Ivam Cabral, da Cia. Os Satyros, fala sobre “A Arte de Encarar o Medo”

por Dan Elias

Logo no começo da pandemia do novo coronavírus, a classe teatral se viu em um grande impasse: como continuar os trabalhos sem a possibilidade de encontro presencial com o público? Não demorou muito para que diversas companhias começassem a fazer apresentações de seus trabalhos de forma online, seja por meio de lives ou compartilhando gratuitamente registros de espetáculos filmados antes do início da quarentena.

Esse território online, que ainda não havia sido totalmente explorado pelos artistas, tem ganhado cada vez mais força durante o período de isolamento social. Conhecida tanto por ter transformado a Praça Roosevelt no point mais teatral da cidade de São Paulo, quanto por seu longo histórico de trabalhos de caráter experimental, a companhia de teatro Os Satyros aderiu rapidamente à exploração desse novo formato virtual, provando, mais uma vez, que não há fronteiras para as artes cênicas quando se tem uma boa ideia em mente.

A Arte de Encarar o Medo”, o novo trabalho do grupo, estreou oficialmente no dia 13 de junho e já foi assistido por cerca de 8 mil pessoas, inclusive fora do território nacional. Na dramaturgia, que se passa em um futuro distópico, as personagens tentam reconstruir histórias de uma vida anterior à pandemia.

O espetáculo é uma experiência virtual que acontece com o uso das plataformas Sympla (para retirada de ingressos) e Zoom (para transmissão). O trabalho conta com 19 atores, sendo que a maioria está em espaços físicos distintos e alguns até mesmo fora do Brasil. O público pode, na solicitação do ingresso, contribuir financeiramente com o grupo, escolhendo o valor que quer pagar para assistir à transmissão.

Para entender um pouco mais sobre esse projeto inovador e seus desafios, o Guia do Ator conversou com Ivam Cabral, cofundador d’Os Satyros, que está no elenco e assina, junto com Rodolfo Garcia Vázquez, a dramaturgia do espetáculo. Confira, a seguir, a entrevista na íntegra:

 

Como surgiu a ideia do espetáculo?

Ivam: Nós viramos esse ano sonhando entrar em um dos anos mais incríveis do Satyros. Nós tínhamos muito trabalho pela frente. Em fevereiro, a gente voltou com o “Pessoas Perfeitas” e traríamos a Trilogia das Pessoas de volta, enquanto prepararíamos um novo trabalho que estrearia no Sesc, quando a pandemia nos pegou pelo caminho.

Então o que aconteceu foi que a gente decidiu não parar. Imediatamente, após o cancelamento dessa temporada, a gente não voltou presencialmente, a partir do dia 20 de março já a gente começou a trabalhar na internet.

Não era ainda comum as lives, mas a gente achou que devia fazer assim mesmo. Então, eu coloquei o meu espetáculo solo, “Todos Os Sonhos do Mundo“, no Instagram e a gente convocou o pessoal para uma reunião no Zoom porque já estávamos todos isolados, distantes fisicamente, e, naquele momento, que foi o final de março, a gente já resolveu fazer uma peça. E aí a ideia era que fosse um teatro digital, onde a gente exploraria a internet, até que a gente pudesse voltar para o trabalho na Praça Roosevelt.

 

Tínhamos uma turnê bem grande pela Europa, onde a gente passaria por Portugal, Espanha, Finlândia e Suécia. Então, foi muito triste ter que parar tudo, mas isso nos motivou a continuar de modo online.

 

O elenco contribuiu de alguma maneira com a concepção do projeto, seja com figurino ou propostas de cena? 

Ivam: Embora a ideia da “Arte de Encarar O Medo” tenha sido minha e do Rodolfo (cofundador d’Os Satyros), a gente chegou para o elenco com essa proposta: de que nós faríamos um trabalho distópico, onde a gente imaginava que a pandemia chegaria a 5.555 dias, no futuro.

Então, embora a gente já tivesse um roteiro armado, a participação do elenco foi fundamental, porque, isolados, a gente tinha que trabalhar com o que cada um tinha em suas casas. A gente não comprou nada, não teve orçamento para nada.

A gente fez com as coisas que a gente tinha e a partir dos lugares onde essas pessoas estavam. O nosso elenco tem várias pessoas que não estão em São Paulo. Tem o Fabio Pena, que está no Rio Grande do Sul, tem a Ulrika Malmgren, que está na Suécia, em Estocolmo.

