Talvez uma das maiores ilusões do nosso tempo seja acreditar que pensar acontece apenas diante de telas.
Eu continuo escrevendo à mão. Escrevo muito à mão.
Na clínica, enquanto escuto, anoto. Sei que isso já não está exatamente na moda. Há quem prefira confiar apenas na memória, há quem tema que a escrita interrompa a presença. Eu entendo. Mas nunca vivi meus cadernos como uma distração. Ao contrário. Eles fazem parte da minha forma de escutar.
Ao longo dos anos, acumulei dezenas deles. Talvez centenas. Cadernos grandes, pequenos, elegantes, improvisados. Alguns estão cheios de observações. Outros guardam apenas poucas páginas. Muitos eu jamais voltarei a abrir.
E, ainda assim, eles são importantes.
Porque não servem apenas para registrar o que foi dito. Servem para que eu pense. Para que eu acompanhe o nascimento de uma ideia antes que ela encontre palavras definitivas. Servem para que eu dialogue comigo mesmo enquanto tento compreender alguém.
Há algo de profundamente humano na escrita manual. A mão hesita. A letra vacila. A tinta denuncia o cansaço, a pressa, a alegria, a dúvida. Diferentemente das teclas, que uniformizam tudo, a caligrafia preserva nossas pequenas imperfeições. E talvez seja justamente nelas que a singularidade apareça.
Por isso, recentemente, resolvi realizar um antigo desejo. Comecei um curso de caligrafia.
À primeira vista parece apenas um aprendizado técnico. Mas não é. Tenho a impressão de que estou conhecendo uma pessoa que me acompanha há mais de seis décadas e que, curiosamente, eu nunca tinha observado com atenção: minha própria letra.
Descubro seus vícios, suas manias, seus caminhos preferidos. Descubro que uma mesma palavra pode nascer de formas diferentes. Descubro que escrever também é desenhar.
E isso tem me feito feliz!
Numa época em que tudo corre para ser mais rápido, mais eficiente e mais automático, parar diante de uma folha em branco para observar o movimento de uma letra parece um pequeno ato de resistência.
Ou talvez de ternura.
Porque, no fundo, cada caligrafia é um autorretrato que a mão faz da alma sem pedir autorização ao pensamento.
