A vida da gente

Penúltimo dia de férias. A partir da semana que vem, uma avalanche de problemas me aguarda. E pensar que tudo o que eu mais queria nessa vida, de verdade, era esse meu mundinho aqui, no meio do mato. Tão pequeno, tão simples, tão singelo.

Com todos os problemas que um mundinho pequeno também tem. Por exemplo, nesses dias apareceu uma cobra na minha varanda. Um filhote, na verdade. De todos os bichos que povoam o nosso planeta a cobra é o que tenho mais medo. Medo, não. Pavor mesmo.

E lá estava eu, tentando salvar o pobre filhotinho, enquanto os pedreiros que trabalham na vizinhança insistiam para que eu o matasse. Mesmo com o maior medo do mundo, eu prossegui na minha boa ação para salvar o mocinho que sei bem, vai crescer e virar uma cobra enorme e venenosa. Sim, era um filhote de jararaca, me garantiram.

E tem os problemas com meus cachorros também, Cacilda e Chico. Cacilda é vira-latas, presente da SP Escola de Teatro de 10 anos atrás. Apareceu na sede Brás da instituição para dar a luz a seis filhotinhos. Desde então, estamos juntos. E toda vez que venho para cá, ela vem comigo.

Chico é labrador, foi abandonado aqui no condomínio sete anos atrás, todo doente e estropiado. Estamos juntos desde então, também. Mas Chico é tranquilo, não tenho muito o que me preocupar. O problema, problemão mesmo, é a Cacilda: ela é caçadora!

Parelheiros para ela é uma diversão. Já caçou coelho, passarinhos (muitos), lagarto, esquilo, rato, quati, gambá e até ouriço-cacheiro, uma espécie de porco-espinho. Dessa vez foi triste. O animal abatido ficou nervoso e soltou espinhos pela cara da Cacilda toda. Até no céu da boca. A pobrezinha sofreu horrores.

Mas a pior aventura da Cacilda foi quando foi picada por uma cobra. Nossa, essa história foi triste, ela quase morreu. Ficou internada em um hospital veterinário top de linha e me quebrou financeiramente. Mas ok, não reclamo, não. Não fosse a eficiência do hospital top ela não tinha sobrevivido e o importante mesmo era a sua saúde e isso não tem preço.

Acontece que apareceu por aqui o Sorriso, um cãozinho de uma professora que vive no condomínio. Uma graça ele. Grudou na gente e come por aqui e até dorme com a gente também. Deve ter no máximo um ano, um ano e meio. Muito esperto, é a encrenca em cachorro. Late pros carros, corre atrás das pessoas, um inferno. E a Cacilda, que já tinha vencido esta etapa, voltou a fazer tudo o que o Sorriso faz. Péssima companhia esse garoto.

Mas Cacilda se apaixonou pelo Sorriso. Vivem correndo atrás de bichos e meu coração não aguenta. Nunca sei que bicho eles escolheram para perturbar. E se for a mãe do filhotinho jararaca? Socorro, não. Ah, essas más companhias…

Então fico eu correndo atrás do Sorriso e da Cacilda, na tentativa de impedi-los que corram atrás dos pobres animaizinhos da mata aqui de casa. Pobres? Não sei, a mãe jararaca não é tão pobre assim, não.

Agora… Chico é um primor de cachorro. Não entra na floresta sozinho, nem sai correndo atrás de bicho que ele não conhece. Prefere ficar comigo e me proteger. Já faz um tempo. Um cara tentou me assaltar na praça Roosevelt e vocês não imaginam o que o Chico fez. Voou em cima do moço e quase o mordeu com fúria. Por pouco, muito pouco que não aconteceu uma tragédia ali. Não houve assalto e o rapaz deve estar correndo até hoje com medo do Chico, que é muito paz e amor e até aquele dia nunca tinha atacado ninguém nessa vida.

Mas eu comecei falando do mundinho aqui. Hoje, por exemplo. Sem exagero, eram centenas – centenas mesmo! – de patos que sobrevoavam a Guarapiranga, de manhãzinha. Coisa mais linda do mundo! Ah, tem isso também. Aqui eu vou dormir muito cedo. Onze da noite, no máximo. Porque acordo com as galinhas. Seis e meia, sete horas no máximo já estou na ativa. E hoje, deviam ser umas sete e meia quando este espetáculo dos patos encheu meus olhos e coração de alegria. Que lindo, meu Deus!

Então. Era nesse mundo que eu gostaria de habitar pra sempre. Sem essa correria maluca dos dias que voam e a gente nem percebe por que está vivendo. Indo no fluxo, como se a vida fosse um rap, improvisado sempre.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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