Enfim, cada um estava em um lugar. Então a gente tinha que contar com o que eles dispunham. E foi um trabalho todo em coletivo, onde o Rodolfo propunha temas do roteiro que a gente tava trabalhando e nós, atores, improvisávamos a partir do que a gente tinha à nossa disposição.

 

Como foi a decisão de fazer a obra acontecer pelo Zoom? Cogitaram outra alternativa inicialmente? 

Ivam: Eu estava em cartaz no Instagram com “Todos Os Sonhos do Mundo” e nós fomos procurados por um executivo da Sympla, Eduardo Pimentel. E eu confesso que quando a gente recebeu esse contato, não demos muita importância. Eu não entendi direito como que poderia ser uma peça pelo Zoom.

Quando a gente estava falando de fazer uma peça pela internet, a gente pensou no Instagram, no Youtube. Não sabíamos onde nós colocaríamos a nossa peça. Mas, provocados pelo Eduardo, a gente foi conhecer a plataforma Sympla e ficamos absolutamente encantado com a possibilidade que ele nos apresentava. Até porque, ele disponibilizava pra gente até 9 horas por dia de ensaio, gratuitamente. Então, foi a provocação da Sympla que fez com que a gente descobrisse o Zoom e permanecesse na nuvem.

 

Vocês chegaram a ser questionados se a obra é ou não é teatro? Como você vê essa problemática que está sendo muito discutida durante a quarentena?

Ivam: O tempo inteiro as pessoas questionam se é ou não é teatro. Eu não estou muito interessado nessa conversa, sabe? Porque eu acho que nós somos atores de teatro, eu nunca fiz outra. Quer dizer, eu fiz cinema, mas televisão eu nunca fiz, por exemplo. A nossa linguagem é teatral.

A gente tá ali fazendo o que a gente sabe fazer. As semelhanças com teatro são muito grandes porque a gente tem coxia, a gente tem contracena, a gente tem o frio na barriga, a gente tem o coletivo, a gente tem tudo que o teatro presencial tem. Tem contrarregragem também.

Eu acho que essa discussão fica para os críticos, para os antropólogos, fica pro futuro. O tempo vai dizer o que a gente está fazendo, e eu estou feliz de contribuir com esse tempo, propondo coisas e alternativas para a gente.

 

Houve algum apoio financeiro? Estão conseguindo repassar valores para os atores?

Ivam: A gente não teve nenhum incentivo. A gente fez isso com recursos próprios. A gente teve, na verdade, pouquíssimo dinheiro para produzir.

A gente tem assessoria de imprensa, a gente não podia deixar de ter, mas bancada pelo Satyros. O mínimo que a gente precisou foi bancado pelo Satyros e os atores recebem um percentual.

Milagrosamente, é bem surpreendente o resultado dessas duas primeiras semanas que a gente apresentou o espetáculo. Tivemos uma bilheteria significativa e fomos vistos por cerca de 8 mil pessoas. Isso é bem surpreendente e é muito acima do que a gente poderia imaginar.

 

Houve alguma seleção para a escolha dos atores envolvidos no espetáculo?

Ivam: Os atores que atuam na peça são do nosso coletivo. A gente trabalha juntos há muito tempo. Temos também dois atores convidados nessa peça: um é o César Siqueira, que, embora brasileiro, vive em Portugal há quinze anos e ele está fazendo mestrado lá na Escola Superior de Teatro em Lisboa. No mestrado dele, em algum momento, o tema recaía sobre o Satyros, e ele veio ao Brasil para fazer um estágio com a gente.

Ele chegou e, três dias depois, veio o isolamento. A gente sequer conhece ele pessoalmente, mas incorporamos o César ao trabalho e, desde então, a gente tem conversado.

Outra atriz convidada é Ulrika Malmgren, que é sueca. A gente conhece ela há mais de dez anos. Ela é uma atriz importante da Suécia, trabalha e dá aula na Escola de Artes Dramáticas de Estocolmo, a Escola de Rainha, onde estudou Greta Garbo.

Ulrika é uma pessoa muito especial pra gente, e é a segunda vez que a gente trabalha com ela, a primeira foi em “Cabaré Extravaganza”, em uma turnê que a gente fez pela Suécia em 2014, mas ela chegou a atuar também aqui no Brasil, aqui em São Paulo.

 

O problema de queda de internet ou delay já atrapalhou alguma das apresentações? Como está sendo lidar com essa imprevisibilidade? 

