Eu tinha seis anos quando participei da minha primeira eleição.
Não foi para presidente da República. Nem para prefeito. Nem para governador. Foi para presidente do grêmio estudantil da escola primária. Um cargo cuja importância prática, suspeito hoje, era próxima de zero. Mas cuja importância simbólica, para mim, só cresceu com o passar dos anos.
Lembro da cena com uma nitidez curiosa.
Uma funcionária da secretaria entrou na sala e pediu que alguns alunos a acompanhassem. Éramos os que haviam passado pelo jardim de infância da própria escola. Cinco ou seis crianças, talvez. Fomos conduzidos para uma sala onde nos explicaram que a escola estava criando um grêmio estudantil. Falou-se em representação dos alunos, em participação, em votação. Palavras enormes para crianças que ainda confundiam esquerda e direita.
A regra era simples: cada um poderia votar em quem quisesse. Inclusive em si mesmo.
A votação aconteceu. Dos cinco ou seis candidatos, todos votaram em si próprios. Menos eu. Não faço ideia do que passou pela minha cabeça naquele momento. Talvez nada. Talvez uma ingenuidade tão absoluta que eu sequer tenha considerado meu próprio nome. Talvez tenha achado estranho escolher a mim mesmo. Talvez apenas tenha seguido um impulso que não saberia explicar nem então nem agora. O fato é que votei em um colega. Meu voto lhe deu a vitória. Como prêmio de consolação, recebi a vice-presidência.
Durante anos guardei essa história como uma anedota engraçada. Uma dessas lembranças familiares que arrancam algumas risadas. Mas, à medida que envelheço, percebo que ela me interessa menos pelo resultado e mais pela pergunta que carrega. Em que momento aprendemos a votar em nós mesmos?
Porque as crianças parecem nascer oscilando entre dois movimentos contraditórios. Há nelas um egoísmo natural, necessário para sobreviver. Mas há também uma capacidade de deslocar o olhar para o outro com uma espontaneidade que os adultos frequentemente perdem.
A vida, aos poucos, vai nos ensinando a nos escolher. E talvez isso seja importante. Quem não aprende a votar em si corre o risco de desaparecer dentro dos desejos alheios.
Mas existe também o risco contrário. O de passar a vida inteira votando apenas em si mesmo. O de transformar toda escolha em autopromoção. Toda conversa em monólogo. Toda relação em espelho.
Não sei exatamente o que aquele menino de seis anos estava tentando fazer quando entregou seu voto ao colega. Mas gosto de pensar que, por alguns segundos, ele acreditou que a eleição não era sobre si.
Hoje, olhando para o mundo, às vezes tenho a impressão de que perdemos um pouco dessa capacidade. Vivemos cercados por discursos que nos incentivam a construir marcas pessoais, fortalecer nossa imagem, vender nossas qualidades, defender nossos interesses. Há uma lógica que nos empurra continuamente para o centro da fotografia.
Talvez por isso eu volte com frequência àquele pequeno episódio. Não porque tenha sido virtuoso. Nem porque eu merecesse algum tipo de medalha por isso. Mas porque ele me recorda algo que a maturidade frequentemente esquece: a vida não acontece apenas quando escolhemos a nós mesmos.
Ela também acontece quando, por razões que nem sempre compreendemos, decidimos apostar no outro.
Foi assim que perdi minha primeira eleição. E talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que aprendi alguma coisa sobre convivência.
