Silvina Ocampo, grande voz da literatura fantástica da América Latina

Foi em Buenos Aires, um tempo atrás, que eu encontrei, em uma visita à livraria El Ateneo, duas preciosidades: “Mundo de Siete Pozos”, da poeta Alfonsina Storni (1892 – 1938), livro de poesias lançado originalmente em 1934; e “La Furia”,uma antologia de contos de Silvina Ocampo (1903 – 1993).

Completamente apaixonado pelas descobertas portenhas, do livro “Mundo de siete Pozos”, de Alfonsina, traduzi o poema “Adeus”, que acabou integrando uma coleção de poemas incluída no livro “Todos os Sonhos do Mundo” (Editora Giostri), que escrevi juntamente com Rodolfo García:

As coisas que morrem jamais ressuscitam,
as coisas que morrem não voltam jamais.
Quebram-se os vasos e o vidro que resta
é pó para sempre e para sempre será!

Quando os botões caem dos ramos
duas vezes seguidas não florescerão…
As flores decepadas pelo vento ímpio
se esvaem para sempre, jamais voltarão!

Os dias que foram, os dias perdidos,
os dias inertes já não voltarão!
Que tristes as horas que se decifraram
sob a vibração da solidão!

Que tristes as sombras, as sombras nefastas,
as sombras criadas por nossa maldade!
Oh, as coisas idas, as coisas murchas,
as coisas celestiais que estão nos deixando!

Coração… silencia!… Cobre-te de chagas!…
– de chagas infectas – Cobre-te de mal!…
Que tudo o que chegue morra ao tocar-te,
coração maldito que inquietas meu cansaço!

Adeus para sempre minhas doçuras todas!
Adeus minha alegria plena de bondade!
Oh, as coisas mortas, as coisas murchas,
as coisas celestiais que estão nos deixando!…

Feminista e mulher além de seu tempo, Alfonsina Storni é das grandes vozes da literatura argentina do século XX. Além de escritora, foi atriz, professora e jornalista; e, aos 19 anos, em 1911, foi mãe solo – fato completamente condenável nesta época.

Minha grande descoberta, no entanto, foi o “La furia”, de Silvina Ocampo, que eu não conhecia e que, agora, foi lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Embora Alfonsina Storni também não seja muito conhecida no Brasil, eu já havia lido outros livros seus e sabia alguma coisa de sua biografia. Inclusive nos anos 1980 a cantora Simone gravou “Alfonsina e o Mar”, versão da canção homônima, imortalizada por Mercedes Sosa nos anos 1970.

“A Fúria”, antologia de contos de Silvina Ocampo, é um livro espetacular e uma belíssima maneira para descobrir essa autora incrível, que foi casada com Adolfo Bioy Casares e amiga pessoal de Jorge Luis Borges, com quem teve sua obra comparada e associada – os dois são uma espécie de fundadores da literatura fantástica da América Latina.

São 34 contos curtos e seus narradores são, na maioria, crianças ou idosos que transitam pelos casarões de Buenos Aires do início do século XX. Embora sem nenhuma conexão entre um conto ou outro, é possível identificar cenários e narradores comuns.

Um dos meus contos preferidos é “As Fotografias”, que relata a história de uma jovem paralítica que vai comemorar seu primeiro aniversário fora do hospital. O narrador, no caso, é uma das crianças convidadas da festa, que vai contando a história sempre no limiar entre trágico e o cômico.

Outro dos meus preferidos é o conto que dá nome à coletânea, que conta a história de uma criança que queima a amiga e, anos depois, já adulta, vai tentar uma reparação. Em “A Lebre Dourada”, o tom de fábula coloca em cena animais que falam e a luta da lebre que vai fugir dos cães que foram treinados para caçá-la.

São histórias muitas vezes macabras e sombrias que acabam ecoando além da leitura do livro, tamanha capacidade criativa da autora. Vale cada uma de suas páginas.

 

“A Fúria”
Silvina Ocampo
Tradução: Livia Deorsola
Companhia das Letras

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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