O tempo na área de serviço

Quando ela me ligou, agora pela manhã, mesmo antes de atender ao telefone, eu tive vontade de chorar. Foi o número no visor, aquele reconhecimento silencioso de quem sabe demais da nossa vida, que abriu uma fenda. Segurei. Às vezes, envelhecer também é isso: aprender a adiar o desmoronamento por alguns segundos, só o suficiente para dizer “alô” com alguma dignidade.

Falamos longamente. Dois corpos atravessados pelo tempo, tentando organizar os escombros com palavras. Contei dos meus últimos dias, ela contou dos dela. Entre nós, uma espécie de simetria dolorosa nisso tudo. Não porque as histórias fossem iguais, mas porque a sensação era. Uma urgência. Como se a vida, de repente, tivesse decidido acelerar o passo, enquanto nós ainda tentamos entender o trajeto.

Chorei quando desliguei.

Fui até a cozinha, talvez em busca de alguma coisa concreta, uma superfície que não desabasse. E então vi: ele passava roupas. Disse, com uma naturalidade quase ingênua, que não havia mais roupas em seu armário. Fiquei olhando aquela cena como quem olha uma fotografia antiga, mas em espelho. Não era o passado que se revelava ali. Era o presente, finalmente, mostrando sua face sem disfarces.

Em mais de vinte anos, era a primeira vez que eu o via passar roupas.

E, de repente, tudo se organizou num único pensamento. Era o tempo que se desnudava à minha frente.

Nossa diarista, uma mulher extraordinária, dessas que sustentam o mundo sem nunca aparecer nas fotografias, trabalha com a gente há mais de vinte anos e  já não dá conta como antes. E como poderia? Setenta e sete anos. Acorda às cinco e meia da manhã, atravessa a cidade, chega com o corpo já cansado e, ainda assim, insiste. Não quer ouvir falar em aposentadoria. Briga comigo quando toco no assunto. Há uma dignidade ali que me comove, mas também me assusta. Porque não é apenas sobre ela. É sobre todos nós.

A roupa acumulada na área de serviço não é só roupa. É o tempo que deixou de ser invisível. Ele agora se mostra. Nas pilhas que crescem. Nos gestos que mudam. Nas pequenas falhas da rotina que antes eram impensáveis. Há algo de brutal nessa revelação. Não no sentido de violência explícita, mas naquilo que não negocia. O tempo não negocia.

Sessenta e três anos.

Dizer isso em voz alta produz um tipo estranho de eco. Não é exatamente tristeza. Também não é resignação. É outra coisa. Uma espécie de lucidez que chega sem pedir licença. É que a juventude não acaba de uma vez. Ela vai murchando. Dia após dia. Como uma planta que ainda está viva, mas já não cresce na mesma direção.

E talvez o mais difícil não seja o corpo que muda. Nem a energia que oscila. O mais difícil é essa percepção súbita de que certas conversas já não encontram lugar.

Pensei em ligar para os meus irmãos. Sobramos poucos. Pensei mais um pouco. O que eu diria? Como explicar que estou abalado por causa de roupas não passadas? Como dizer que há uma tristeza escondida numa pilha de tecidos esquecidos? Que o problema não é a roupa, nunca foi. É o que ela anuncia?

Porque há coisas que pertencem a um território muito específico. Um território que talvez a gente chame de família, mas que nem sempre coincide com o sangue. Às vezes, família é quem reconhece o tremor na sua voz antes mesmo de você nomeá-lo.

Por isso o telefonema da manhã. Por isso aquela vontade de chorar antes mesmo do “alô”.

Envelhecer, começo a entender, é também perder certas traduções. As palavras continuam existindo, mas já não encontram todos os ouvidos. E, ao mesmo tempo, é descobrir outras escutas. Mais raras. Mais precisas. Como se o mundo fosse se afunilando e, nesse afunilamento, algo também se tornasse mais verdadeiro.

A vida segue. Seguirá sempre, independente de mim. Com roupas por passar. Com dores que não cabem em explicações rápidas. Com amigos que, do outro lado da linha, também tentam entender o que está acontecendo.

Dois seres em destroços, sim. Mas ainda falando.

E talvez seja isso que, no fim, nos sustenta. A possibilidade de, mesmo com tudo murchando um pouco a cada dia, ainda encontrar alguém que escute. Alguém que diga, sem dizer exatamente: eu também estou aqui

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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