Stand by me

Não me esqueço deste dia. A gente brincava no rio do sítio do Celso Neia, devíamos ter entre sete e nove anos. Além de mim e do Celso Neia, mais uns três ou quatro coleguinhas e ele, o Mirtes.

Mirtes tinha recebido este nome em homenagem à sua parteira, a dona Mirtes. Dizem que sua mãe, que não tinha marido, prometeu à parteira que quem nascesse teria seu nome, independente se fosse menino ou menina. Naquele tempo se nascia de surpresa.

Havia um incômodo entre os meninos, nossos amigos, pelo fato do Mirtes ter um nome de mulher. Porque na cidade, todo mundo conhecia duas donas Mirtes, além da parteira. A dona Mirtes Mirandão, benzedeira, que trazia no nome o Mirandão do pai; e a Mirtes, professora da escola rural do Sete Voltas. E ainda brincavam com a sina do nome porque as três mulheres nunca haviam arrumado marido.

O Mirtes foi aluno da professora Mirtes. E durante todo o tempo em que estudou na escolinha, ao lado do rio Anhumas e da estrada que nos levava a Jacarezinho, sofreu como um desgarrado nas mãos dos meninos de sua sala. E foi por causa dessa história que o Mirtes veio estudar na escola da cidade. Mas o problema é que ele foi morar na casa da dona Mirtes, a parteira, que era vizinha da Mirtes Mirandão, a benzedeira. Então podem imaginar, né? A zoeira era certa!

Mas naquele dia, no riozinho que cortava o sítio do Celso, estávamos falando do nosso futuro, da mulher que casaríamos, dos filhos que teríamos, da nossa primeira noite com essas mulheres. Me lembro de comentar com os meninos da vergonha que senti ao me imaginar nu diante desta mulher que eu teria. Foi o Mirtes quem trouxe a solução pra minha vergonha:

— Só fazer no escuro.

Diante desta alternativa, me senti até aliviado.

— No escuro e sem tirar toda a roupa!, pensei.

Passou-se um tempo e, em um dia, na sacristia da nossa igreja – eu fazia parte do time de coroinhas –, estávamos nos preparando para a liturgia quando o Mirtes se aproxima de mim e sussurra:

— Eu descobri um jeito melhor. É só a gente não se casar.

Sem nenhum contexto, não entendi o que ele estava falando, mas não deu tempo de prosseguirmos com a conversa porque a madrinha Maria, a mulher do sacristão Natalino, já nos chamava para tocar as sinetas que anunciava o início da missa.

Soubemos, depois, que o Mirtes havia se decidido pelo sacerdócio. Me lembro de uma lista que passou pela minha casa listando itens para o enxoval do garoto que iria para o seminário, como cobertores e toalhas e meias e sapatos. Minha mãe costurou pra ele travesseiros que enchemos com painas, colhidas por nós no quintal de casa.

Nunca, nunca mais tive qualquer notícia do Mirtes. Porque tanto a dona Mirtes, a parteira, quanto a Mirtes Mirandão, a benzedeira, morreram pouco tempo depois da ida do nosso amigo para o Seminário Propedêutico Bom Pastor, de Umuarama. Teve um tempo em que procurei por sua família pelo Anhumas todo, mas ninguém tinha notícias de qualquer um deles.

Eu vivia em Lisboa, quando o padre Germano, que era alemão e viveu toda sua vida de sacerdócio em Ribeirão Claro, passou pelo Algarve de férias. Fui me encontrar com ele e foram dias bem bonitos, onde lembramos das histórias da minha infância, do tempo em que eu cheguei até a chefiar o grupo de coroinhas. E foi numa dessas conversas que soube o que tinha acontecido com o Mirtes.

Chegando no seminário, em Umuarama, o garoto teria ficado pouco tempo porque descobrira que sua fé não era o bastante para uma vida no sacerdócio e que teria voltado à nossa cidade. Como assim? Como eu nunca soube disso? O Mirtes era um amiguinho querido e tínhamos vivido muitas histórias incríveis juntos.

Tempo passa, estou em férias em Ribeirão e quero visitar os meus parentes que viviam no Anhumas. Então me lembro do Mirtes e penso em revê-lo.

Foi meu primo José, filho da tia Antonina e do tio João, que me contou o desfecho da história do Mirtes, que foi encontrado morto, pendurado num pé de caroba.

— Ele se enforcou?, perguntei atônito.

— Na árvore que ele plantou quando criança e que estava florida no dia em que ele decidiu por fim à sua vida., me contou José, o meu primo.

Voltei ao tempo. Eu estava com o Mirtes no dia que ele plantou a mudinha da caroba, oferecida pela Malfisa do bar do ponto. Enquanto me lembrava dessa data – era um dia de festa, talvez quando se casou a Venância ou quando a tia Emenegilda fez voto de pobreza e, pra celebrar, matou um boi – fui interrompido pelo meu primo que me informa:

— Nunca namorou, nunca teve ninguém. O corpo dele nem passou pela igreja, foi direto daqui pro cemitério.

Voltei pra casa dos meus pais com o coração dilacerado, me lembrando do tempo em que brincávamos no riozinho do sítio do Celso Neia, quando falávamos do nosso futuro, da mulher que teríamos como esposa, de todos os filhos que teríamos com elas e da vergonha que sentiríamos toda vez que tivéssemos que ficar nus em suas frentes.

 

*** foto do pé de caroba plantado pelo Mirtes, talvez em 1972

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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