Todos os Sonhos do Mundo, um diário — Rascunho 5

Estar em cartaz de quarta a domingo é trabalhar bastante. Muito mesmo. Em menos de um mês – e contando com minhas atuações nas Satyrianas – já fiz 20 sessões de “Todos os Sonhos do Mundo”. Até o final da temporada, serão 30!

Me lembro da época do meu mestrado, quando fiz uma disciplina com a professora Rachel de Araujo Fuser e analisamos a pré-atuação do ator. A pesquisa da professora é bastante interessante. Para análise, ela parte de um ginasta na preparação de um salto. Se ele partir para o movimento com os dois pés alinhados terá muito menos chance de fazer um bom trabalho. O ideal é que um pé esteja à frente do outro, numa distância considerável entre ambos. Desta maneira, é mais provável que seu salto obtenha êxitos melhores.

A professora Rachel traz este exemplo para o ator. Quais os mecanismos que existem para que possam ser utilizados em seu trabalho para garantir que sua realização seja mais acertada? Exercícios vocais, alongamento, silêncio e concentração?

Em sua pesquisa, ainda, a professora Rachel chegou à conclusão que o trabalho de um ator em um espetáculo de 60 minutos equivaleria a oito horas se comparado ao de um trabalhador braçal.

Não duvido, o jogo é realmente complexo. É só vocês virem as minhas camisas depois de uma apresentação pra entender este jogo. Saio sempre aos pingos.

Tenho mais outro exemplo bastante curioso. Ao final deste “Todos os Sonhos do Mundo” eu saio de cena com a boca amarga, muito amarga e sinto que estou com mau hálito. Nunca tinha vivido isso. Uma sensação, também, de estômago e vísceras mexidas. Preciso sempre de muita água e de alguma goma de mascar.

Estar em cena de quarta a domingo também é experimentar muitas emoções. Cada espetáculo é um mundo inteirinho, impressionante. Principalmente neste “Todos os Sonhos do Mundo” que, em determinados momentos, converso com a plateia. E o que acontece ali, meu Deus!

Já vivi coisas inacreditáveis. Muitas que mudaram totalmente o sentido da peça, inclusive. Não necessariamente pra melhor ou pior. Mas mudaram. As declarações do público, suas opiniões sobre destino e livre arbítrio ou sobre a existência – ou não – de Deus são sempre surpreendentes. Toda noite saio muito mexido.

Nesta semana tivemos uma avalanche de críticos que foram assistir ao trabalho. Muitos mesmo. Teve uma sessão que haviam dez. Sim, foi isso mesmo que leram: DEZ! E, claro, o coração fica na mão, né?

Em contrapartida, a gente vai vendo coisas bonitas acontecerem. Por exemplo, o crítico José Cetra Filho, do Palco Paulistano, escreveu crítica e disse que nossa peça é “um dos mais belos e comoventes trabalhos a que a cidade assiste neste conturbado 2019”.

Não é pra ficar exultante de felicidade? Cansado, mas feliz. Viver é realmente extraordinário!

 

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TODOS  OS SONHOS DO MUNDO, UM DIÁRIO – RASCUNHO 1
TODOS OS SONHOS DO MUNDO, UM DIÁRIO – RASCUNHO 2
TODOS OS SONHOS DO MUNDO, UM DIÁRIO – RASCUNHO 3

TODOS OS SONHOS DO MUNDO, UM DIÁRIO — RASCUNHO 4
CRÍTICA DE JOSÉ CETRA FILHO 
O QUE ANDAM FALANDO A RESPEITO DA PEÇA
CRÍTICA DE MIGUEL ARCANJO PRADO
OPINIÃO DE MARIO BAGGIO
EU FIZ UMA PEÇA PARA NÃO ENLOUQUECER

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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