Entre São Paulo e Helsinki

A Finlândia me acolhe já faz muitos anos. Nunca de maneira espetaculosa, mas silenciosa. Aos poucos, o país foi se transformando, para mim, numa espécie de segunda casa afetiva.

Viajei muitas vezes ao país e trabalhei com artistas, pesquisadoras e educadores finlandeses. Aprendi um mundo de coisas com eles. Descobri, por exemplo, uma relação muito particular deles com o tempo, com o silêncio e com a ideia de coletividade. Existe algo na experiência finlandesa que me toca profundamente. Uma tentativa constante de equilibrar sofisticação intelectual e cuidado social. Talvez por isso nossas conversas tenham encontrado tantos pontos de encontro.

Hoje mesmo, enquanto escrevo em São Paulo, acompanho com inquietação as notícias vindas da Finlândia. Um alerta de segurança mobilizou milhões de pessoas após a suspeita de drones possivelmente armados sobrevoando a região de Helsinki. Aeroportos interrompidos, população orientada a permanecer em locais fechados, caças militares cruzando o céu. A cena parece saída de um filme distópico contemporâneo. Desses em que a ameaça nunca se materializa completamente, mas já altera a respiração coletiva.

E é impossível não pensar no mundo que estamos construindo.

Talvez por isso faça ainda mais sentido o trabalho que venho desenvolvendo com pesquisadores e instituições finlandesas. Neste momento, por exemplo, escrevo um capítulo de livro ao lado da pesquisadora Sanna Ryynänen, discutindo pedagogia e educação em artes. Temos refletido justamente sobre pertencimento, escuta, presença compartilhada e sobre o papel da arte na reconstrução dos vínculos humanos em tempos de fragmentação social.

Porque a arte talvez exista exatamente para isso. Para impedir que o medo seja a única linguagem possível do nosso tempo.

O curioso é perceber que, enquanto governos fortalecem fronteiras e sistemas de defesa, artistas, educadores e pesquisadores continuam tentando construir outras formas de circulação. De afetos, de pensamento, de imaginação. E talvez essa seja uma das tarefas mais urgentes da cultura contemporânea: criar espaços onde ainda seja possível confiar no outro.

A Finlândia me ensinou muito sobre isso.

Sobre o valor do silêncio. Sobre o direito à delicadeza. Sobre comunidades que se organizam sem precisar gritar. Sobre educação como experiência de dignidade.

E talvez notícias como esta doam justamente porque certos lugares deixam de ser apenas territórios. Tornam-se memória, afeto, presença. Quando um país que aprendemos a amar entra em estado de alerta, alguma coisa dentro da gente também perde a tranquilidade.

Sigo daqui, do Brasil, olhando para a Finlândia com atenção, amizade e esperança. Mas, sobretudo, com amor.

+++ na foto, com Sanna Ryynänen

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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