Zeca Baleiro reverencia o cancioneiro lusitano em disco

Em “Canções d´Além-mar, o cantor maranhense coloca sua voz a serviço da nova geração de compositores portugueses

por PATRÍCIA CASSESE

 

A aproximação de Zeca Baleiro com a música portuguesa não fugiu muito do modo como habitualmente ela se dá com boa parte dos brasileiros. “Havia uns discos de fado na casa dos meus pais – mas como havia também de tangos, boleros e chorinhos”, relembra ele. Mais tarde, ao morar por um tempo, junto a sua mãe, na casa de três tias viúvas (“as tias Ericeira, bem portuguesinhas”), na rua dos Remédios, centro de São Luís, Baleiro se deixava conduzir pelo gosto musical de uma delas, Verônica,  o que incluia a audição constante de música portuguesa mais ‘antiga’. Mas foi nos anos 80 que ele começou a travar contato com a uma música mais moderna de Portugal. “E me encantei quando fui presenteado, pelas amigas Laurinda e Salete, também de família portuguesa, com um K7 com músicas de Fausto, Vitorino e Zeca Afonso. Essas são as primeiras (e marcantes) vozes modernas portuguesas que eu ouvi”, conta o moço, que acaba de lançar um disco declaração de amor ao país:  “Canções d’Além Mar” (Saravá Discos).
No álbum, ele interpreta composições de autores como Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Fausto, Zeca Afonso, Rui Veloso e Carlos Tê, Jorge Palma, António Variações, Ornatos Violeta, Vitorino, João Gil e João Monge e José Cid. O primeiro single lançado (com clipe) foi  “Às Vezes o Amor”, do citado Godinho  o clipe “Tu Não Sabes”, composição de Pedro Abrunhosa. Na sequência, gravado já no curso da quarentena, em São Paulo, veio o clipe “Tu Não Sabes”, estrelado pela atriz Ana Rita Abdalla, com roteiro do ator, autor e cofundador da Cia. Os Satyros, Ivam Cabral, e direção de Marcelo Amiky.
“Mas todas (as faixas) são muito importantes pra mim – por isso mesmo estão no álbum”, salienta ele, que, no entanto, acaba destacando duas – “Ali está a Cidade”, do Fausto, e “Menina, estás à Janela”, de Vitorino – por um motivo pra lá de justo. “Ambas me remetem àquele cassete, através do qual travei contato com essa música portuguesa mais moderna”. Justíssimo. Confira, a seguir, outros trechos da entrevista.
Tendo pontuado que deixou de fora um material que te interessava, por questão de espaço mesmo, teria vontade de acrescentar o que não entrou em shows (pensemos com fé que as coisas vão voltar ao normal ano que vem, por ex) ou mesmo em um DVD?  Sim, já tenho pensado nisso, em cantar as “sobras” nos shows que pretendo fazer lá e cá. DVD, infelizmente, parece um formato morto, depois do advento do YouTube. Mas penso em gravar clipes de todas as músicas e espalhar nas redes, isso sim. Outra possibilidade é fazer uma versão especial, aumentada, na plataformas de áudio.
Acha injusto que a produção musical de lá não seja assim, tão conhecida aqui, no Brasil, como mereceria? O que poderia ser feito nesse sentido? Sim, acho mesmo lamentável que a gente conheça pouco ou nada da produção musical contemporânea portuguesa por aqui. Eu atribuo esse desconhecimento em parte à dificuldade de o brasileiro entender o português de Portugal, profundamente fechado. Se você não tem vivência com os portugueses, não entende. Agora temos o Antonio Zambujo e a Carminho fazendo colaborações com músicos brasileiros, o que me parece promissor. Note que eles, o Zambujo sobretudo, canta com pouquíssimo sotaque. Outras razões seriam a falta de música portuguesa nas nossas rádios e a pouca circulação desses artistas por aqui, devido à falta de investimento das gravadoras brasileiras em artistas portugueses ao longo do tempo.
Alguma vez já pensou em morar em Portugal? Já. Eu adoro o Brasil, mas ultimamente confesso que tenho voltado a pensar nisso de novo. O ar daqui anda um pouco irrespirável. Lembro que quando fui a primeira vez a Portugal, senti muita familiaridade com os gestos, as falas, até as posturas de corpo… Dizem que São Luís, minha terra natal, é a cidade brasileira mais portuguesa. Quem sabe isso explique tamanha familiaridade, não sei dizer. Há um detalhe porém: Portugal está na Europa, é um país que investe em educação e cultura, socialmente equilibrado, politicamente estável nesse momento. Nesses tópicos, infelizmente, estamos atrasados anos-luz de lá.
Zeca, como está a sua quarentena? O que tem feito no isolamento?  Tenho aproveitado a parada forçada para organizar um pouco a vida, que estava bem bagunçada (risos). Não perco de vista o aspecto trágico disso tudo, e o real risco que qualquer um de nós corre neste momento. Já perdi três pessoas conhecidas/próximas, inclusive. Mas a vida não para, e um jeito bom de passar por isso é mergulhar no trabalho, embora mergulhar em si também possa ser proveitoso. Tenho feito algumas lives para divulgar o disco, com participação de músicos portugueses. E participado em lives de amigos, caso da cantora mineira Titane ou do Lula Ribeiro, compositor sergipano radicado em BH. Tenho trabalhado bastante, tanto nos afazeres domésticos como criativos. Estou criando trilhas para dois filmes nacionais e compondo bastante. A quarentena fez com que eu me reaproximasse de alguns parceiros queridos como Chico César, Fausto Nilo, Zélia Duncan, Wado… E conquistasse outros novos, como Vinícius Cantuária e Flávio Venturini.

Como acredita que será o mundo pós-pandemia? Não tenho a menor ideia, estou tão ansioso e curioso quanto todo mundo (risos). Há muitas teses e especulações no ar, mas eu acredito que logo a vida volta ao velho ritmo, especialmente no que tem de pior – correria, descuido com o outro, indiferença às dores alheias, corrida por dinheiro e lugar social etc. Não acho que isso vá mudar tanto, como alguns alardeiam. O que eu acho é que algumas pessoas que foram fortemente impactadas pela pandemia e pela quarentena poderão despertar pra uma nova consciência, isso sim. Mas o grande mundo seguirá seu rumo. Cá entre nós, infelizmente.

Fonte: O Tempo

 

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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