O que um curso não ensina

Hoje todo mundo corre atrás de certificados como quem tenta construir uma identidade empilhando comprovantes de existência. Cursos, selos, especializações, MBAs, extensões, workshops. Tudo vai abastecendo o LinkedIn, o Lattes, os perfis profissionais, essa espécie de vitrine permanente onde parece necessário provar, o tempo inteiro, que seguimos produtivos, atualizados, funcionais. Uma obsessão, eu diria. Como se a vida pudesse ser organizada em PDFs. Como se o humano coubesse numa moldura timbrada. Como se a delicadeza – e a brutalidade também – de escutar alguém em sofrimento pudesse ser resumida a uma carga horária cumprida aos sábados.

Recentemente, a psicanalista Vera Iaconelli disse algo que me pareceu de uma obviedade quase revolucionária: um curso não faz um psicanalista.

Curioso perceber como, às vezes, precisamos resgatar o óbvio como se fosse uma descoberta arqueológica. Porque vivemos um tempo em que tudo virou formação acelerada. Há cursos para liderança, felicidade, espiritualidade, luto, amor-próprio, inteligência emocional e até silêncio interior. O que talvez seja a maior ironia contemporânea: aprender silêncio através de apostilas.

Mas a observação de Vera vai além da psicanálise. Ela costuma estabelecer uma comparação que considero extremamente feliz: a formação do psicanalista se aproxima da formação do ator. E concordo completamente. Porque existem profissões que pertencem à mesma família dos artesanatos. Podemos estudar suas técnicas. Podemos conhecer seus autores fundamentais. Podemos decorar conceitos, teorias, métodos e escolas. Tudo isso é importante. Tudo isso ajuda. Mas chega um momento em que o conhecimento precisa encontrar a experiência.

Um ator não aprende a atuar apenas lendo Stanislavski. Não aprende a lidar com o medo, com o corpo, com o silêncio, com o fracasso e com o encontro humano sentado numa sala de aula. Aprende no ensaio. Aprende no palco. Aprende errando. Aprende descobrindo, muitas vezes tarde demais, aquilo que nenhum professor poderia ter lhe explicado antes.

Com o psicanalista acontece algo semelhante. A escuta não nasce de um certificado. Ela nasce do encontro. Nasce da análise pessoal. Nasce da supervisão. Nasce dos pacientes. Nasce da lenta construção de uma presença capaz de sustentar a dor do outro sem a tentação permanente de corrigi-la, resolvê-la ou domesticá-la. Há coisas que só o fazer ensina. Há saberes que não se transferem por apostila. Há experiências que não podem ser terceirizadas.

Eu, particularmente, fiz muitos cursos. Muitos mesmo. Gosto profundamente de estudar. Até hoje continuo lendo, frequentando seminários, participando de grupos de pesquisa, buscando interlocuções. O estudo me move. Sempre me moveu. Mas compreendi, com o tempo, que nenhum certificado me aproximou tanto da psicanálise quanto o encontro concreto com a clínica.

Foi o consultório que começou a me formar. Antes disso, eu era apenas um sujeito curioso tentando organizar teorias dentro da própria cabeça. E talvez seja justamente aí que os cursos encontrem seu verdadeiro lugar: quando deixam de funcionar como promessa de completude e passam a existir como espaço de interlocução. Como território do entre. Entre analistas. Entre dúvidas. Entre impasses. Entre perguntas que jamais terminam. Porque, se dependesse apenas da formação institucional, eu talvez estivesse perdido até hoje.

Nos primeiros cursos que frequentei, por exemplo, escutava-se frequentemente que o analista deveria desaparecer diante do analisando. Tornar-se quase uma superfície neutra, uma espécie de ausência organizada.

Eu me lembro de levar para as discussões justamente as teorias de transferência e contratransferência, tentando compreender de que maneira alguém poderia escutar o outro sem também ser afetado por ele. Nunca consegui acreditar inteiramente nesse ideal de apagamento. Talvez porque eu tenha chegado à clínica depois de uma vida inteira no teatro. Quando comecei a atender, eu já carregava anos de análise e décadas de palco. Décadas de exposição pública, de crítica, de aplausos, de fracassos e de encontros humanos extremos. Já tinha aprendido, pela arte, que toda relação produz presença. Mesmo quando tentamos disfarçá-la.

Talvez por isso jamais tenha me angustiado excessivamente essa ideia de anonimato absoluto que alguns analistas defendem quase como um dogma religioso. Venho, em alguma medida, da escola de Contardo Calligaris, que me iniciou nesse universo. Sempre admirei a maneira como ele conseguia existir publicamente sem transformar a clínica num espetáculo narcísico de si mesmo. Havia ali uma inteligência ética muito delicada. Ele escrevia. Aparecia. Opinava. Circulava pelo mundo, ainda assim, preservava o espaço analítico. Porque uma coisa não elimina a outra.

Sim, penso que nós, analistas, devemos nos preservar. Nossos papéis precisam ser desenhados com clareza. Não, eu nunca serei o melhor amigo do meu analisando. Nem me encontraria com ele em um contexto que não fosse o analítico. A clínica exige contorno. Exige responsabilidade. Exige limite. Mas também exige humanidade. E talvez seja justamente aí que certas caricaturas contemporâneas da psicanálise me produzam estranhamento.

Alguns analistas parecem acreditar que neutralidade significa desaparecimento. Como se ética dependesse de virar uma sombra sem corpo, sem história, sem presença no mundo. Ora, Freud desenvolveu praticamente toda a sua obra em Viena entre o final do século XIX e o início do XX. Naquele período, a cidade tinha entre um milhão e setecentos mil e dois milhões de habitantes. Uma grande capital europeia, evidentemente. Mas também uma espécie de aldeia sofisticada onde intelectuais, artistas, médicos, músicos e pacientes frequentavam os mesmos cafés, os mesmos restaurantes, os mesmos salões culturais.

Gosto de imaginar Freud entrando num café vienense e encontrando pacientes, colegas, adversários, curiosos e detratores sentados a poucos metros dele. A vida acontecendo. Sem a assepsia imaginária que hoje, às vezes, tentam impor à clínica. Todos se cruzavam. Porque a psicanálise nasceu no mundo. Nasceu no ruído das cidades. Nasceu nas contradições humanas. Nasceu nos encontros reais.

Talvez por isso eu goste tanto de analistas que colocam a cara ao sol. Analistas que existem. Que escrevem, erram, aparecem, envelhecem, adoecem, demonstram fragilidade, sustentam contradições. Analistas reais.

Humanos – seja lá o que essa palavra ainda queira dizer num tempo em que todos parecem tão empenhados em parecer impecáveis. Porque, no fundo, talvez a grande questão seja justamente esta: um paciente não procura um ser iluminado. Procura alguém capaz de suportar o humano sem fugir dele. E isso não se aprende num curso de fim de semana. Nem numa certificação de duzentas horas. Nem num diploma emoldurado na parede.

Aprende-se vivendo. Aprende-se fazendo. Como o ator aprende no palco. Como o artesão aprende na oficina. Como todo ofício verdadeiramente humano sempre aprendeu.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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