As brincadeiras dançantes na casa das Marecas

Pobre que eu era, não tinha telefone em casa, óbvio. Até porque, na minha infância, telefone era coisa de gente rica. O que, na verdade, não me impedia de receber os meus telefonemas com alguma tranquilamente.

Minha casa ficava a uma quadra da delegacia da cidade e a duas do bazar do relojoeiro Fausto, casado com a dona Geralda. E eram desses dois lugares que, vez ou outra, eu era chamado para atender as minhas ligações.

Mas juro, quero morrer sequinho se estiver mentindo, que não era eu quem espalhava o telefone da delegacia ou do bazar do seu Fausto e da dona Geralda. Juro. Eram elas, as meninas da casa da Maria e da Terezinha Mareca que ligavam para me convidar para as brincadeiras dançantes que elas inventavam. Sempre aos domingos à tarde.

Bem comum eu estar em casa num domingo e, de repente, ser chamado por um policial ou algum funcionário lá da relojoaria do seu Fausto e da dona Geralda, muitas vezes ela própria, a dona Geralda, para atender aos telefonemas da casa das Marecas. Que paciência desses policiais e do seu Fausto e da dona Geralda, não acham? Uns santos!

Eu devia ter nessa época uns dez anos, não mais que isso. As meninas tinham essa idade também. A casa da Maria e da Terezinha Mareca ficava no caminho do campo da aviação, onde a gente, estivesse onde estivesse, ao ver um avião chegar na cidade, saia correndo em direção a ele. Mas sobre isso eu falo outro dia.

A turma das amigas da Maria e da Terezinha Mareca era grande. Tinha a Fabia que era prima da Ednamar, irmã da Rosana, que às vezes, não muitas, aparecia por lá. Tinha as irmãs da Maria e da Terezinha Mareca, também. Tinha a Petra, a Sandrina Collione, as Benficas, a Nena que era tia da Marinete, mas que tinham a mesma idade. E tinham os meninos, também, claro! O Elvio da Matta, o Nelson Feliciano, o Osvaldinho Leme, que era o galã da turma. Nossa, tinha muita gente!

Então, quando o soldado batia na porta de casa, ou um funcionário do seu Fausto e da dona Geralda vinha me chamar, já sabia que ir ter brincadeira dançante na casa das Marecas. Como sabia, o convite era estendido, corria pra casa do Nelson – que depois se casou com a Fábia – e do Oswaldinho, que eram vizinhos da minha casa, e lá íamos nós dançar até cansar.

Essa fase foi antes da dancing music, então, ao som de uma vitrolinha, a gente gostava mesmo de curtit música romântica. O máximo de uma rebolada mais atrevida acontecia com “O Vira”, do Secos & Molhados, ou com a guitarra do Alice Cooper.

E o repertório ali, na casa das Marecas, era muito bom. Tocava Elton John, Michel Jackson, The Stylistics, Roberta Flack, Gladys Knigth & The Pips, Stevie Wonder, Marvin Gaye e The Carpenters, entre tantos.

E, lembro bem, tudo o que a gente queria era crescer logo para poder dançar nas brincadeiras dançantes e nos bailes do Clube Atlético Ribeirãoclarense onde, contavam na cidade, aconteciam os bailes e as brincadeiras dançantes mais incríveis do mundo!

E a gente dizia, lembro também, que aqueles encontros na casa das Marecas era para aquecer o tempo que estava por vir. É. Mal sabíamos que a vida, afinal, ia ser bem dura para alguns de nós. Mas também não podemos deixar de imaginar que aqueles rebolados todos, aquelas gingas todas, não foram aprendidos para que a gente pudesse usá-los como escudo e vencer o tempo, não é mesmo? Pelo menos o tempo que era de cada um de nós… Meu Deus, quanta saudade!

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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