A rádio Eldorado e a voz que ficava acesa

Quis voltar à Rádio Eldorado.

Talvez voltar nem seja o verbo exato. A gente não volta a uma rádio como volta a uma casa, a uma rua, a uma cidade. A rádio não está inteiramente em lugar nenhum. Ela se espalha. Entra pelo quarto, pelo carro, pela cozinha, pelo corredor, pelo celular esquecido sobre a mesa. A rádio não ocupa espaço: ocupa tempo. Talvez por isso seja tão difícil se despedir dela. Quando uma rádio desaparece, não perdemos apenas uma programação. Perdemos uma forma de atravessar os dias.

Eu não imaginava que ficaria tão triste.

Sexta-feira foi um dia pesado. Um luto sem cerimônia, desses que não cabem nos protocolos públicos. Ninguém decreta feriado pela morte de uma frequência. Nenhuma cidade baixa as bandeiras quando uma voz se cala no dial. Mas alguma coisa, dentro da gente, sabe. Alguma coisa percebe quando uma companhia de anos começa a se retirar, discretamente, como alguém que apaga as luzes antes de sair.

A Eldorado fazia parte da minha vida com a naturalidade das coisas essenciais. Não era apenas uma rádio que eu ouvia. Era uma presença. Uma inteligência sonora acompanhando meus deslocamentos, minhas manhãs, minhas tardes, minhas noites, minhas madrugadas. Em tempos tão ruidosos, ela ainda parecia acreditar na escuta. E isso, hoje, é quase um gesto de resistência.

Durante muito tempo, comecei meus dias ouvindo Haisem Abaki, Carolina Ercolin e Eliane Cantanhêde no Jornal Eldorado. Aprendi muito de política com os três. Não apenas pelos fatos, pelas análises ou pelas entrevistas, mas por uma certa maneira de organizar o mundo pela palavra. A política, ali, não chegava como gritaria. Chegava como pensamento. Como conversa. Como tentativa de compreender o país antes de condená-lo à própria confusão.

Haisem, Carolina e Eliane me acompanharam em manhãs difíceis, apressadas, decisivas. Às vezes eu ainda estava entre o sono e o primeiro café, e eles já estavam lá, tentando nomear o Brasil. Havia algo de pedagógico nisso, mas sem didatismo. Uma educação pela escuta. Mesmo quando, inúmeras vezes, eu os questionei, discordei deles, briguei silenciosamente com o rádio. Talvez também por isso eu os ouvisse tanto. A rádio, quando é boa, não exige concordância. Transforma a notícia em convivência.

Mas a alegria, a alegria de verdade, vinha com o Fim de Tarde, com Emanuel Bomfim e Leandro Cacossi.

O fim da tarde sempre carrega uma ambiguidade. É a hora em que o dia começa a se despedir, mas ainda não virou noite. Emanuel e Leandro pareciam entender profundamente esse território. Havia, no programa, uma mistura rara de leveza e inteligência. Eles sabiam conversar sem banalizar. Sabiam rir sem empobrecer. Sabiam comentar o mundo sem se colocar acima dele.

Eu gostava daquela alegria. Não uma alegria histérica, fabricada para preencher vazios. Era uma alegria de presença. A alegria de quem ainda acredita que uma boa conversa pode salvar um pedaço do dia. O Fim de Tarde era isso: uma ponte. Entre o trabalho e a casa. Entre a cidade e a intimidade. Entre o peso do mundo e a possibilidade de respirar um pouco melhor.

E como foram lindas as temporadas de Minha Canção, da Sarah Oliveira.

Para mim, Sarah é uma das maiores comunicadoras que já ouvi. Talvez a maior. Há profissionais que não apenas apresentam um programa: criam uma atmosfera. Sarah Oliveira tem essa qualidade rara. Ela não entra no ar para ocupar o silêncio. Ela entra para dar sentido ao silêncio. Sua voz parecia saber que cada canção traz consigo uma biografia secreta. Uma música nunca é apenas uma música. É sempre alguém que amou, alguém que perdeu, alguém que esperou, alguém que sobreviveu.

No Minha Canção, havia um pacto delicado entre memória e revelação. As canções chegavam como cartas abertas, fotografias que ainda respiram, objetos guardados numa gaveta e reencontrados muitos anos depois. Sarah conduzia tudo com uma inteligência afetiva impressionante. Não sentimentalizava. Não explicava demais. Sabia deixar a música acontecer. E isso é uma arte imensa: saber desaparecer um pouco para que o outro — a canção, o ouvinte, a memória — possa aparecer.

