Fui jovenzinho nos anos 1980. Digo assim, jovenzinho, porque havia naquele tempo uma juventude que parecia acontecer mais devagar. Ou talvez fosse apenas o mundo que ainda não tivesse aprendido a correr tanto. A gente esperava. E esperar era uma forma de amar.
Eu esperava dezembro como quem espera uma revelação. Era geralmente no fim do ano que chegavam os discos novos dos meus ídolos mais amados. Passava meses imaginando capas, nomes de músicas, arranjos, fotografias internas, encartes, letras impressas. O disco ainda não existia nas minhas mãos, mas já existia dentro de mim. Eu o escutava antes de escutar. Inventava o som antes do som. A expectativa era uma espécie de prelúdio.
Talvez quem nasceu no mundo digital não compreenda inteiramente essa liturgia. O disco chegava como chegavam certas cartas: trazendo notícia de um lugar que nos faltava. Era preciso ir até ele, procurá-lo, comprá-lo, segurá-lo, abrir o plástico com cuidado, colocar a agulha no vinil ou a fita no toca-fitas, ou, mais tarde, o CD no aparelho. Nada se oferecia de imediato. O desejo tinha etapas. O prazer tinha demora.
E havia o rádio.
O rádio foi, durante muito tempo, uma espécie de respiração paralela da casa. Na minha infância, em Ribeirão Claro, no Paraná, seus sons atravessavam os cômodos como um parente invisível. Durante o dia, ouvíamos a Rádio Difusora e a Rádio Educadora, ambas de Jacarezinho, cidade vizinha. Às vezes, chegava também a Rádio Clube de Ourinhos, como se outra cidade se aproximasse pela fresta sonora do aparelho. À noite, o mundo se alargava. O dial buscava vozes mais distantes: Rádio Excelsior, Rádio Nacional e Rádio Globo, do Rio de Janeiro; ou a Rádio Atalaia, de Curitiba. O rádio fazia isso: transformava a geografia em intimidade. Um quarto pequeno podia receber o Brasil inteiro.
A voz vinha de longe e, mesmo assim, parecia falar conosco. Talvez por isso o rádio tenha sido uma das primeiras formas de teatro que conheci. Vozes sem corpo, personagens sem rosto, paisagens construídas apenas pelo ouvido. Cada locutor era um ator. Cada vinheta, uma entrada em cena. Cada música, uma mudança de luz.
Depois veio Curitiba.
Eu vivia em Curitiba quando vi surgir a Estação Primeira. E, para quem era jovem naquele momento, a Estação Primeira não foi apenas uma rádio. Foi uma senha. Um abrigo. Uma fresta aberta numa cidade que, muitas vezes, parecia querer se manter comportada demais. Ali estavam Betina Müller, Margot Brasil, Adri Neves, Erica Migon. Vozes lindas, inteligentes, próximas, como se falassem de dentro de uma noite compartilhada.
A Estação Primeira não tocava apenas músicas. Ela organizava uma comunidade invisível. Roqueiros, alternativos, artistas, estudantes, notívagos, criaturas deslocadas, gente que não se reconhecia nas rádios convencionais, todos encontravam ali uma espécie de território. Não era um endereço, mas era um lugar. Não tinha paredes, mas tinha pertencimento. A gente ligava o rádio e, de repente, deixava de estar sozinho.
Penso nisso porque, dias atrás, conversando com alguns estudantes da SP Escola Superior de Teatro, ouvi algo que me espantou. Eles me disseram que nunca, em suas vidas, tinham ligado um rádio.
Nunca.
Fiquei olhando para eles como quem recebe a notícia de que uma espécie inteira desapareceu. Como assim nunca ligaram um rádio? Eles me explicaram com naturalidade. Ouvem música no YouTube, no Spotify, na Apple Music, nas plataformas digitais. Escolhem o que querem ouvir. Montam suas playlists. Pulam faixas. Voltam. Repetem. O mundo está inteiro disponível, disseram sem dizer.
E está mesmo.
Mas talvez o que me tenha assustado não tenha sido a tecnologia. Não sou contra o presente. Nunca fui. O que me atravessou foi perceber que desapareceu, para muita gente, a experiência de não escolher tudo. A experiência de se deixar surpreender. De esperar que alguém, do outro lado, nos ofereça uma música que não sabíamos desejar. O rádio tinha essa delicadeza. Ele nos educava para o acaso.
No rádio, a gente não era soberano. A gente era ouvinte. E ser ouvinte é uma posição ética. Exige entrega. Exige disponibilidade. Exige aceitar que o mundo também pode nos conduzir.
