PODCAST | Nessa confusão toda, só a arte nos salvará

por Michel Alcoforado

Já faz bastante tempo que aprendi que palavras têm força. Se você gasta demais, de uma hora para outra, elas não valem mais nada.

Desde que a covid-19 chegou ao nosso país jornalistas, blogueiros, formadores de opinião e até antropólogos gastaram demais uma palavra. De uma hora para outra tudo virou um novo normal. Ir à padaria era o novo normal, ir trabalhar era o novo normal, andar de transporte público é o novo normal. Acontece que no modelo de sociedade onde tudo é novo normal, nada é. E aí ficamos perdidos à uma palavra, que é usada para caramba, mas não diz mais nada.

Hoje tô querendo propor aqui um novo significado pro novo normal. Do meio ponto de vista a partir de agora a gente só deve usar essa denominação para classificar momentos onde a criatividade humana encontrou soluções para problemas muito antigos. E acho que o território das Artes pode nos dar pistas.

Há poucas semanas, a companhia teatral O Satyros estreou um espetáculo digital inspirado nas vivências da pandemia do covid-19. Eu fui no último domingo, mas sem sair de casa. Isso mesmo, dá para ir ao teatro agora sem sair de casa. O pessoal da companhia acabou de lançar uma peça que se chama “A arte de encarar o medo”. Ela é totalmente digital.

Você entra no site deles, compra o ingresso e na hora da sessão que é, sextas e sábados às 9h da noite e domingo às 4h da tarde, você assiste à peça com outras tantas pessoas, como se tivesse no teatro. O elenco, formado por 18 atores, faz um uso muito criativo das ferramentas digitais e explora novas linguagens, interações com o público, abre janela, fecha janela, tipos de iluminação que a gente não tá acostumado a ver no palco, sem falar nos usos das câmeras dos celulares e do computador que revelam possibilidade de linguagem que ninguém nunca tinha pensado.

A trama se passa num futuro distópico, meio indeterminado, onde ninguém sabe muito bem quando é nem onde é, mas a população chega a marca de 5555 dias de quarentena. Depois de tanto tempo já não sobra mais quase nada lá fora, e é sobre esse mundo que as pessoas voltam para reconstruir as suas vidas.

Olha, se você não entende muito de tecnologia não tem problema, as equipes de apoio dão todo um auxílio para facilitar que todos se conectem e assistam o espetáculo de igual maneira. Eu fiquei muito entusiasmado com a possibilidade, tenho certeza que você também ficará. Porque nessa confusão toda, só a arte nos salvará.

Beijo grande, até semana que vem, tchau tchau!

 

Fonte: Podcast Mais São Paulo, CBN

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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