De vez em quando alguém me pergunta o que é a SP Escola Superior de Teatro. A pergunta parece simples e a resposta mais rápida seria dizer que se trata de uma escola de teatro, uma instituição dedicada à formação de artistas. Um lugar onde se estudam atuação, direção, dramaturgia, cenografia, iluminação, sonoplastia, humor, técnicas de palco.
Tudo isso é verdade. Mas também é insuficiente. Porque, depois de tantos anos, percebo que a nossa escola acabou se tornando algo que ultrapassa as fronteiras de uma escola profissionalizante. Ela se transformou, pouco a pouco, em um grande laboratório vivo de experiências humanas.
E essa talvez seja a palavra mais adequada: laboratório. Um laboratório onde se investigam formas de ensinar e aprender, onde se testam modos de convivência, onde se experimentam maneiras de construir coletividades em um mundo que parece cada vez mais fragmentado.
Vivemos uma época curiosa. Nunca estivemos tão conectados tecnologicamente e, ao mesmo tempo, tão ameaçados pelo isolamento. As diferenças, que poderiam ser fonte de riqueza, frequentemente se convertem em motivo de conflito. A sensação de pertencimento, que durante séculos ajudou indivíduos e comunidades a se reconhecerem como parte de algo maior, parece cada vez mais frágil. Nesse contexto, formar artistas talvez seja apenas uma parte da missão.
A outra parte é compreender como a arte pode produzir encontros. Como pessoas de origens sociais, culturais, geracionais e identitárias distintas podem compartilhar um mesmo espaço sem que precisem abrir mão de suas singularidades. Como criar ambientes onde a diversidade não seja apenas tolerada, mas reconhecida como potência criativa. Como transformar diferenças em linguagem.
Ao longo dos anos, recebemos estudantes vindos de inúmeros territórios, trajetórias e realidades. Pessoas que muitas vezes chegavam carregando a sensação de não pertencer a lugar algum. E algo acontecia durante o percurso. Não porque alguém lhes oferecesse respostas prontas, mas porque encontravam condições para construir vínculos, elaborar narrativas e ocupar o próprio lugar no mundo.
Isso tudo tem muito a ver com teatro. Mas também tem a ver com educação, cidadania, democracia, sustentabilidade e futuro.
Por isso, quando dialogamos com universidades, pesquisadores e instituições de diversos países, percebemos que o interesse pela SP Escola nem sempre está apenas naquilo que ensinamos. Muitas vezes está na maneira como ensinamos. Nos processos de criação coletiva, nas práticas de escuta, na convivência entre diferentes saberes, na tentativa permanente de construir uma pedagogia que articule técnica e humanidade, excelência artística e responsabilidade social.
Talvez seja por isso que hoje me sinto cada vez menos confortável em definir a instituição apenas como uma escola de teatro. Ela é isso, evidentemente. Mas é também um espaço de pesquisa sobre pertencimento, um território de experimentação sobre diversidade, um observatório das relações humanas, um campo de investigação sobre como a arte pode contribuir para a construção de futuros mais sustentáveis. Não apenas do ponto de vista ambiental, mas também social, afetivo e comunitário.
No fundo, a pergunta continua a mesma: o que é a SP Escola Superior de Teatro?
A cada ano que passa, tenho mais dificuldade em responder. E talvez isso seja um bom sinal. Porque as instituições mais vivas são justamente aquelas que nunca cabem inteiramente em suas próprias definições.