Cheguei a São Paulo em 1989. Lembro como se fosse hoje. Fui morar em Higienópolis, num apartamento que o Rodolfo dividia com um amigo. São Paulo era imensa, dura, sedutora, cheia de camadas. Eu vinha de outras cidades, de outros ritmos, de outros ruídos. Precisava aprender aquela metrópole. Precisava descobrir seus códigos, seus atalhos, suas noites, suas promessas.
Foi ali que encontrei a Rádio Eldorado. Amor à primeira escuta.
A Eldorado parecia traduzir São Paulo antes que eu conseguisse compreendê-la. Havia nela uma elegância inquieta, uma inteligência urbana, uma curiosidade permanente pelo mundo. A rádio trazia música, informação, cultura, jornalismo, pensamento. Trazia o que havia de mais moderno naquele momento, mas sem perder uma certa delicadeza de companhia. Desde então, para mim, São Paulo e Eldorado passaram a ser quase a mesma coisa.
Durante todos esses anos, meu dial ficou ali. Sem segunda opção. Era automático. Entrava no carro, ligava o rádio: Eldorado. Chegava em casa, procurava uma companhia: Eldorado. Queria saber do mundo: Eldorado. Queria música: Eldorado. Queria apenas uma voz humana atravessando o silêncio: Eldorado.
Aprendi muito ali. Muito mesmo. Aprendi ouvindo entrevistas, comentários, notícias, canções, programas, silêncios entre uma fala e outra. Aprendi que uma rádio pode formar uma pessoa. Pode ampliar seu repertório. Pode ensinar uma cidade a se escutar. Pode criar, ao longo dos anos, uma espécie de amizade sem encontro físico.
Porque é isso que talvez os mais jovens não saibam. Certas vozes do rádio se tornam nossas amigas. Não amigas no sentido banal da palavra. Amigas de travessia. Estão conosco no trânsito, nas madrugadas, nas manhãs difíceis, nos dias comuns, nos acontecimentos históricos, nas pequenas alegrias domésticas. Não sabemos exatamente quem são, mas sabemos que estão ali. E isso basta.
Esta semana, as transmissões da Rádio Eldorado foram encerradas. E doeu.
Doeu o coração, primeiro. Depois percebi que doía o corpo todo. Como se uma parte da cidade tivesse sido desligada dentro de mim. Como se alguém tivesse entrado silenciosamente na minha casa e retirado um móvel antigo, aquele que já nem olhamos todos os dias, mas que sustenta uma parte da memória da família.
Não se trata apenas de uma rádio que acaba. É uma frequência afetiva que se interrompe. Um modo de estar no mundo que perde mais um de seus aparelhos. Uma educação sentimental que se despede sem alarde.
Meu mundo analógico não era melhor em tudo. Seria ingênuo dizer isso. Tinha suas limitações, suas exclusões, suas lentidões, suas dificuldades. Mas havia nele uma relação mais corporal com o tempo. A gente tocava os objetos. Esperava as músicas. Procurava as estações. Girava o botão do rádio até encontrar uma voz. O chiado fazia parte da busca. A imperfeição também era linguagem.
Hoje tudo parece mais limpo, mais rápido, mais disponível. Mas, às vezes, sinto falta do ruído. Da espera. Do imprevisto. Da canção que chegava sem ser chamada. Da voz que dizia boa noite a uma cidade inteira, e a gente acreditava que aquela boa noite era também para nós.
Talvez eu esteja apenas ficando antigo. Mas não me incomodo. Algumas antiguidades guardam o futuro de uma maneira misteriosa. Um rádio, por exemplo, nunca foi apenas um aparelho. Foi uma máquina de presença. Uma pequena caixa capaz de provar que ninguém estava completamente só.
Penso nos meus estudantes que nunca ligaram um rádio. Penso em mim, menino em Ribeirão Claro, jovem em Curitiba, recém-chegado em São Paulo. Penso nas vozes que me acompanharam sem saber. Penso em Betina, Margot, Adri, na Erica. Penso na Estação Primeira. Penso na Eldorado. Penso no 107,3 FM, a frequência da Eldorado, como quem pensa num endereço perdido.
E talvez seja isso. Certas rádios não saem do ar. Apenas deixam de transmitir para fora. Continuam tocando dentro da gente, em alguma frequência íntima, clandestina, impossível de ser capturada por qualquer aplicativo.
Basta um silêncio mais atento e elas voltam. Com seus chiados, suas vinhetas, suas músicas inesperadas. Com aquela velha e comovente promessa de que, em algum ponto da noite, alguém ainda fala conosco.

Que lindo! Fiquei emocionada! Sinto assim também, o rádio traz o inesperado, nos captura, nos surpreende e nos apresenta algo novo. Achei bonita a definição de que é “uma frequência afetiva que se interrompe”. Obrigada por traduzir em palavras os sentimentos da comunidade dos “melhores ouvintes”.