CRÍTICA | Um vulcão que não queima ao explodir

Um teatro bonito em cada aspecto. Cheio de significado e simples sem ser raso, muito pelo contrário. “Quase Todos” (@ossatyros ) é um vulcão que não queima ao explodir. Aponta pra gente e nos faz pensar sobre nossos afetos sem pieguice mas sem catástrofe. É um olhar sóbrio sobre nossos dramas neste mundo de IA e redes sociais sem coitadismos, mas com uma dose precisa de sensibilidade que nos liga àquela família que tem sua questões, mas sem cair no clichê da disfuncionalidade total ou do amor propaganda de margarina. A família é o que ela é e desta microssociedade naquele palco saem reflexão profundas sobre a compreensão que temos de nós mesmos no mundo.

Sabe aquela coisa que é só sua, mas também é partilhada? Sim, a memória, ainda que fresca, quer o tempo todo escapar de nós. E escapa! Mas nós ao tentarmos agarrá-la inventamos outros significados que fazem dela, ainda que partilhada, algo só nosso. Isso é de uma solidão desesperadora por que mostra que a subjetividade faz de nós ilhas sentimentais vagando sozinhas no espaço sem ser capaz de, por si só, tocar outras subjetividades. Aí entra o falar e o contar histórias. É a tentativa desesperada de percebermos que nossa subjetividade é percebida por outras subjetividades que nos move às relações. É também a tentava de perceber o outro para reduzir a sensação de solidão, por que afinal, “só eu sou eu” em todo universo.

Em “Quase Todos” a dramaturgia de Ivam Cabral (@ivam_cabral ) e Rodolfo Garcia Vàzquez (@rodolfovazquez); junto à belíssima atuação, cenografia, visagisismo, iluminação e uso instigante da tecnologia de projeções (que eu nunca tinha visto antes) da Companhia Os Satyros (sempre perfeitos!), nos colocam diante de uma família em que os quatro filhos se distanciam após uma infância e adolescência marcada por dificuldades, mas também momentos de união e amizade. Eles juram sempre estarem juntos, mas a vida os leva para diversos cantos. Após décadas existe um reencontro, mas embora o amor exista, não existe mais o que se falar.

Não é sobre a efemeriade do afeto, mas algo mais profundo que é nossa solidão intrínseca em que a perda da proximidade (não necessariamente física) muda o como nos relacionamos. É essa ausência indizível que nos leva a percepção do quanto somos sós.
Como já disse, “Quase Todos” é uma dramaturgia riquissima e que não se encerra no fim do último ato. Fica coversando com a gente!

Gente, a peça é MUITO BOA! Só fica no Sesc 24 de maio até amanhã, 12/04. Mas pare e que vão votar no Espaço d’Os Satyros. Não percam! Deixem no radar. Tenho certeza que vão gostar!

Fonte: Thiago Genaro

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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