Passei os últimos dias pensando em Os Irmãos Karamazov. Na verdade, pensando menos no romance e mais no que ele continua fazendo conosco quase cento e cinquenta anos depois de ter sido publicado.
Foi o último livro de Dostoiévski. Publicado em 1880, conta a história de uma família desajustada: um pai, três filhos reconhecidos e um quarto homem, criado da casa, que cresce entre o rumor e a suspeita de também ser filho daquele mesmo pai. A informação nunca é esclarecida completamente. Como acontece tantas vezes na literatura de Dostoiévski, a verdade não é algo que o autor entrega. É algo que a gente, leitor, precisa habitar.
A trama se desenrola numa pequena cidade do interior da Rússia e, em determinado momento, acontece um assassinato. Naturalmente, a pergunta surge. Quem matou?
As suspeitas recaem sobre um personagem. As evidências apontam numa direção. Os julgamentos se organizam. As convicções se consolidam. Mas Dostoiévski parece pouco interessado em resolver um mistério policial. O crime está ali por outro motivo. Ele funciona como uma espécie de lâmina que corta as personagens ao meio e permite que vejamos o que existe por dentro delas. Porque o verdadeiro tema do romance nunca é o assassinato.
O verdadeiro tema é o ser humano. É Deus. É a fé. É a ausência dela. É a culpa. É o sofrimento. É a liberdade. É essa pergunta quase insuportável sobre o que fazemos quando ninguém está olhando.
Penso no livro e concluo que talvez a grande força de Dostoiévski esteja justamente aí. Enquanto nós queremos descobrir quem fez alguma coisa, ele insiste em perguntar por quê.
E curioso perceber como o mundo mudou e, ao mesmo tempo, não mudou nada. Vivemos cercados por tecnologias que pareceriam magia para os habitantes daquela pequena cidade russa. Carregamos bibliotecas inteiras no bolso. Conversamos instantaneamente com pessoas do outro lado do planeta. Produzimos mais informações em um dia do que gerações inteiras produziram ao longo da vida. Mas continuamos sem saber responder às mesmas perguntas.
Existe algum sentido para o sofrimento? Somos livres ou apenas obedecemos às nossas próprias prisões? O ser humano nasce bom? Deus existe? E, caso exista, por que o mundo continua sendo o que é?
Talvez seja por isso que certos livros atravessam os séculos. Porque eles não oferecem respostas. Eles preservam perguntas.
Então, enquanto pensava em Os Irmãos Karamazov, uma situação recorrente da faculdade que dirijo me voltou à cabeça. De tempos em tempos descobrimos que um estudante assinou a lista de presença por outro. É uma fraude. Dependendo da interpretação jurídica, talvez até algo próximo da falsidade ideológica.
Naturalmente, a primeira pergunta que surge é simples: Quem foi? Quem assinou? Quem permitiu? Quem estava ausente? Quem mentiu?
É a mesma pergunta que atravessa o romance de Dostoiévski. Quem matou?
Mas, curiosamente, talvez essa seja a pergunta menos importante. Porque descobrir o autor do ato costuma encerrar o caso. E eu não tenho certeza de que quero encerrar o caso. O que me interessa é outra coisa. Por que um estudante faz isso? O que acontece entre a regra e o desejo para que alguém decida assiná-la? O que existe naquele gesto aparentemente banal? Solidariedade? Medo? Preguiça? Desprezo pela instituição? Uma tentativa de proteger um amigo? A sensação de que as normas são apenas obstáculos sem sentido? Ou talvez algo ainda mais contemporâneo: a ideia de que pequenas mentiras não possuem consequências.
Percebo que, ao longo dos anos, dirigir uma escola me ensinou algo parecido com aquilo que Dostoiévski parece ter compreendido há mais de um século.
Os fatos importam. Mas os motivos importam mais. A punição pode organizar um comportamento. Mas apenas a compreensão é capaz de iluminar uma experiência humana.
Talvez seja por isso que os grandes romances envelheçam tão pouco. Eles nos lembram que o mistério nunca está no acontecimento. O mistério está nas pessoas. Descobrir quem assinou uma lista pode exigir uma perícia. Descobrir por que alguém sentiu necessidade de fazê-lo exige uma investigação muito mais difícil. Uma investigação sobre aquilo que nos torna humanos.
