Um contraste entre o que faltou e o que esteve presente. De um lado, uma plateia pequena. Do outro, um amor de sete anos.
Eu explico.
Ontem, em “Quase Todos”, resolvemos fazer uma promoção para o Dia dos Namorados. Dois ingressos pelo preço de um. A ideia parecia simples: celebrar o amor e, quem sabe, trazer mais gente para o teatro.
Funcionou. E não funcionou.
Funcionou porque a plateia era formada, em sua maioria, por casais. Gente de mãos dadas, dividindo espaços, comentários ao pé do ouvido e aqueles pequenos silêncios que só existem entre pessoas que aprenderam a habitar a companhia uma da outra.
Não funcionou porque o público foi pequeno. Os efeitos da Copa do Mundo já começam a ser sentidos por aqui. Hoje, por exemplo, nem teremos sessão. O Brasil estreia justamente no horário em que estaríamos em cena. E quando a seleção entra em campo, o país inteiro parece mudar de assunto ao mesmo tempo.
Mas não é sobre futebol que quero falar.
Na plateia estava um casal muito especial para mim: Denise e Márcio. Curiosamente, nunca nos encontramos de verdade. Nunca sentamos para tomar um café. Nunca dividimos uma mesa. Ainda assim, sinto por eles um afeto raro. Os dois se conheceram no hall dos Satyros, em 2019, quando foram assistir ao meu solo, “Todos os Sonhos do Mundo”. E talvez seja justamente isso que mais me emocione.
Eles não se conheceram durante a peça. Não se encontraram sob os refletores. Não trocaram olhares no palco. Eles se conheceram no hall. Naquele território de passagem onde as pessoas acreditam que nada importante está acontecendo. Entre uma chegada e outra, entre o barulho da cidade e o apagar das luzes da sala, alguma coisa aconteceu.
Eles se encontraram. E ficaram.
Desde então, acompanho a história deles à distância, pelas redes sociais, por mensagens esparsas, pelas notícias que chegam aqui e ali. Sou uma espécie de padrinho afetivo dessa relação. Pelo menos gosto de pensar que sim.
Ontem, tantos anos depois daquele encontro casual, eles escolheram passar mais um Dia dos Namorados na nossa plateia.
Fiquei olhando para eles e pensando em quantas coisas nascem sem que a gente perceba.
Quando um espetáculo começa, imaginamos que ele produzirá aplausos, reflexões, talvez algumas lágrimas. Mas raramente pensamos que ele possa produzir uma história de amor. Que uma peça possa, discretamente, alterar o rumo de duas vidas.
Talvez porque insistamos em acreditar que a arte serve apenas para representar a vida. Às vezes ela faz mais do que isso. Às vezes ela participa dela.
O teatro costuma ser associado ao efêmero. A luz apaga, o cenário é desmontado, os figurinos voltam para os cabides. Tudo parece destinado a desaparecer.
Mas não é bem assim.
Às vezes, o que permanece não está no palco. Permanece no encontro. Permanece na conversa iniciada no hall. Permanece no número de telefone trocado sem grandes expectativas. Permanece no amor que encontra morada.
Ontem a plateia não estava cheia. Os números talvez não tenham sido os que gostaríamos. Mas havia ali duas pessoas celebrando uma história que começou dentro da nossa casa. E, de repente, isso me pareceu maior do que qualquer lotação esgotada.
Porque bilheterias contam espectadores. Mas existem acontecimentos que só podem ser medidos em destino. E existem noites em que o teatro não apenas conta histórias. Existem noites em que ele ajuda a criá-las.
