Por Ferdinando Martins
Há algo de profundamente pessoal, e ao mesmo tempo histórico, no gesto de assistir a um espetáculo d’Os Satyros. Desta vez, não na Praça Roosevelt, mas no Sesc 24 de Maio, o que desloca, sem apagar, essa geografia afetiva que a companhia ajudou a reinventar. Mesmo fora de seu território mais emblemático, há algo da Roosevelt que insiste em atravessar a experiência: como memória, como fantasma, como promessa de retorno. E isso atravessa Quase Todos do começo ao fim.
O texto de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, como o próprio programa da peça sugere, nasce de um regime de memória instável, quase poroso. Não há aqui uma narrativa que se impõe como verdade, mas uma constelação de lembranças que disputam espaço, se sobrepõem, se contradizem. A família, esse núcleo que a modernidade prometeu organizar, aparece como um dispositivo falho, um lugar onde os laços existem, mas já não garantem pertencimento.
E talvez seja aí que a peça encontra sua camada mais dolorosa: na solidão da sala de jantar. O programa fala disso com precisão, essa solidão que não vem da ausência, mas da permanência. Pessoas sentadas à mesa, compartilhando o mesmo espaço, mas já desalinhadas em suas experiências, afetos e linguagens. Há vínculo, mas ele não sustenta mais uma comunidade sensível. É uma imagem brutalmente contemporânea.
Nesse sentido, ecoa quase inevitavelmente Zygmunt Bauman, quando escreve em Amor Líquido sobre a necessidade paradoxal de “manter os laços frouxos o suficiente para poder desatá-los quando necessário, mas firmes o bastante para que não se desfaçam por completo”. Quase Todos encena exatamente essa tensão: ninguém consegue sair totalmente, mas tampouco consegue ficar inteiro. A família torna-se esse campo de forças instável, onde o afeto sobrevive mais como resto do que como estrutura.
O que impressiona é como a encenação não tenta resolver essa crise. Ao contrário, a sustenta com rigor estético. Há um cuidado plástico que não suaviza o conflito, mas o torna ainda mais visível. Os figurinos em tons pastéis são um achado: evocam uma delicadeza quase artificial, como se aquelas vidas estivessem permanentemente filtradas por uma nostalgia que já não corresponde ao real. O cenário em algodão branco, por sua vez, cria uma espécie de suspensão, um espaço que é ao mesmo tempo doméstico e fantasmático, como se estivéssemos dentro de uma memória que insiste em não se fixar.
A direção de Rodolfo García Vázquez opera com inteligência nesse território, não há excesso, não há didatismo. As cenas fragmentadas respiram, permitem que o espectador construa suas próprias conexões, ou enfrente a impossibilidade delas. E isso é raro.
Talvez o maior mérito de Quase Todos seja justamente não oferecer reconciliação. Ele reconhece que a modernidade falhou em organizar os laços familiares, ou, mais radicalmente, que talvez nunca tenha conseguido. O que resta são tentativas: gestos mínimos, pactos silenciosos, pequenos atos de cuidado que sobrevivem apesar de tudo.
Saí do espetáculo com a sensação de que o teatro, aqui, não serve para reunir, mas para expor as fissuras do que já não se sustenta. E, paradoxalmente, é nesse gesto que algo como um laço ainda se produz. Ainda que frouxo. Ainda que provisório.
Fonte: ,Deu Ateu