Ivam: O tempo inteiro a gente convive com essa questão da oscilação da internet. Todos nós já caímos muitas vezes durante a apresentação, isso é comum. Principalmente alguns atores que estão em locais de risco. Por exemplo, eu estou numa zona rural de São Paulo, na represa de Guarapiranga, em Parelheiros. Qualquer chuva, qualquer vento, derruba tudo. A gente fica sem energia e tal.

Então, tem sido bastante complicado. No meu caso, além da internet em casa, eu tenho o meu celular, embora o 4G aqui também funcione super mal. Quando acontece de cair a internet, e já aconteceu, eu ligo meu celular e ‘vamo embora’.

Já aconteceu também da internet cair na hora que um ator ia entrar em cena. Mas aí a gente improvisa, temos um jeito para driblar isso, de forma que o público nunca percebe que teve algum problema. Tem sido divertido e isso mostra também um pouco do improviso, que é do teatro, né? O improviso é uma coisa do ao vivo, que você tem que resolver naquele momento. E tem sido uma experiência muito bacana.

Você sente que agora, durante a quarentena, o público está mais aberto para consumir arte? Sente que está havendo essa procura?

Ivam: Eu acho que sim, o público tem consumido muito mais arte. As pessoas têm lido mais, ouvido mais música, assistido mais séries, porque elas estão com tempos ociosos né? Então, acho que, inconscientemente, até surgiu aí uma valorização aos artistas. Mesmo que muita gente não diga ou não reconheça isso.

A nossa dificuldade foi, na verdade, monetizar o nosso trabalho. Porque fazer um trabalho na internet, no Instagram, gratuitamente, como eu fiz, é relativamente simples. Agora, quando você estabelece um valor de ingresso de entrada, isso é mais complicado.

Esse era o nosso medo. Porque a internet é um lugar de ninguém, é um lugar onde todo mundo consome tudo sem pagar, né? E por isso a gente se surpreendeu, a gente teve, como eu disse, uma receita de bilheteria surpreendente. Eu não imaginava que fosse assim e acho que é muito por isso, porque as pessoas querem valorizar o nosso trabalho. E elas sabem que a gente, mais do que nunca, precisa de futuro e precisa continuar o nosso trajeto.

Você acha que o teatro online continuará sendo explorado como agora no pós-pandemia?

Ivam: Eu acho que sim. Eu acho que o teatro online continua. Pelo menos o Satyros sim. A gente não só estreou uma peça, mas a gente inaugurou um projeto, que é o Satyros Digital, que, a partir de agora, vai estar na internet para sempre. A gente sentiu que é uma belíssima forma de trazer pessoas de outros lugares para conhecer o nosso trabalho.

Por exemplo, nas nossas apresentações a gente tem uma verdadeira Torre de Babel. Tem gente do mundo todo ali vendo a gente, sabe? Gente do Brasil inteiro também, do Acre ao Rio Grande do Sul. Em todas as sessões a gente tem gente de todo lugar, e isso é muito surpreendente.

Pela primeira vez, a gente vê o teatro não sendo regional. Por exemplo, na nossa estreia, a Folha de São Paulo e o Estadão não deram nem uma matéria sobre a peça, mas a gente foi capa do segundo caderno d’O Globo. E a gente também foi matéria da Veja Rio, página inteira. Isso, antes da pandemia, era impossível, porque o teatro sempre é regional, né?

Então isso foi muito, muito surpreendente. E deu uma esperança para a gente. Talvez, depois da pandemia, não seja tão procurado quanto está sendo nesse momento. Por exemplo, hoje a gente já tem vendidos para o final de semana cerca de 500 ingressos. Isso é muito surpreendente.

Eu acho que isso, depois da pandemia, não vai se reproduzir dessa forma, acho que as pessoas estão muito curiosas com o que a gente tá fazendo. Mas eu acho que é uma forma muito, muito bacana de conexão, de troca. A gente tem trocado muito com outros grupos, com outros coletivos, e isso é muito bonito.

 

SERVIÇO
“A Arte de Encarar O Medo”
Ingressos disponíveis aqui: https://www.sympla.com.br/a-arte-de-encarar-o-medo—satyros-digital__870981
Para assistir ao espetáculo três coisas são imprescindíveis:
1) baixar o aplicativo Zoom https://zoom.us
2) fazer um cadastro e logar no site https://www.sympla.com.br
3) acessar a área Meus ingressos e clicar em ACESSAR TRANSMISSÃO (disponível 15 minutos antes do horário de início do evento)

 

Fonte: Guia do Ator

 

 

http://www.guiadoator.com.br/ivam-cabral-da-companhia-os-satyros-fala-sobre-a-arte-de-encarar-o-medo-news-detail-18603.html

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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