Nenhum setor cresce sozinho

Durante muito tempo, cresci ouvindo uma ideia curiosa: a de que determinados setores da economia só prosperam por mérito próprio, enquanto outros dependeriam de incentivos do Estado. A realidade, no entanto, costuma ser mais complexa do que os discursos simplificados.

A agricultura, por exemplo, conta com linhas de crédito subsidiadas, programas de seguro rural e mecanismos de proteção contra perdas causadas por secas, enchentes ou oscilações do mercado. Não se trata de privilégio. Trata-se de compreender que produzir alimentos envolve riscos que afetam toda a sociedade.

A indústria automobilística também conhece bem essa lógica. Ao longo dos anos, diferentes governos criaram programas de incentivo fiscal, financiamentos especiais e políticas de desenvolvimento para fortalecer a produção nacional, preservar empregos e estimular a inovação tecnológica. O mesmo vale para a construção civil, frequentemente beneficiada por programas de habitação, crédito facilitado e investimentos públicos que movimentam cadeias inteiras de fornecedores e trabalhadores.

A lista poderia continuar. Tecnologia, exportações, energia, turismo, pesquisa científica. Em maior ou menor grau, praticamente todos os setores considerados estratégicos recebem algum tipo de apoio, proteção ou estímulo. E isso acontece por uma razão simples: o desenvolvimento não é fruto apenas da iniciativa individual. Ele nasce também da capacidade de uma sociedade investir em áreas que considera importantes para seu futuro.

Quando essas políticas são bem desenhadas, seus benefícios ultrapassam os setores diretamente atendidos. Geram empregos, movimentam a economia, produzem conhecimento, ampliam oportunidades e melhoram a qualidade de vida das pessoas.

A cultura também faz parte dessa lógica de desenvolvimento. As leis de fomento cultural não existem apenas para financiar artistas ou espetáculos. Elas movimentam uma ampla cadeia produtiva que envolve técnicos, produtores, costureiras, marceneiros, eletricistas, designers, profissionais da comunicação, trabalhadores da alimentação, da hotelaria, do turismo e muitos outros segmentos.

Segundo levantamentos econômicos recentes, as atividades culturais e criativas respondem por cerca de 3,11% do Produto Interno Bruto brasileiro. Em São Paulo, os números são ainda mais expressivos: a cultura representa 5,2% do PIB estadual, enquanto a economia criativa concentra 6,5% dos empregos do estado. Os dados foram divulgados em janeiro de 2026 pelo Governo do Estado de São Paulo, em parceria com a Fundação Seade.

Assim como ocorre em setores estratégicos como a agricultura, a indústria e a construção civil, o investimento público em cultura gera emprego, renda, arrecadação e desenvolvimento econômico. A diferença é que, além disso, produz algo que nenhum outro setor é capaz de oferecer: a preservação das histórias, memórias e identidades que ajudam uma sociedade a compreender quem é.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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