SP Escola de Teatro passa a oferecer ensino superior público e gratuito; instituição já formou artistas como Breno da Matta, Vítor diCastro e Dione Carlos
Por Fabio Codeço e Mirela Costa
Imagina o orgulho de um mestre ao ler, na ficha técnica de grandes espetáculos teatrais ou nos créditos de uma importante produção na TV, por exemplo, o nome de um aluno que ajudou a formar. Não é exagero dizer: esse é um prazer recorrente na vida de Ivam Cabral, diretor da Cia. de Teatro Os Satyros e um dos criadores da SP Escola de Teatro.
Em atividade há dezesseis anos, a instituição, que começou oferecendo cursos livres, capacitou toda uma geração de profissionais — de técnicos de palco a atores, de roteiristas a iluminadores — que vêm contribuindo com seu talento para a arte e a cultura, não só em São Paulo, mas no mundo. “Quando a gente começou, muitas dessas atividades não eram consideradas uma profissão. Trabalhamos junto ao Ministério da Educação para construir um currículo. Ajudamos a organizar um campo de trabalho”, declara Ivam.
Depois de se transformar em curso técnico, em 2018, a instituição, pertencente à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e gerida pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (ADAAP), acaba de anunciar mais uma importante etapa em sua trajetória: passa a ser uma faculdade pública e gratuita de artes cênicas. Credenciada pelo MEC como instituição de ensino superior em fevereiro de 2026, e rebatizada de SP Escola Superior de Teatro — Faculdade das Artes do Palco, ela está com inscrições abertas para a primeira turma do curso de tecnologia em produção cênica até sexta-feira (15), pelo site da Fundatec.
O processo seletivo prevê o preenchimento de 109 vagas — com ofertas afirmativas para pessoas negras, indígenas e com deficiência. A graduação tem início em agosto, duração de dois anos e aulas presenciais de segunda a sexta- feira, nas duas unidades, na Praça Roosevelt e no Brás. Há disponibilidade tanto no período matutino, com aulas das 9h às 13h, quanto no vespertino, das 14h30 às 18h.
A mudança consolida uma trajetória reconhecida por catorze prêmios nacionais e estrangeiros e promete fortalecer ainda mais um campo econômico estratégico: a economia criativa responde por 5,2% do PIB estadual, segundo o Boletim de Empregos na Economia Criativa, e São Paulo concentra 20,6% dos trabalhadores da cultura no Brasil. “Apareceram os streamings, a indústria cultural cresceu muito. Hoje, 88% dos nossos estudantes saem empregados, com salários iniciais médios de 3 200 reais”, afirma Ivam, citando postos de trabalho em equipamentos como o Theatro Municipal de São Paulo, a rede Sesc, grupos de todo o país e do exterior e empresas como Globo, Netflix, Amazon e HBO.
Apesar da remodelação institucional, os novos cursos mantêm o modelo pedagógico anterior, que inspirou universidades internacionais na Alemanha, Finlândia, Suécia e Suíça. São oito linhas de estudo: atuação, cenografia e figurino, direção, dramaturgia, humor, iluminação, sonoplastia e técnicas de palco. O aluno escolhe uma delas e, logo que começa, é colocado em um grupo de trabalho em que vai criar com alunos de todas as outras.
Gerações de profissionais
“A escola me ensinou para além da técnica. Pude aprender com a pluralidade de histórias que encontrei e me enxergar como artista”, afirma o ator Breno da Matta, que integrou a primeira turma da escola, em 2010. Com passagens pela companhia de teatro argentina Fuerza Bruta e por produções televisivas como Renascer (2024), Justiça 2 (2024), Vale Tudo (2025), Tremembé (2025) e Um Século do O GLOBO (2025), Breno valoriza o aprendizado que recebeu. “Uma lição que levo para a vida é que o grande objetivo da minha arte é alcançar o público”, destaca.
Sua colega de turma Dione Carlos faz coro. “Era um curso dinâmico, desafiador e pioneiro. Havia muita teoria e muita prática. Estreei como dramaturga antes de me formar e nunca mais parei”, relata ela, integrante da equipe de roteiristas de A Nobreza do Amor, atual novela da faixa das 6 da TV Globo, e de Guerreiros do Sol — indicada a Melhor Roteiro de Telenovela pelo Prêmio APCA 2026 —, cuja segunda temporada está em cartaz no Globoplay.
Para Dione, a capacidade de escuta e a flexibilidade criativa desenvolvidas no curso são habilidades fundamentais em seu atual processo de criação audiovisual. Outro ilustre ex-aluno, o ator, apresentador e influenciador digital Vítor di Castro — que conquistou o público da internet com vídeos de humor e astrologia em seu canal no YouTube Deboche Astral — dividiu sala de aula com Breno e Dione e relembra: já no primeiro dia, conheceu Zé Celso (1937-2023), renomado diretor brasileiro e fundador do Teatro Oficina.
“Ele fez todos os alunos deitarem no chão em uma dinâmica bem ritualística; foi uma verdadeira aula. Eu amava ter contato com diversas personalidades das artes cênicas. A escola tem um lugar muito especial no meu coração e na minha memória”, ressalta Vítor, que está em cartaz com a segunda temporada de seu solo Intenso — Meu Retorno de Saturno, até 28 de maio, no Teatro Itália.
Assim como Zé Celso, já passaram pela SP Escola de Teatro nomes como Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Marisa Orth, Fábio Porchat e Enrique Díaz, que tiraram um tempo para contar suas histórias e trocar com os alunos. A instituição, que possui uma biblioteca especializada com 10 500 livros e abriga o Acervo Antônio Abujamra (1932-2015), reunião de 10 000 objetos colecionados e catalogados pelo grande diretor e dramaturgo, também elabora projetos sociais e, através do Programa Oportunidades, distribuiu 7,3 milhões de reais em bolsas-auxílio.
De olho no futuro, há planos para, em dois anos, iniciar cursos de pósgraduação, mestrado e doutorado. Já no primeiro semestre de 2027, um intercâmbio em parceria com instituições na Finlândia, Noruega, Alemanha e África do Sul, financiado pela Comunidade Europeia, permitirá que estudantes passem dois meses em cada país.
“Meu Ivam é com ‘m’ no fim porque meu pai era um pedreiro analfabeto, não sabia escrever. Não tenho dúvida de que a educação é o grande caminho para modificar, verdadeiramente, nossa praça, nossa cidade, nosso país. Tenho isso como exemplo cabal de que a educação pode mudar a vida de quem se aproxima dela”, afirma o diretor.
Publicado em VEJA São Paulo de 8 de maio de 2026, edição nº 2994.
Fonte: VejaSP
