O que não se aprende, acontece

No Os Satyros o gênero nunca foi uma regra. Foi sempre uma espécie de brincadeira séria. Ou talvez o contrário: uma seriedade que só se sustenta porque brinca.

Desde sempre, nós, os meninos, nos tratamos no feminino. Assim, naturalmente. Como quem pede um café ou chega atrasada para o ensaio. “Amiga, você viu aquilo?” “Querida, segura isso pra mim.” No começo, nem parecia escolha estética, política ou qualquer coisa que hoje se queira nomear com solenidade. Era só linguagem. E linguagem, quando é viva, escapa.

De tão orgânico, durante muito tempo achei que o mundo fosse assim. Que em qualquer grupo de homens, em qualquer esquina, alguém diria “nós duas” sem que isso causasse um pequeno curto-circuito no ouvido alheio. Descobri, com o tempo, que não. Que havia ali uma pequena invenção nossa. Dessas que não pedem concessão para existir.

E como toda invenção verdadeira, ela contagia.

Basta alguém se aproximar. Um ensaio, dois cafés, três noites mal dormidas e pronto. Lá está o recém-chegado dizendo “amiga” com uma convicção que não se explica. É quase um batismo, mas sem água, sem padre, sem culpa. Apenas a delicadeza de poder ser outro – ou outros – por alguns instantes.

Nem todos aderem da mesma forma, claro. Eduardo Chagas, por exemplo, permanece firme em sua gramática original. Mas nem por isso escapa: virou Vódu. Uma entidade híbrida, meio avó, meio Edu, dessas que só poderiam existir ali, naquele território onde a lógica dá lugar à convivência. E isso basta.

Há pouco, recebi uma mensagem do Thiago Ribeiro. Um meme bobo de internet em que ele dizia que as duas mulheres do vídeo éramos nós duas. Respondi sem hesitar: “claramente, nós duas”. E havia ali uma verdade que dispensava explicação. Não era ironia. Não era performance. Era só um acordo silencioso sobre a possibilidade de existir fora das margens estreitas da língua.

Talvez seja isso que mais me encante: a ideia de que a linguagem pode ser um lugar de trânsito. Um espaço onde se experimenta, sem precisar justificar. Onde um pronome não aprisiona. Ao contrário, abre. Penso nisso quando vejo Marcia Daylin em cena. Travesti, raramente escalada para papéis trans. Quase sempre interpretando personagens cis. Como agora, em “Quase Todos”, onde é a mãe. E que mãe. Há algo de profundamente libertador nesse gesto. Não por negar o que se é, mas por recusar a obrigação de caber apenas nisso.

No fundo, talvez a gente esteja falando de liberdade. Mas de uma liberdade miúda, cotidiana, quase invisível. Aquela que se infiltra nas palavras antes de virar discurso. Que aparece num “nós duas” dito sem alarde. Que transforma Eduardo em Vódu sem precisar explicar a ninguém.

O mundo, quando permite essas pequenas torções, fica mais leve.

E talvez seja essa leveza – tão rara, tão necessária – que nos mantém, ainda, brincando de linguagem como quem, no fundo, está tentando reinventar a própria vida.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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