Há notícias que a gente demora para contar. Não por estratégia. Por tristeza mesmo. Esta, por exemplo, não vai para as minhas redes sociais. Prefiro dividi-la apenas com vocês, que há tanto tempo acompanham este pequeno pedaço da minha vida através deste blog.
Há cerca de um ano, os proprietários do imóvel onde funciona o Espaço dos Satyros nos procuraram oferecendo a possibilidade de comprá-lo. Pediam dois milhões e meio de reais. Fizemos contas, conversamos com bancos, imaginamos caminhos. Não havia como.
Pensamos em tornar a situação pública, pedir ajuda, mobilizar pessoas. Mas, naquele mesmo momento, outros grupos atravessavam dramas semelhantes. Parecia errado disputar a atenção para a nossa dor.
O imóvel, então, foi colocado à venda.
Há poucas semanas acompanhei a visita do primeiro interessado. Mostrei a plateia, os camarins, os corredores, as salas. Falei da estrutura do edifício enquanto, por dentro, tentava não pensar que estava apresentando vinte e seis anos da minha própria vida.
O teatro tem uma estranha relação com a permanência. Passamos décadas acreditando que construímos lugares, quando talvez sejam os lugares que nos constroem.
Se o imóvel for vendido, teremos que sair. É simples assim. Um contrato pode apagar uma história inteira.
E isso acontece justamente quando a própria Praça Roosevelt parece viver a ameaça de deixar de ser espaço público para se tornar produto.
É curioso. O teatro nos ensinou a lidar com a impermanência. Cada espetáculo acaba. Cada aplauso desaparece no ar. Mas nunca imaginei que um dia precisaria assistir, em silêncio, à possibilidade de o palco onde vivi grande parte da minha existência também baixar a cortina.
