Nem todo mundo tem o privilégio de devolver uma amiga à história. Eu tive. E isso me alegra profundamente.
Nas últimas semanas terminei de escrever um pequeno livro sobre Phedra D. Córdoba. Em breve ele será publicado pela editora O Sexo da Palavra, na coleção Vidas Sequestradas, dirigida por César Braga-Pinto.
Sinto orgulho disso. Da editora, da coleção e da possibilidade de participar de um projeto dedicado a resgatar vidas que, por diferentes razões, foram empurradas para as margens da memória.
Mas o que mais me surpreende não é a publicação. É a escrita.
O livro nasceu rápido. Entre a primeira linha e o ponto final passaram-se cerca de dez dias.
Entre as muitas formas possíveis de escrever sobre Phedra, escolhi uma bastante específica: falar da minha relação com ela. Não quis escrever uma biografia definitiva. Quis escrever sobre a artista que atravessou minha vida, a amiga que ocupou nossos palcos, nossas casas e nossas madrugadas.
Talvez por isso tudo tenha acontecido tão depressa. A pesquisa já estava dentro de mim. Não nos arquivos. Na memória. E a memória, às vezes, escreve mais rápido do que a razão.
Quando terminei a última frase, fechei o computador e segui o dia sem dar muita importância à data. Horas depois, Julia Bobrow me enviou uma mensagem:
“Você percebeu que hoje é aniversário da Phedra?”
Eu não tinha percebido. Era 26 de maio. Que loucura a vida!
Não sou especialmente místico. Desconfio de coincidências quando elas tentam se explicar demais. Ainda assim, gosto de pensar que algumas histórias escolhem os próprios tempos.
E Phedra sempre teve uma relação peculiar com o tempo. Ela chegava antes. Antes dos debates. Antes das categorias. Antes das palavras.
Naquela noite entendi outra coisa. Minha vida está dividida em duas partes: antes e depois da Praça Roosevelt. A praça transformou minha existência. Transformou a vida de centenas de artistas. Transformou uma região inteira da cidade.
Phedra sempre foi a melhor e maior tradução da praça. Extravagante e vulnerável. Engraçada e trágica. Popular e sofisticada. Bagaceira e elegante. Generosa e feroz. Uma sobrevivente.
Muito antes de o Brasil possuir linguagem para compreender pessoas como ela, Phedra já ocupava os palcos. Já inventava formas de existir. Já transformava a própria vida em obra. Talvez por isso escrever este livro tenha me emocionado tanto. Porque não se tratava apenas de contar a história de uma amiga. Tratava-se de impedir um esquecimento.
A literatura não ressuscita ninguém. Mas, às vezes, impede que alguém desapareça.
Nem todo mundo tem o privilégio de devolver uma amiga à história. Eu tive.
Foto: Andre Stefano

10 dias e o décimo dia ser a data de aniversário dela. Me despertou muito o interesse na leitura e conhecer um pouquinho da Phedra. Parabéns!!!