A Hora da Vitrola, Edição Limitada, Madrugada Eldorado encantavam meus dias, minhas noites e minhas madrugadas. A Eldorado tinha essa capacidade de acompanhar as diferentes temperaturas da vida. De manhã, nos ajudava a pensar. À tarde, nos devolvia alguma alegria. À noite, nos fazia companhia. De madrugada, parecia falar diretamente com os náufragos, os insones, os artistas, os amantes, os bêbados, os trabalhadores tardios, os solitários profissionais, os que voltavam para casa sem saber muito bem de onde estavam voltando.

Que prazer era chegar em casa no meio da madrugada, meio torpe, meio suspenso, e ouvir Sarah Vaughan interpretando I Live to Love You, versão em inglês de Ray Gilbert para Morrer de Amor, de Oscar Castro-Neves e Luvercy Fiorini. Aquela voz atravessava a noite como uma entidade. Sarah Vaughan não cantava apenas uma canção brasileira. Ela parecia ampliar o Brasil dentro da própria garganta. A música, naquele instante, deixava de pertencer a um país, a um idioma, a uma época. Virava matéria cósmica. Virava consolo.

Há momentos em que uma rádio nos salva sem saber.

Roberta Martinelli, desde 2016, passou a fazer parte importante dos meus dias. Me lembro do primeiro programa. Eu estava indo para a USP com Erika Riedel. Naquele dia, Erika me falava sobre uma doença incurável cujo diagnóstico acabara de receber. A vida, às vezes, faz essas montagens brutais: uma voz nova no rádio, uma amiga diante da notícia do próprio corpo, a cidade passando pela janela, o futuro subitamente mais estreito.

Desde aquele dia – era julho e fazia frio – eu me  tornei íntimo de Roberta. Íntimo sem intimidade real, como acontece com as grandes vozes do rádio. Nunca precisei conviver com ela para que ela fizesse parte da minha vida. Ainda assim, havia uma rede comum de amigos, uma proximidade indireta, quase teatral. Seu marido, Pedro, diretor de teatro, é bastante próximo de mim. Mas minha relação com Roberta se deu primeiro por essa via misteriosa: a escuta. Antes da convivência possível, veio a presença sonora. Antes da pessoa, veio a voz.

E a voz, no rádio, tem uma força muito particular. Ela não nos olha, mas nos alcança. Não nos toca, mas nos acompanha. Não exige resposta, mas nos convoca. Talvez por isso algumas vozes se tornem parte da nossa história sem que seus donos saibam. Elas entram em dias decisivos, viagens, retornos, lutos, esperas, manhãs comuns que só depois descobrimos fundamentais.

A Eldorado foi, para mim, uma dessas companhias. Uma casa sem paredes. Uma escola sem matrícula. Um teatro invisível onde a cidade se apresentava todos os dias. Seus programas compunham uma dramaturgia da escuta: o jornalismo como prólogo, a música como cena, a conversa como intervalo, a madrugada como epílogo.

Se despedir de uma rádio é também se despedir de versões de nós mesmos. Do homem que acordava com o Jornal Eldorado tentando entender o país. Do homem que sorria com Emanuel e Leandro no fim da tarde. Do homem que se emocionava com Sarah Oliveira diante de uma canção. Do homem que chegava em casa de madrugada e encontrava Sarah Vaughan acesa no escuro. Do homem que, indo para a USP ao lado de Erika, ouviu Roberta Martinelli pela primeira vez enquanto a vida mostrava, sem delicadeza alguma, sua face mais frágil.

Talvez por isso tenha doído tanto.

Porque a Eldorado não era apenas som. Era calendário íntimo. Era companhia de pensamento. Era uma forma de estar em São Paulo sem se entregar completamente à brutalidade de São Paulo. Uma ilha de inteligência no meio do trânsito, uma fresta de beleza no excesso de informação, uma delicadeza possível num mundo cada vez mais incapaz de delicadeza.

Quando uma rádio assim se cala, o silêncio não começa imediatamente. Primeiro, continuam ecoando as vozes. Depois, as vinhetas. Depois, os nomes dos programas. Depois, certas músicas. Depois, a lembrança de onde estávamos quando ouvimos determinada canção. Mais fundo ainda, permanece uma espécie de gratidão.

A Eldorado me ensinou que escutar também é uma forma de viver.

Não estou apenas triste pelo fim de uma rádio. Estou triste porque uma parte da minha vida tinha aquela frequência. E agora precisarei procurá-la em outro lugar. Na memória, nos amigos, nas canções, nas madrugadas, nas vozes que continuam dentro da gente mesmo depois que saem do ar.

A Eldorado se despede. Mas certas vozes não terminam. Elas apenas mudam de lugar.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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