O que fica quando tudo se apaga

A internet sempre foi uma espécie de território sem mapa. E foi justamente neste lugar que nós, da Cia. de Teatro Os Satyros, decidimos fincar uma pequena bandeira, quase invisível, quase improvável. Era 1994. Entre Portugal e Brasil, criamos um site quando a própria ideia de “ter um site” ainda soava como ficção. O domínio vinha de um endereço externo, no esotérica.pt. Havia, ali, algo de ritual naquele gesto inaugural, conduzido por Fauze El Kadre, que era ator e trabalhava com a gente. Não sabíamos exatamente o que estávamos fazendo. Mas sabíamos que precisávamos estar ali. Desde então, nunca mais saímos.

A internet nunca foi apenas uma ferramenta. Era extensão. Era palco. Era, de algum modo, corpo. Durante anos, falamos diretamente com quem quisesse nos ouvir, em intermediários, sem releases, sem pedir licença. Criamos uma forma própria de presença. Quando o Instagram ainda engatinhava, lá estávamos nós outra vez, em 2011, experimentando o que ainda nem tinha nome direito. Antes de ser estratégia, era intuição. Antes de ser algoritmo, era desejo.

Tanto que, em algum momento, alguém parou para olhar aquilo com mais cuidado. E virou pesquisa. A dissertação de mestrado de Vanessa Friço do Espírito Santo, intitulada “Corpo e performance no Instagram da Companhia de Teatro Os Satyros”, orientada por Wilton Garcia, da Universidade de Sorocaba, transformou nosso perfil em objeto de estudo. [ aqui: https://uniso.br/mestrado-doutorado/comunicacao-e-cultura/dissertacoes/2016/vanessa-frico.pdf ]Como se, de fato, aquele espaço virtual já fosse outra cena possível. É, e talvez fosse. Mas o tempo – esse mesmo que constrói – também apaga.

Entre 2019 e 2020, nossa conta foi sequestrada. Um gesto invisível, feito por um hacker, alguém que nunca veremos, apagou anos de trabalho. Recuperamos o acesso, sim. Mas era como entrar numa casa onde tudo foi retirado. As paredes ainda estavam ali, mas o que fazia daquele espaço um lugar já não existia mais. Sim, a memória digital, descobrimos, também é frágil.

Tentamos recomeçar. Sempre tentamos. Uma colaboradora dos Satyros assumiu o perfil com a melhor das intenções: reconstruir, rapidamente, uma rede. Seguir o mundo inteiro, como quem lança garrafas ao mar. Mas a pressa, às vezes, cria ruído. E de repente seguíamos e éramos seguidos por ninguém e por todos ao mesmo tempo. Um perfil inchado, estranho, irreconhecível. Um corpo sem história. Foi então que precisei fazer o movimento contrário. Desfazer.

Comecei a deixar de seguir milhares de pessoas. Uma a uma, como quem separa grãos de areia tentando reencontrar aquilo que, um dia, teve forma. Um trabalho silencioso, de meses, paciente, quase meditativo. Mas, no meio disso tudo, algo inevitável aconteceu: perdemos também quem nunca deveria ter sido perdido.

Gente que estava conosco há anos. Gente que acompanhava, que via, que existia ali conosco. E talvez seja isso que mais doa.

Porque, no fundo, essa história nunca foi sobre números. Nem sobre seguidores. Nem sobre plataformas. Foi – e continua sendo – sobre vínculo. Sobre presença. Sobre esse fio invisível que nos conecta uns aos outros, mesmo quando não sabemos exatamente como.

Hoje, seguimos reconstruindo. Devagar. Com cuidado. Tentando reconhecer, no meio do ruído, as vozes que sempre estiveram ali. E aceitando, também, que nem tudo volta. Que há perdas que não se recompõem. Que há memórias que ficam apenas no que sentimos. E não mais no que podemos acessar.

Mas talvez seja justamente isso que nos sustente. A certeza de que, mesmo quando tudo se apaga, algo permanece. Não no arquivo. Não no perfil. Mas naquilo que, de algum modo, seguimos sendo.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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