Montagem do grupo “Os Satyros” explora com criatividade e emoção as memórias familiares.
Por Felipe Ferreira
Sair de casa com a certeza de que iremos assistir um bom espetáculo debaixo do braço é uma merda não-recomendável. Simplesmente pelo fato de que se o resultado for contrário ao imaginado, a responsabilidade é toda de quem foi munido da plena convicção. Minha culpa, minha máxima culpa.
Saí de “Quase Todos” além de mexido, aliviado. O espetáculo, de fato, foi muito bom. O segundo do grupo “Os Satyros” que eu tive o privilégio de assistir. Meu primeiro encontro com eles foi há 3 anos no espetáculo “Aurora”. Outra montagem, outro palco e alguns atores dos quais eu já havia gostado do desempenho em cena e que reencontrei com o passar dele, o Sr. Tempo.
A companhia sediada na Praça Roosevelt, região central da capital paulista, possui 37 anos de notável atuação artística e uma assinatura cênica possível de perceber nesses dois momentos em que estive na plateia. A forma como eles brincam com as luzes durante o espetáculo impressiona pela precisão e pela criatividade. O desenho da luz cênica é crucial para a costura dramatúrgica da obra valorizando a atuação do elenco e a imersão emocional que o texto propõe desde o primeiro ato.
Outro ponto notável é o aproveitamento de todos os espaços do palco. Isso também pude observar no espetáculo anterior, cuja configuração era bem diferente do palco do SESC 24 de Maio. O dinamismo da montagem proporcionado por essa ocupação do espaço realça a qualidade da direção de Rodolfo Garcia Vázquez que também assina o texto da peça em parceria com Ivam Cabral. A imagem onírica de uma distopia (não tão distante assim) encontra ressonância numa sonoridade que se molda à atmosfera de cada ação. O som acompanha o leque de emoções das personagens do embargo de voz nos momentos mais dramáticos à uma projeção mais caricata nas cenas de maior descontração e comicidade.
Nada disso seria possível de materialização se a dramaturgia do espetáculo não tivesse um elenco de qualidade para dar profundidade a palavra e a ação. “Os Satyros” tem um grupo de atores coesos, bem lapidados e de forte presença no tablado. Nomes como Julia Bobrow (me encanta a maturidade com a qual ela constrói e preenche suas personagens), Marcia Dailyn (sua expressividade me comove sem ela precisar dizer uma palavra) e Eduardo Chagas já considero medalhões da companhia. Os demais atores que compõem o elenco (Gustavo Ferreira, Diego Rifer, André Lu, Tai Zatolinni, Gabi Flores e Thiago Ribeiro) entregam ótimas atuações. Detalhe: só fui me dar conta de que Ivam Cabral – um dos fundadores do grupo – também estava atuando quase no final do espetáculo. Se para os atores não serem reconhecidos em cena é das provas cabais da realização de um bom trabalho, assino embaixo afirmando sua ótima interpretação no papel do sonhador Lirio.
Ao se debruçar na mercantilização da memória numa sociedade onde ela pode ser comprada ou reconfigurada “Os Satyros” estabelecem um diálogo com os aparatos tecnológicos do presente como o avanço da IA (inteligência artificial) e evidenciam como é possível agregar esses instrumentos ao fazer artístico sem abrir mão da subjetividade autoral, da consistência qualitativa. Em tempos onde ainda se discute – antes via esse debate com maior frequência – se ter telão ou projeções audiovisuais no palco ainda configurava teatro, domar a tecnologia e explorar as possibilidades que ela oferece é um caminho que, quando bem trilhado, enriquece a artesania do ofício implodindo qualquer purismo que já não temos no mundo, no seio familiar e, muito menos, num território de liberdade e experimentação de linguagens como é o fazer teatral na sua mais bruta essência.
Não tive irmãos, mas fiz promessas com meus primos de jamais nos separarmos; jurei amizade eterna para alguns amigos do passado; já tive vontade de apagar algumas memórias e substituí-las por outras sem a menor cerimônia ou remorso; tem memórias que mesmo sendo ruins, agradeço por não conseguir esquecê-las porque, de alguma forma, isso me ajuda a não repeti-las; já outras, faço questão de preservar com terno carinho.
Tomado pelo todo que vi em cena acabei falando um pouquinho sobre mim reafirmando o título escolhido para esta crítica. “Quase Todos” é um pouco sobre mim e sobre você. Vão ver!
Fonte: Blog do Felipe Ferreira
