“Enclausurado” é uma releitura inteligente de Hamlet

“Enclausurado”, de Ian McEwan, tem um narrador inusitado: um feto que irá testemunhar um plano de assassinato. Um imbróglio, na verdade, porque o esquema será arquitetado por sua mãe e o amante dela, contra seu próprio pai, irmão do amante. Ao afrontar seu destino, nosso narrador terá que se mostrar sábio.

Vocês já devem conhecer essa história: um jovem que quer vingar a morte de seu pai, executado pelo seu próprio tio, amante de sua mãe. Sim, é de “Hamlet”, de Shakespeare, o ponto de partida de Ian McEwan. O livro começa, inclusive, com uma epígrafe tirada do Ato II, cena 2, de Hamlet (“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito – não fosse pelos meus sonhos ruins.”).

Trudy, a mãe, é uma versão de Gertrude, esposa do falecido Rei, casada com Claudius, irmão do seu falecido marido (nesta versão, Claude, o amante de Trudy). E o feto é um Hamlet que nada pode fazer, uma vez que ainda é um feto.

Porém, testemunhando os planos maquiavélicos, o feto irá se deparar com questões fundamentais de sua existência, mesmo antes de nascer. E, claro, se sentirá impotente na tentativa de não conseguir mudar o rumo das coisas.

Mas o feto, nosso narrador, é dotado de uma inteligência incomum. Ao longo da obra, irá discorrer sobre Hobbes e Darwin e refletir sobre o Oriente Médio, política, ciência, arte e temas do mundo contemporâneo.

Ian McEwan é do Reino Unido e um dos maiores ficcionistas da atualidade. E autor dos incríveis – e essenciais – “Reparação” (2001) e “Amsterdam” (1998).


Enclausurado, de Ian McEwan

Tradução: Jorio Dauster
Companhia das Letras

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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