Eu a vi nascer. E a vi renascer mais de uma vez.
Conheci Márcia Dailyn no começo dos anos 2000, quando nós também estávamos, de certo modo, reaprendendo a florescer na Praça Roosevelt. Ela chegou pelas mãos de Phedra D. Córdoba. Era uma menina linda, tímida, desengonçada, quase frágil. Dessas pessoas que parecem delicadas, até que o mundo descubra a força que carregam.
E, claro, o mundo descobriu.
Ao longo dos anos, nossas vidas foram se entrelaçando. Desde 2016 dividimos os dias, as urgências e os sonhos. Dez anos, já! Trabalhamos juntos na SP Escola Superior de Teatro e nos Satyros. São muitas horas, muitos projetos, muitas conversas atravessadas pela arte e pela crença de que ela ainda pode transformar destinos.
Márcia escolheu fazer dessa transformação um compromisso.
Na SP Escola, conduz o TransVisão, um projeto que não fala apenas sobre políticas de visibilidade trans, mas sobre a possibilidade de existir com dignidade. Num país que tantas vezes tenta apagar certas vidas, ela ajuda a iluminá-las.
No palco, porém, acontece um outro milagre.
Aquela menina franzina que conheci ao lado de Phedra tornou-se uma atriz imensa. Dessas que não ocupam a cena com presença, simplesmente. Porque existem artistas que interpretam personagens. Márcia parece emprestar humanidade a eles.
No ano passado foi eleita rainha da Parada LGBT+. Um reconhecimento bonito para quem há tanto tempo faz da própria trajetória uma forma de militância. Neste ano, porém, ela nos ofereceu uma pequena lição que talvez pouca gente tenha percebido.
No mesmo dia em que ocupava esse lugar simbólico de rainha, estava em cartaz com Quase Todos. Poderia ter nos pedido para alterar horários, cancelar a sessão ou encontrar qualquer solução confortável. Ninguém ousaria negar um pedido desses.
Mas ela não quis. Fez questão de habitar o palco do Espaço dos Satyros mais uma vez. Quanta nobreza e quanta dignidade!
Seu dia foi corrido. Chegou à Avenida Paulista às onze da manhã. Desfilou, abraçou pessoas, sorriu, representou milhares de histórias. Percorreu a Avenida Paulista sobre um carro alegórico. Depois, no fim da tarde, atravessou a cidade correndo para subir ao palco dos Satyros. Fez a peça. Terminada a apresentação, voou novamente para a Parada, encerrando sua participação na Praça da República.
Quando a noite acabou, fiquei pensando que talvez exista algo muito profundo nesse gesto.
Muita gente acredita que a militância e a arte caminham por estradas diferentes. Márcia parece saber que não. Que o palco também é uma forma de manifestação. Que representar uma personagem pode ser tão político quanto ocupar uma avenida inteira.
Neste domingo ela não abandonou o teatro para defender uma causa. Abraçou os dois com a mesma intensidade.
E talvez seja justamente isso que Phedra, lá atrás, tenha enxergado naquela menina tímida que apareceu na Roosevelt: algumas pessoas não escolhem entre viver e lutar. Fazem das duas coisas uma só.
