reconstruções afetivas. Há pessoas que passam a existir dentro da nossa rotina como móveis da casa da infância: não precisamos procurá-las para saber que estão ali.

Naquele dia, eu saía para almoçar. Passo rapidamente pela recepção da escola. Há muita gente sentada por ali. Rodolfo García Vázquez conversa com alguém. Dou um “oi” rápido aos dois e sigo andando. A pessoa ao lado dele é, para mim, apenas mais um rosto perdido na multidão do dia.

Poucos segundos depois, Rodolfo vem atrás de mim.

— Você não reconheceu a Elen?

Volto imediatamente. Meio sem graça. Meio destruído. Abraço a Elen tentando sorrir com naturalidade, enquanto por dentro algo afunda devagar. O cabelo dela estava completamente diferente. Armado, volumoso, quase indomável. Atriz, estava assim por causa da peça que estrearia naquela noite. Bastou isso. Uma mudança de cabelo. Um deslocamento mínimo na arquitetura do rosto. E, de repente, minha amiga de tantos anos tornou-se uma desconhecida atravessando o saguão da escola.

Há uma tristeza funda nisso.

Porque a prosopagnosia não produz apenas confusão. Ela produz mal-entendidos morais. O outro não pensa: “ele não me reconheceu”. O outro pensa: “ele fingiu não me reconhecer”. Entre uma coisa e outra existe um abismo.

Passei o resto do dia pensando na quantidade de pessoas que encontro diariamente e que talvez saiam de perto de mim acreditando ter encontrado um homem arrogante. Um sujeito frio. Um boçal. Quando, na verdade, estou apenas tentando sobreviver num mundo em que os rostos escorrem da memória como água entre os dedos.

É estranho pensar nisso: às vezes, basta um novo corte de cabelo para que alguém amado desapareça diante dos nossos olhos.

E talvez o mais doloroso da cegueira facial não seja não reconhecer as pessoas.

Talvez seja carregar, silenciosamente, a culpa de parecer não amá-las.

+ na foto, Elen Londero em “Hello, Édipo”

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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